O segredo do sucesso de Roberto Carlos é que ele cantou o que fazia sucesso. Bidu, diriam os sabichões da época das calças calhambeque.
Mas é: Roberto Carlos sempre cantou a música jovem que mais fazia sentido e sucesso internacional. Foi único ao escolher qual seria a música internacional que faria somente sua.
Antes, haviam clones. Celly Campelo fazia Estúpido Cupido e Banho de Lua iguaizinhas às originais, mas era cópia, não tradução. Para fazer pop brasileiro, não basta verter a letra para português e macaquear arranjos e trejeitos.
Não basta correr atrás da modinha do momento, também não se deve esperar o bonde passar. É preciso traduzir o espírito original de maneira que toque o espírito nacional. É preciso escolher criteriosamente, encontrar as pontes possíveis entre o que acontece lá fora e o que nos toca aqui dentro. E isso ninguém fez melhor que nosso Rei - Rei do Rock.
Roberto, adolescente interiorano, durango, deficiente físico, sonhava fazer sucesso, brincava de ser rocker - duas coisas que nos anos 50 eram sinônimo de Elvis Presley. Em comum só tinham a caipirice e falta de fundos. Seu patrono Carlos Imperial vendia RC como “o Elvis brasileiro” e seu camarada Tim Maia como “o Little Richard brasileiro”. Nem uma coisa, nem outra. O Rei deles e o nosso teriam trajetórias bem diferentes.
Roberto Carlos não foi roqueiro radical. Cresceu ouvindo as cantoras do rádio. No Rio, tentou ser crooner de boate, tentou bossa nova, tentou qualquer coisa que pagasse as contas. Só acertou o alvo quando descobriu, intuiu, uma comunicação possível e orgânica entre a música brasileira e o som dominante nos EUA dos primeiros anos 60.
Foi no momento em que toda a primeira geração do rock saiu de cena. Elvis fora para o exército e voltara domesticado. Chuck Berry foi para a cadeia, Jerry Lee Lewis para o exílio, Johnny Cash para a margem, Little Richard para a igreja, Eddie Cochran e Buddy Holly para o céu. E o rock'n'roll para o vinagre, porque o sucesso da primeira geração do rock tinha sido manufaturado via propina para disc-jóqueis. Foi o famoso escândalo da “payola”.
O estouro de RC aconteceu justamente nesta entressafra. Só podia ter acontecido neste momento. Na virada dos 50 para os 60, a música jovem americana caiu no domínio de um novo tipo de som e de ídolo.
O doo-wop era um estilo vocal de origem negra, suave e romântico. Música da Costa Leste, de grandes centros urbanos: The Drifters, The Coasters, The Platters - Only You.
Logo dariam lugar a um fenômeno de curtíssima duração: os teen idols. Foi quando o pop ganhou sua primeira safra de grandes ídolos juvenis. Todos pobretões e moreninhos, caras das ruas. Brancos, mas fora do padrão anglo. Os meninos queriam ser eles, as meninas queriam ficar com eles.
Por uns poucos anos, a música jovem americana foi dominada por esses moleques italianos. O som era melodioso sem ser meloso; os meninos eram bonitos, mas verdadeiros. Foi a era de Frankie Avalon, que fazia parzinho com Annette Funnicello nas comédias da Turma da Praia.
De Fabian, o mais galã, que virou astro de cinema. De Dion di Mucci, do Dion and the Belmonts (The Wanderer). De Frankie Valli, a voz angelical do The 4 Seasons. De outro garoto "étnico" baseado em Nova York, mas na verdade canadense/libanês, Paul Anka - Diana, Put Your Head on My Shoulder. De muitos outros carcamanos encantadores.
E - importante na nossa história - foi a era de Bobby Darin. Bobby, nascido Walden Robert Cassotto, foi criança frágil, febre reumática, coração fraco. Era pobre e tinha uma coleção surreal de problemas familiares. O médico avisou: não passa dos dezesseis anos. Como o tempo era curto, a dedicação era em dobro. Mesmo na miséria, Bobby aprendeu bateria, piano, guitarra e gaita.
O mais feinho dos teen idols, e dos mais talentosos, Bobby virou ídolo das meninas. Depois, cinema: chegou a ser indicado a um Oscar e casou com a estrelita de todas as comédias adolescentes da época, a sempre inocente Sandra Dee. Por fim se rendeu a arranjos de crooner, um repertório de standards, e uma bela carreira de entertainer em Las Vegas.
