Você sabe se uma pessoa é apaixonada por um assunto se ela lê desesperadamente sobre o assunto. Quem gosta de música de verdade não só ouve muita música, mas lê muito sobre música, quer saber todos os nomes, iluminar os meandros, destrinchar os segredos, ligar alhos com bugalhos. Internet é uma perdição para nós obsessivos, e quem não é? Tem site empilhando detalhes sobre os temas mais improváveis que você puder imaginar.
Antigamente o trabalho era outro. A gente tinha que garimpar livro e revista, e achar um lugar para guardar tudo, e manter mais ou menos arrumado, porque na hora da necessidade de escrever uma matéria tinha que estar à mão - e jornalista nunca sabe quando um desgraçado vai morrer e nos dar trabalho urgente. Era trabalho? Era um prazer, e todo mundo da minha geração investia boa parte do salário em papel impresso.
Eram livros e mais livros, revistas e mais revistas, fanzines e newsletters e o diabo. Os periódicos, joguei a maior parte fora - guardei tipo um exemplar de cada título, de revistas como Film Threat, Psychotronic Video, Rue Morgue, Girls and Corpses e Asian Cult Cinema, para lembrar só alguns de cinema.
E os livros? Ficaram. Não conheço quem seja capaz de jogar livro fora - no máximo trocar no sebo, e eles pagam cada vez menos, nesse mundo todo internético. Dei uns tantos de presente, guardei a maioria - dos comprados na minha adolescência até semana passada. Não é gostoso reabrir aquele livro que você curtiu, folhear, começar a reler de qualquer parte? Delícia. E não tem livro digital que me cause frisson parecido.
O camarada Leonardo Carvalho, editor do MSN Tecnologia e vizinho de mesa na Tambor até hoje, está mudando para Brasília. Me devolveu uns livros de quando fazíamos juntos a revista Movie. É Easy Riders, Raging Bulls, ou como foi rebatizado no Brasil, Como a Geração Sexo-Drogas-E-Rock´n´Roll Salvou Hollywood. Como sempre eu recomendo que você leia no original, mas a tradução é de Ana Maria Bahiana, que sabe tudo do assunto e mais um pouco. E as capas da edição brasileira são mais legais que a da gringa, e você pode escolher a cor.
O autor, Peter Biskind, foi editor da Premiere, revista que foi a cara da Hollywood dos anos 90. Peter não é o melhor crítico, entrevistador ou repórter, e mesmo assim o livro é imperdível. O amigo Daniel Benevides dá o serviço completo aqui, e não vou repetir.
Abro. A primeira página que vejo é a 313. Traduzo, pulando e editando:
"Taxi Driver estreou em Nova York em 8 de Fevereiro, 1976, meio-dia. (O roteirista) Paul Schrader chegou atrasado, 12:15. Uma fila de cópias de Travis Bickle dava volta no quarteirão: jovens pálidos com cabelo reco e jaquetas militares usadas... quando ele entrou no cinema e encontrou o diretor Martin Scorsese e a produtora Julia Philips, as palavras TAXI DRIVER apareceram na tela, e o público começou a aplaudir. Os três saíram da sala e foram dançar de alegria no lobby do cinema."
Quando entro no buraco claustrofóbico, úmido, empoeirado e bagunçado que chamo de biblioteca, quem tem vontade de sair dançando de alegria por aí sou eu.
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