Ela é negra, africana, imigrante. Tem 32 anos e uma filha de 15. Vivem a sós e mal em Nova York. A família ficou na República de Guiné, ex-colônia francesa, dez milhões de habitantes, paupérrima.
Ela fugiu sem olhar para trás. Deu mais sorte que muitas: conseguiu emprego de camareira em um hotel elegante.
Ele é branco, francês, político profissional. Tem 62 anos, casado três vezes, quatro filhos; é avô. Estudou nas melhores escolas e chegou muito alto - diretor geral do FMI, o Fundo Monetário Internacional. Salário anual: US$ 420 mil.
Preparava candidatura a presidente da França, pelo partido socialista.
Ela não tem nome. Ele tem um nome difícil de esquecer: Dominique Gaston Andre Strauss-Kahn. Ela está sob proteção policial. Ele, na cadeia em Nova York. Ela diz que ele a atacou sexualmente, no quarto no 28º andar do Sofitel, em Nova York.
Ele vai dizer que o sexo foi consensual. Ele tem religião desconhecida, se tem. Ela é muçulmana. Ela o reconheceu entre outras pessoas, na delegacia. Ele contratou para defendê-lo o mesmo advogado que defendeu Michael Jackson.
Vai precisar: sua fama de sedutor já vinha manchada por outras alegações de assédio sexual. Acaba de aparecer uma segunda acusação. Teria atacado em 2002 Tristante Banon, filha de uma deputada francesa, do mesmo partido que Strauss-Kahn - socialista.
O FMI se autodescreve como "uma organização de 187 países, trabalhando juntos para a cooperação monetária global, a estabilidade financeira, para facilitar o comércio internacional e promover o alto nível de emprego e crescimento econômico sustentável, e reduzir a pobreza."
Os países têm votos com pesos diferentes, conforme suas contribuições ao Fundo.
São representados pelos presidentes do banco central de cada país. O voto dos Estados Unidos vale 17,9% do total. Somado aos outros nove maiores contribuintes, os dez países principais somam 55,6% e têm o controle das decisões.
Eles são Japão, Alemanha, Reino Unido, França, China, Itália, Arábia Saudita, Canadá e Rússia. É o G8, acrescido da potência em ascenção irresistível, China, e do maior produtor de petróleo, Arábia Saudita.
O FMI está para os embates econômicos como a OTAN para os confrontos militares. É uma instituição supostamente democrática e de defesa, que na prática serve a poucos e para o ataque, sob a suposta respeitabilidade de um mandato coletivo. Os americanos mandam prender e mandam soltar, os europeus conjuntamente influenciam, Japão pouco apita, China muito chia.
Os famigerados programas de ajuste que o FMI impôs a dezenas de países subdesenvolvidos, em troca de empréstimos, deram todos com os burros n'agua e jogaram milhões na miséria na Ásia, América Latina e África.
Impossível não enxergar a ironia cruel: o diretor geral do FMI agarrando a camareira africana, mãe solteira, muçulmana.
Exatamente o que aconteceu naquele quarto, só os dois sabem. O julgamento certamente revelará matizes de cinza. O simbolismo do ataque é preto no branco.
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