
Uns tantos anos atrás escrevi sobre literatura juvenil para um caderno legal que não existe mais na Folha de S. Paulo, Sinopse. O gancho era o estouro de Harry Potter e congêneres. Um artiguinho ao lado falava dos brasileiros. O mais importante, claro, é Monteiro Lobato.
Releio agora Lobato com meu filho de sete anos. É um prazer para os dois. Me dão urticária os recentes ataques a Lobato, por conta de suposto racismo. Era homem de sua época. Cobrar padrões do Século 21 é imbecil. Questionar e debater, sempre; jogar seus livros na fogueira - de novo! - não dá pra aceitar.
Lobato era imperfeito e é indispensável. Um dia escrevo algo que me orgulhe sobre meu ídolo. Para não deixar seu aniversário passar em branco, recupero um trechinho do texto pra Folha.
"... No Brasil, reina Monteiro Lobato. É lido e relido há quatro gerações, graças à imortal Emília - o mais encantador poço de egoísmo que já se viu. As aventuras "puras" da turma do Sítio do Picapau Amarelo continuam eletrizantes (os livros paradidáticos envelheceram mais), especialmente Os Doze Trabalhos de Hércules. São feijoadas modernistas em que entram contos de fadas, heróis mitológicos, caubóis e príncipes submarinos.
Lobato já merecia fama no universo juvenil só pelo papel de editor, na sua Companhia Editora Nacional, e criador da coleção Terramarear. Também foi tradutor de H. G. Wells, Jack London, Kim, As Aventuras de Huck Finn (de Mark Twain), Tarzan, Robin Hood e muitos outros, inclusive Polyanna (hoje com validade vencida, como outros clássicos manuais de comportamentos para mocinhas).
Lobato é um gigante. Hoje é difícil perceber seu aspecto transgressivo. Nas décadas de 30 e 40, a série do Sítio causava escândalo pela modernidade, pelo materialismo, pela falta de respeito às tradições. Chegou a ser perseguido pela imprensa, pelo Ministério Público e pela Igreja Católica. Em 1942, as freiras do Colégio Sacre Coeur de Jesus, do Rio de Janeiro, exigiram que todos os alunos trouxessem seus livros de Lobato ao colégio. Foram confiscados e queimados numa fogueira no pátio da escola..."
Felizmente e infelizmente, algumas coisas nunca mudam. Seja a Inquisição, ou jeitinhos de estimular mentes inquisitivas. Costumo inventar aventuras improváveis para entreter meu moleque. Misturam caubói com ninja, mitologia e ciência, um personagem de filme, outro de gibi; o Gato de Botas, Adele Blanc-Sec, Orlando Villas-Boas, Drácula... e Pedrinho, Emília e os outros picapaus.
Tudo junto e misturado, uma receita antropófaga que a turma do Sítio me apresentou. Cem anos depois, a receita ainda funciona. Mais uma que aprendi com Monteiro Lobato.
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