Nova York e Londres: por uma ou outra passou ou brotou a cultura que mais me interessa. Adolescente, fantasiava ser correspondente internacional em uma das duas, modelo Paulo Francis, ditando o que valia a pena ou não, informando sobre a vida que interessava e importava, a dos gringos, não a nossa.  E no entanto nunca quis de fato morar em Nova York ou Londres. Tanto que nunca morei. E se não vou sair do meu país pra morar numa das duas, não saio pra morar em lugar nenhum.

Como sempre e para tudo, as razões são múltiplas. A principal é trivial: frio. Detesto frio. Não acho chique ou estimulante. Não compreendo como alguém possa querer viver em um lugar em que as temperaturas estão toda hora abaixo dos quinze graus, e vira e mexe nos zero ou menos. E por alguma razão estranha, as cidades que mais me atraem na gringolândia são frias, ou pelo menos tem um mar geladão (San Francisco, LA, Sidney). Sei lá o porquê da ojeriza.

frio sp catedral ok1 O frio no Brasil e o tempo quente na Europa

Madrugada de quarta-feira em São Paulo - Foto: Luiz Guarnieri/AE

Certo que cresci em uma cidade em que faz um friozinho muito modesto umas duas semanas por ano, tipo 20, 18 graus. Mas moro em São Paulo desde os 17 anos. Certo que meus antepassados vieram majoritariamente de climas quentes. Mas na Itália, Espanha, Portugal e Eslovênia faz calor e também faz lá seu frio, e minha tataratataravó índia contribuiu pouco para o meu DNA. Sei lá a explicação e tanto faz. São Paulo é o limite de cidade fria para o meu gosto. Este ano, passando dos limites. Três graus esta madrugada, eu, heim. Parece aquela ilha do desterro de Admirável Mundo Novo.

Antigamente era popular a teoria tosca de que os países do hemisfério norte teriam se desenvolvido mais porque mais frios. A existência de quatro estações bem definidas forçaria as sociedades a planejar, a estocar alimento, definir funções específicas para os grupos sociais etc. Édens tropicais, ao contrário, estimulariam a preguiça, porque os nativos viveriam muito bem o ano inteiro, catando coco, da mão pra boca - por isso, estaríamos fadados ao subdesenvolvimento.

A crise atual na Europa faz reviver a velha visão, pelo menos entre os míopes. Grécia, Portugal e Espanha são os países no bico do corvo, junto com Irlanda, os "negros" do Reino Unido. Leio furibundos articulistas brasileiros culpando as populações, esbanjadores do dinheiro que pegavam de países sérios tipo Alemanha, vagabundos que viviam à tripa forra e tal. O preconceito é indisfarçável. Mais escancarada é a ignorância. O sistema financeiro internacional faz água há anos. A razão foi a desregulamentação e conivência dos bancos centrais e agências reguladoras.

Represaram e drenaram rios de dinheiro. Agora, os porta-vozes dos bancos exigem que os países mais frágeis aceitem medidas que punem as populações, em troca do salvamento das finanças internacionais. Os quatro países acima tem histórico de militância. O bicho está pegando, da praça Syntagma à Catalunya.

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Praça Syntagma/Atenas - Foto Reuters

Enquanto isso, em Pindorama, o tempo só é quente no bom sentido. Tirando estas miseráveis semaninhas geladas... Mas mesmo com esse frio do cão, o sol brilha de norte a sul. E se continuamos a enfrentar desafios e canalhices, o céu azul disfarça as trovoadas.  Que Nova York, que Londres. Meu futuro é do lado de baixo do Equador. E quanto mais quente, melhor.

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