Em 1958, Bobby Darin, estourou com uma canção composta em conjunto com um dos caras que mais entendiam do gosto dos jovens da época, o DJ Murray the K, e produzida pelo mais importante produtor do período, Ahmet Ertegun, fundador da Atlantic. É Splish Splash, seu primeiro hit, e o primeiro de Robert Carlos, quatro anos depois.
Bobby Darin, Splish Splash
O rock dos caipiras não tinha nada a ver com o Brasil. O rock dos italianos de Nova York se provou transplantável. Roberto Carlos adaptou ao jeito e espírito brasileiros o rock italiano made in USA, por meninos que tiveram vidas difíceis como a sua, e cantavam com o coração nas mãos.
Quase toda Jovem Guarda está contida na Splish Splash de Roberto, diversão despretensiosa para rir e dançar, rebeldia contra o bom gosto e a chatura. Músicas para curtir a vida, músicas para namorar, músicas que os adultos não entendem, sobre coisas que não interessam para os adultos. Embaladas, como devem ser, em roupas, cabelos e gírias incompreensíveis para os adultos, e pelo furor das fãs. A fórmula continua funcionando - está aí o Restart.
Splish Splash foi só o pontapé inicial. A Jovem Guarda se diversificaria - não muito - e implodiria ao final da década. Mas ouço ecos de Runaway em Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, minha canção preferida da Jovem Guarda, o momento mais punk e desesperado do repertório de RC e o primeiro compacto que ganhei na vida, 1967, experiência inesquecível. Está aqui na minha frente, todo riscado, inaudível.
E depois? Em 1964, o doo-wop e os teen idols já eram; os Beach Boys afanaram os vocais; os Beatles jogaram a pá de cal. Roberto Carlos não embarcou na beatlemania e não parou no tempo. Também nunca pegou a primeira modinha gringa e importou literalmente. Foi devagar e sempre. Experimentou com um tanto da psicodelia, um tico de soul, um babado aqui e uma calça boca-de-sino acolá.
Quando a cultura jovem internacional mergulhou no misticismo, Roberto foi junto pro altar. Na virada dos 30, sintonizou no som dominante da década que se iniciava, o soft rock, que é o que fez em sua última fase como criador relevante. Era o Rei no do Bread, do America, dos Carpenters, Seals & Crofts, Chicago. Guitarrinha delicada, voz sussurrante, sensibilidade, poliéster, botões da blusa, lençóis revoltos.
Roberto se suavizou sem perder a identidade. Se rock pode ser soft e ainda ser rock, é debate sem fim... mas é inegável que o melhor Roberto Carlos da década de 70 fica bem junto ao melhor soft rock da era, e sempre informado pela sensibilidade latina, e mais, mediterrânea. Detalhes ou Emoções não destoariam nas paradas italianas.
Depois veio a meia-idade, a autoparódia e a ranzinzice, como é regra entre astros. Roberto Carlos não passou as vergonhas banhudas de Elvis em Vegas, embora faça força, usando quepe de almirante nos recentes cruzeiros para vovós apaixonadas.
Escapa milagrosamente ileso, e nosso Rei foi re-coroado ano passado, 50 anos de carreira, projetos especiais de todo tipo, show de fim de ano em Copacabana, com 90% do repertório com mais de 30 anos, e arranjos breguíssimos. Roberto em 1980 já tinha se aposentado como criador, e certamente como roqueiro. Tinha quarenta anos.
Por que Roberto Carlos estourou no Brasil e em toda a América Latina, e não nos Estados Unidos, perguntou outro dia um crítico que entende muito mais de música que eu? É que Roberto Carlos soube capturar o essencial do rock latino made in USA, e fazer o rock latino made in Brasil manter tanto o essencial do rock, quanto o essencial da latinidade.
Não à toa, RC emplacou também como cantor romântico na... Itália. O que para nós (e para os hermanos latino-americanos) foi precioso e único, e para os americanos seria mais um de muitos.
Rei aqui; lá, só mais um plebeu. Não podia ter sido o Elvis brasileiro, porque o Rei deles era deles, e o Brasil precisava criar o seu, caboclo e latino.
Como a maioria de nós, Roberto Carlos encontrou adolescente a música que seria sua vida, e a fez sua, e a ela foi fiel para sempre.
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