Sou um péssimo pai. Leio toda noite para meu filho de sete anos o que me garantem ser uma cartilha de desprezo pelos negros: o Sítio do Picapau Amarelo. Faço pior: já assisti CQC, Pânico e Zorra Total com o moleque, e ensinei ele a odiar a Barbie e a cor rosa. Estarei criando um racista, homofóbico, misógino? Outro dia já até me contou uma piada que prova seus descaminhos: “pai, vamos brincar de Gatorade? Você é o gay e eu sou o toreide.”
Henfil, visitando uma China nos primeiros espasmos do renascimento como império capitalista, descreveu o país como um lugar onde costureiras e operários fizeram a revolução e continuaram ditando as regras. Contrastava a China com a União Soviética, onde a revolução bolchevique foi comandada por advogados, intelectuais, militantes profissionais. Uma tarde no Brasil Digital neste 2011 pode sugerir que o país passou por uma revolução dos bem-pensantes e atingiu patamares escandinavos de civilidade.
Em cada canto temos petição contra deputado homofóbico, campanha para prender a moça que twittou maledicências contra os nordestinos, revolta contra o humor grosso de comediantes de TV, churrascão contra a "gente diferenciada" que dispensou metrô em Higienópolis. É um panelaço por mês. Recentemente, contra o tal dia do orgulho hétero. Muita agitação e pouco movimento.
A internet pode até servir para a mobilização, mas serve ainda mais para fazermos de conta que fizemos alguma coisa. Bolsonaro segue tranquilo em seu mandato; Tas, Gentili e Bastos seguem faturando na telinha e nos palcos; Ed Motta continua Ed Motta; as peladas continuam requebrando as bundas nos programas familiares, e homossexuais continuam apanhando de trogloditas; la nave va.
É uma chatice a ditadura do politicamente correto? É contraproducente. Os problemas da liberdade se resolvem com mais liberdade, não menos. Democracia é choque de opiniões, visões, pressões – nada a ver com o asco brasileiro ao conflito aberto. Liberdade de expressão é a liberdade de uma pessoa que você despreza dizer algo absolutamente repugnante.
Os arautos do politicamente correto não perceberam que seus piores inimigos não são piadistas ou babaquaras digitais à procura dos 140 caracteres que lhes garantam 15 segundos de fama nos Trending Topics. No Brasil, existem muitos conservadores de verdade, que apitam de verdade, pressionam políticos de verdade, e investem dinheiro sério para fazer de nosso país um lugar menos livre e mais careta.
Eles estão na direção de bancos e empresas, nos escritórios de advocacia, nos tribunais, nos altares. Travam uma guerra santa contra o mundo moderno, múltiplo. Exalam banzo dos bons e velhos tempos, quando uma elite ditava não só os rumos políticos do país, mas legislava sobre o biquíni, a briga de galo, os gibis, as letras das canções, o tamanho do cabelo dos rapazes e quanta pele feminina podia ser mostrada em uma revista.
Esses nostálgicos da ditadura ocupam blogs de prestígio e colunas em jornais, dão palestras bem-pagas e vendem livros pra dedéu. Ganham muito bem para defender o que seus patrões mandam. Mesmo os mais histriônicos raramente deslizam para a grosseria. Pela pobreza de suas convicções, seria tarefa fácil alvejá-los.
Infelizmente quem se ocupa de contestar essa tropa da elite são os militantes de carteirinha, para quem qualquer crítica ao governo e aliados é coisa da imprensa golpista. É petralha pra cá, fascista pra lá, e a inteligência bem longe dessa briga de estilingue.
Estão então bem identificados os três campos: os conservadores “de direita”, os conservadores “de esquerda”, e os conservadores culturais, que se arrogam o direito de ditar o que é aceitável e o que não é no debate nacional, nos programas de humor, na internet e no boteco da esquina. Certas coisas não se falam? Tudo pode e deve ser dito, principalmente o que mais me desagrada.
Certo que a tiração de sarro com gay ofende os próprios e tantos outros. Mas a mera existência de gays ofende muitos. Só vamos permitir o humor a favor dos bons sentimentos? Pior, vamos tentar dar a razão para um dos lados? Quem decidirá o que é justo? A única resposta defensável é: o indivíduo e a sociedade. Ao indivíduo cabe a privacidade, se souber defendê-la. À sociedade cabe a transparência, idem.
Se decidimos, como país, aprovar a união estável das relações homoafetivas, está decidido. Se um casal gay decidir se beijar em público na praça da Sé, está decidindo atrair olhares furiosos e talvez uma boa tunda. É essa confusão entre pessoal e público, entre indivíduo e instituições, que anima o povo que quer queimar Lobato na fogueira.
Ele não está sendo indiciado pelos livros que publicou (embora sua obra contenha trechos como "negra beiçuda" para se referir à Tia Nastácia, que era mesmo uma negra beiçuda; pulo essas partes quando leio para o meu filho). E sim por sua correspondência particular, que naturalmente não publicou. Recentemente vieram a público cartas entre Lobato e amigos que causaram escândalo.
Nelas, Lobato se refere pejorativamente aos brasileiros mais pobres e escuros, defende os princípios da eugenia, e até chora a ausência de uma Ku Klux Klan no Brasil. Diferente da opinião pública do mundo digital, que parte do princípio de que nada é privado, Lobato compartilhou seus receios e preconceitos com amigos de confiança, reservadamente. Jamais imaginou que suas cartas viriam a público ou que seria julgado por elas, quase um século depois.
Se, embalado pelo pó de pirlimpimpim número dois, fizesse uma viagem no tempo e nos visitasse para conhecer o Facebook e o Twitter, faria como todos nós. Escolheria sua melhor foto para o perfil e botaria o paletó de domingo para entrar em animados e politicamente corretos debates virtuais.
A vida pública é da sociedade. A particular é de cada um. Na internet somos todos autores, e temos que nos responsabilizar por nossos atos. Mas sem abrir mão da máxima liberdade – e, sim, da libertinagem. Dito isso, me recuso a responder por tudo que já disse em mesa de bar, do que já escrevi em emails para amigos ou das besteiras cometidas após as duas da manhã... Se todos recebêssemos o que merecemos, ninguém escaparia do chicote.
+ Curta o R7 no Facebook
+ Siga o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7




