Estrada, meu filho de sete anos e eu. Tomás está em fase Iron Maiden. Após três audições de Run to The Hills, troco o CD e informo que ele vai gostar dessa banda que nunca ouviu. Escolho a música e aumento mais ainda o som. A guitarra crua chega rasgando. A voz do cantor vem de uma catacumba.
Cheira a espírito adolescente possuído. Tomás: "legal, parece Beatles". Parece os Beatles quando eles ainda não eram os Beatles, explico. Nos seus primeiros discos, quando macaqueavam o rock americano caipira, principalmente Elvis, que o menino conhece, e então lembro do aniversário da morte do Rei, hoje, há exatos 34 anos.
Isso foi ontem. Agora resta a homenagem a uma das mais lindas histórias de amor que eu conheço. Um casal de fãs de Elvis, que - de uma maneira muito estranha - se tornaram talvez tão influentes quanto o Rei. Meu filho ouvia o disco A Date With Elvis. A música é Can Your Pussy Do the Dog?
É o maior hit de uma banda que não emplacou hit nenhum. Uma banda que era um casal, e fez melhor: em vez de fãs, têm convertidos. Como disse meu amigo André Barcinski a respeito do Kiss, se você ver alguém com uma camiseta dos Cramps na rua, pode puxar conversa que é gente fina.
Para aderir à seita, a melhor maneira é assistir ao culto. Se você conhece os Cramps: aposto que faz tempo que não vê isso. Se você não conhece: não assuste, mas o vocalista está quase pelado, de salto alto, vai enfiar o microfone inteiro na boca e grunhir metade da música, enquanto esfrega as partes e sua como um animal. Um Elvis psicótico e perigoso. Nada que impressione a guitarrista, que masca chiclete com cara de quem já viu bem pior. É a mulher dele.
The Cramps: Tear it Up - Urgh! A Music War por perolasblogs no Videolog.tv.
O vídeo tem 30 anos. Vi pela primeira vez quando eu tinha 18, em um lugar de São Paulo chamado Carbono 14. Não tinha YouTube ou Videolog em 1982 - eu peguei um ônibus para ir até lá ver o documentário, Urgh - A Musical War. Uma das tardes mais importantes da minha vida.
Quando vi os Cramps, decidi naquele instante que seria uma das minhas bandas favoritas. E é, embora eu nunca ouça, e os discos sejam todos iguais, e não seja propriamente uma banda e sim um casal de doidos e seus variáveis acompanhantes idem, e o conjunto todo seja demente demais para mim.
E eu nem sabia que era o mais tocante casamento da história do rock, Lux Interior e Poison Ivy Rorschach. Inteligentes, sexy, esquisitos e à vontade com suas obsessões como só americano consegue, os casal morava em um palácio atulhado de discos, badulaques e câmeras 3D em Los Angeles. Manjavam de arte, mas sem nariz empinado - uma canção fazia homenagem a Marcel Duchamp, que tal?
Adoraria, mas nunca vi e nem verei ao vivo. Lux morreu em 2009. Tinha 63 anos e continuava dando shows arrasadores. A carreira dos Cramps, faço as contas, foi mais longa que a de Elvis... O som que eles criaram - essa ponte entre o rock energético dos anos 50, as guitarras surf dos 60 e a insanidade punk dos 70 - tem milhares e milhares de seguidores em 2011.
Barbaridade inominável, foi batizado psychobilly, mezzo inocente rockabilly, mezzo psicose psicodélica. Está no grupinho na garagem de Curitiba e no trabalho de Jack White, ungido há pouco o mais importante roqueiro da última década.
Lux Interior, como Elvis, is dead. Os Cramps estão mortos, longa vida aos Cramps. E Poison Ivy, a guitarrista e cúmplice de Lux, por quem me apaixonei no exato momento em que ela pela primeira vez apareceu no clipe de Tear it Up? Desde a morte do marido, sumiu. Os dois viveram um longo e lindo amor, dentro e fora dos palcos, 37 anos juntos.
Deixou o rock para entrar na história? Aos 58, merece. Mas vou sempre lembrar de Poison Ivy de duas-peças de lantejoulas, como uma stripper burlesca, sorrindo de lado, cara de maus amigos, maltratando a Gretsch. Ela era exatamente como uma garota roqueira deve ser.
The Cramps Like A Bad Girl Should por perolasblogs no Videolog.tv.
Quando eu era criança, Elvis e os Beatles eram minha ideia de roqueiros, Elvis dos filmes em Acapulco, os Beatles inocentes de Twist and Shout. Maior de idade, achava que sabia o que era rock - e os Cramps chutaram a porta da minha arrogância.
Recém-chegado a São Paulo, certo que sabia qual era o meu tipo de mulher, Poison Ivy, bad girl à altura exata de Lux Interior, derreteu minhas convicções com três acordes. Dei sorte: logo apareceu uma garota roqueira na minha vida. E, sim, ela usava uma camiseta dos Cramps.
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