idoso inalação 400 É muito fácil acabar com a poluição de São Paulo

Foto: Getty Images

Passei uns dias fora de São Paulo. Cheguei à cidade e levei aquele choque: o ar aqui fede o tempo todo desse jeito, ou está pior que o de costume? A gente só repara quando viaja. Todo inverno paulistano é a mesma coisa: poluição infernal, irritando nossos narizes, olhos, pulmões. Mas me irrita ainda mais a previsibilidade das reportagens a respeito. São sempre as mesmas matérias explicando a diferença entre monóxido de carbono e dióxido de enxofre.

As mesmas cenas de criança fazendo inalação nos prontos-socorros e velhinho asmático fazendo fila no posto de saúde. De novo, o especialista afirmando que a situação é insustentável. Mais uma vez o prefeito/governador/secretário lista tudo que o governo está fazendo para enfrentar a poluição.

De ano para ano, nada muda a não ser os índices, sempre para pior. Tento ignorar poluição e repercussão. É tão viável quanto respirar normalmente. Uso o mesmo arsenal do resto da cidade: colírio, umidificador, pastilha pra garganta seca, garrafa d’água sempre à mão. A rinite piora, o sono piora, retorna forte a obsessão - preciso fugir desta cidade! É marca registrada do paulistano: a fantasia com a vida fora de São Paulo, que nunca chega, porque nunca é a hora, nunca nos permitimos. Somos mulher de malandro.

Leio mais um artigo. O texto não cobra ninguém e não propõe nada. Como se a poluição, o trânsito maldito e a especulação imobiliária insana fossem obra da natureza. Chego até a frase "abastecer o carro à noite é uma atitude ecologicamente correta". Tenho ganas de assassinar o repórter com um escapamento enferrujado.

Sim, a maior parte da poluição de São Paulo é causada por veículos particulares. Mas voluntarismo só serve para aplacar a consciência. Vamos começar dizendo com todas as letras o que reportagem nenhuma diz: é facílimo acabar com o problema da poluição em São Paulo.

A fórmula que deu certo para melhorar o trânsito e o ar de todas as metrópoles do mundo é a mesma: facilitar o uso do transporte público e dificultar o uso do veículo particular. Tendo ônibus, metrô, van, trem, bicicleta e calçada, a coisa melhora rápido. Se for barato ou mesmo grátis para boa parte da população (estudantes, desempregados, terceira idade), melhor ainda.

É preciso pauta positiva, além da pauta punitiva - imposto altíssimo, pedágio para circular no centro, estacionamento proibido em todas as principais vias. Obrigação de construção de vagas em número suficiente por prédios, condomínios, escolas, comércio. Conversão da frota pública de combustível fóssil para energia limpa. É só copiar o que deu certo mundo afora, e aliás, aqui mesmo no Brasil, em diversas cidades.

É moleza resolver o trânsito e a poluição de São Paulo e qualquer outra metrópole brasileira. Não requer criatividade nem muita grana. Não que nos falte uma ou outra. Para começar, que tal não fazer esse trem-bala Rio-São Paulo? Com o mesmo dinheiro, dá para fazer cem quilômetros de metrô nas duas cidades. E nem me fale dos estádios para Copa e Olimpíadas. É querer demais que nossos gestores públicos cuidem do essencial e deixem o supérfluo para depois?

É. Tape o nariz.

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