Publicado em 12/05/2011 às 14:00

Uma ótima razão para não construir o metrô em Higienópolis

higienopolis ok Uma ótima razão para não construir o metrô em Higienópolis

Praça Vilaboim, Higienópolis/Foto:AE

Higienópolis não é o bairro mais caro de São Paulo, mas é o mais chique. É cheia de velhinhos, cheia de judeus, e cheia de gente sofisticadésima que valoriza conforto e cultura e jamais viveria nos Jardins, Itaim ou Vila Olímpia, redutos de endinheirados.

Fernando Henrique Cardoso mora lá, e vai a pé do apartamento ao seu restaurante favorito, totalmente tranquilo. Pegou o clima? O bairro é totalmente vertical, bem central, relativamente pequeno e até que planejado, prédios antigos e não muito altos, arquitetura interessante, arborizado.

Shopping próprio, restaurantes decentes, um parquinho bonitinho, tudo que você precisa para ter uma vida bacana em uma grande massa urbana. Para baixo está Santa Cecília, e daí para frente é o caos, minhocão, centro velho, muvuca, e à noite zumbis do craque uivando nas ruas.

Como você pode imaginar, o transporte é facílimo em Higienópolis. O bairro faz divisa com as avenidas Consolação e Pacaembu, das maiores da cidade. Vai ficar mais fácil ainda, porque será construída uma estação, chamada Higienópolis-Mackenzie. Outra, a 600 metros, ia se chamar estação Angélica.

Como você já deve ter ouvido a esta hora, ia ter uma estação de metrô em Higienópolis, mas um grupo de moradores e comerciantes do bairro fez um abaixo assinado, e conseguiu a remoção para outro lugar. Uma entrevistada, não-identificada, disse que eles não queriam o metrô porque ele atrai camelôs e “gente diferenciada”.

Virou piada instantânea, e os gozadores já convocam para este sábado um "churrascão da gente diferenciada" no coração de Higienópolis. Corre em paralelo um segundo abaixo-assinado, exigindo a construção da Estação Angélica. Todos ao ringue, e que vença o melhor. Eu é que não vou ser contra a construção de uma nova estação de metrô, se bem que eu consigo imaginar vários outros bairros onde ela seria mais premente.

Mas tirando o português escalavrento da senhora entrevistada, ela tem lá sua razão. Primeiro: uma estação de metrô realmente atrai “gente diferenciada”, isto é, não-motorizados, isto é, pobres, isto é, escurinhos de tonalidades diversas. Segundo, qualquer estação de metrô acaba ganhando um cinturão de serviços para os seus usuários.

Tem padaria pra pobre e farmácia pra pobre. Carrinho de hot dog, churros e milho. Fora um cara vendendo espetinho de churrasco e uma cachacinha no final do dia, e outro água de coco tirada na hora (com os cocos empilhados na calçada). Bebum vendendo guarda-chuva. E três figuras diferentes vendendo DVD pirata a cada dia, três por R$ 10.

Eu sei, porque moro a dois quarteirões do metrô, e esta é a paisagem em volta da estação Vila Madalena, onde também temos um terminal de ônibus. A bagunça é light, perto de outras estações paulistanas; a linha verde é famosa por ser a menos congestionada, passa pela avenida Paulista.

Eu gosto. Não só de estar do lado do metrô e poder escapar um pouco do trânsito maldito de São Paulo. Mas de estar do lado da farmácia e da padaria, da borracharia e da banca de jornal e de tudo mais; de estar do lado dos paulistanos que correm pra lá e pra cá; de estar dentro da vida da minha cidade.

E no entanto, no entanto... entendo a grita dos moradores de Higienópolis. A transferência da paisagem do Metrô Vila Madalena para o coração de Higienópolis é garantia de queda no valor dos imóveis vizinhos. Em qualquer lugar do planeta a chegada de uma estação do metrô valoriza o pedaço, mas lá seria o contrário.

Se você mora em um espaço tão protegido, o menor perfume de povão pode assustar. Os restaurantes chiques continuariam cheios? Imagina os passeios do FHC por Higienópolis - será que resistiriam à invasão do povão, esses eleitores do PT?

Então entendo o lado de quem gritou contra o metrô, porque há uma ótima razão para que ele não seja construído: grana. E também entendo o lado de quem achou muito feio tudo isso. Só não entendo que quem jamais iria ao shopping do povão, à praia do povão, à balada do povão, ou usaria a roupa do povão e ouviria a música do povão, enfie o dedo no nariz dos velhinhos de Higienópolis.

Dito isto, o amigo Camilo Rocha pontuou bem: quer morar em condomínio fechado, vá, mas exigir que um bairro no centro de São Paulo se feche aos paulistanos é demais.

Em um filme recente e bobinho, Educação, um picareta ganha dinheiro na Londres dos anos 60 levando famílias negras para apartamentos alugados por ele mesmo, em bairros de classe média alta. Os brancos vendem seus apês a qualquer custo, para fugir para outro lugar, antes que vire um bairro negro e o valor de seus imóveis despenque.

O espertinho compra barato dos brancos, tira os negros, vende caro para novos brancos ricaços. Lucra enganando os preconceituosos?Ele mesmo estimula o preconceito? A chegada de mais pobres e escuros em um gueto da classe alta afeta ou não o valor dos imóveis?

Dinheiro não é tudo, mas é cem por cento... regras do capitalismo e quem não gosta que invente coisa melhor - e me convide.

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