Egito, Marrocos, Líbia e daqui a pouco, Síria. Mudanças dramáticas no mundo árabe. Aqui nada muda. Nosso governo continua reconhecendo os ditadores até que eles estejam derrubados e encarcerados.
Dá vergonha do Brasil. De Fernando Henrique a Lula a Dilma, todos foram perseguidos pela ditadura militar. Custa apoiar revoluções contra os tiranos? Custa, porque as maiores construtoras brasileiros têm negócios na casa dos cinco bilhões, em contratos com o governo de Kaddafi, e contribuem muito para campanhas políticas, claro. E a Petrobrás tem big business por lá também.
A maioria do que se fala sobre a primavera árabe é puro preconceito - esses árabes podem se virar para o fundamentalismo islâmico, a mulherada vai usar burca, depois vira um bando de terrorista, melhor não fazer marola, eles não são como a gente.
São sim. Tão escurinhos como a gente, tão religiosos como a gente, tão subdesenvolvidos quanto a gente, e querem paz, liberdade e uma graninha como a gente. Se todos os latino-americanos estão construindo suas democracias nas últimas décadas, porque os árabes não podem? Toda a América Latina, vírgula. Falta Cuba.
Cuba é governada há 51 anos por Fidel Castro. Agora seu irmão Raul está à frente, mas el comandante continua na área. A Revolução Cubana começou como começam as revoluções, com Fidel, Raul e Che Guevara liderando um grupo de rebeldes e libertando seu país de um traste. Depois é que começa o trabalho real, como os líbios aprenderão a partir de hoje. Fidel decidiu pela ditadura. Há razões. Há consequências.
Se é duro aturar um presidente quatro anos, que dirá cinco décadas. É o governante há mais tempo no poder no planeta. Como qualquer ditador que se preza, já cometeu uma longa lista de injustiças. Seu governo matou, torturou, exilou, perseguiu. E acertou várias também. Quem diz que ditador só faz besteira?
Tem gente que acha que quando Fidel e Raul Castro morrerem, Cuba vai voltar a ser parque de diversão dos americanos, e os cubanos de Miami vão tomar conta.
Só quem não foi para lá pode pensar isso. Os cubanos querem mais
liberdade e querem uma vida mais confortável, mas não pensam em abrir mão de seus direitos atuais. São conquistas de fato. Eles querem continuar estudando de graça, mas querem ganhar melhor para poder gastar com as boas coisas da vida.
Modelo escandinavo no Caribe? Difícil. Mas onde é que é fácil? Aí estão os Estados Unidos que não conseguem sair de sua crise, e a Eurolândia escorregando para um poço sem fundo, cortando gastos sociais na carne
para salvar seus bancos.
Impossível não torcer por Cuba. Impossível perdoar Fidel. A maioria dos cubanos em Cuba não consegue imaginar a vida sem ele. Está no poder há duas gerações, todo dia na TV, no jornal, na praça, e sem concorrentes. A maior parte das suas malvadezas foi cometida na década de 1960.
Faz parte da vida, como o sol, o mar, o rum. Mas há quem lembre de Cuba sem Fidel, e que tenha vivido para se dedicar totalmente à causa da revolução, e tenha por ela sido traída. Há quem aprendeu na carne que a pior democracia é menos ruim que a melhor ditadura. É o caso de Inverna Lockpez, cuja história merece ser contada em detalhes. E foi - em um gibi imperdível, e por mim aqui, esta sexta.
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