Fidel Castro, ditador de Cuba há cinco décadas, foi muito tempo herói da esquerda brasileira. Continua sendo, para alguns.
Caso do jornalista, escritor e político aposentado Fernando Morais, camarada de Fidel desde A Ilha, sobre Cuba, que li adolescente. Era 90% press-release do regime cubano e leitura obrigatória entre opositores da ditadura militar.
Morais é o mais respeitado autor brasileiro de livros-reportagem. Também li Olga e Chatô e recomendo. Militou na política. Serviu como secretário de estado dos governos Quércia e Fleury. Parece boa praça.
Agora sai outro livro-reportagem, Os Últimos Soldados da Guerra Fria. Conta a história da rede de espiões cubanos que foram presos nos Estados Unidos, e cumprem lá sentenças duras - até prisão perpétua. São causa célebre em Cuba.
Em entrevista para a matéria de capa deste mês da revista Bravo, Morais explica que decidiu contar a história porque é emocionante. E que o livro não retrata as mazelas problemas de Cuba porque não quer dar "munição para o inimigo".
Eu entendo o presidente do Brasil se relacionar com gente como Kadafi, Fidel, Saddam, ou mesmo trogloditas eleitos tipo Berlusconi e Bush. É o seu papel. Não precisa bater palmas para todas as besteiras que os colegas fazem.
Nem ser tão leniente com tiranos como Lula foi. Dilma também envergonha o país, dando mole para o assassino governo da Síria. Até Obama está exigindo a renúncia de Assad!
Mas governante precisa defender os interesses do país, e isso significa dialogar com todo mundo, negociar, buscar vantagens para os brasileiros. É atividade malcheirosa. É a política real. Fernando Morais é político aposentado.
Garante que jamais ocupará cargo público novamente.
Ele explica na entrevista a defesa do regime cubano, mazelas e tudo, na base da gozação - se declara um "dinossauro". Está no seu total direito como cidadão ou militante. Mas com tudo que conhece de Cuba, tenho certeza que o livro ganharia muito se retratasse os dois lados com o mesmo rigor.
É evidente que perto de outras ditaduras, Cuba é fichinha. Já estive lá, e não é o inferno na Terra, não (detalhes, amanhã). Aliás, a Inglaterra e os Estados Unidos, que têm democracias estáveis há séculos, exportaram sofrimento a dar com pau.
Quantas pessoas padeceram sob impérios coloniais europeus, nos quatro cantos do mundo? E as dezenas de ditaduras sanguinárias bancadas pelos americanos, inclusive no Brasil?
A história de fato é eletrizante, e Fernando Morais conhece seu ofício. Mas depois da entrevista perdi a vontade de ler o livro, que se posiciona dentro do grande embate ideológico do século 20. Está na hora de virar essa página.
Governos fazem estrago, mas melhor com eles do que sem, e fundamental controlá-los com rédeas curtas. Com sociedade organizada, absoluta liberdade de expressão, e imprensa vigilante nos limites da crueldade.
Em 2011, não dá mais para dividir o mundo entre amigos a quem quase tudo perdoamos e inimigos que combatemos sem trégua. Mais trabalhoso é não ter lado - a não ser o do contra, do questionamento permanente, da contestação consciente.
E daqui, dá pra enxergar bem: o inimigo é Fidel.
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