É possível, desejável e proveitosa a convivência harmônica entre cristãos, muçulmanos e judeus. Sabemos disso há mais de 12 séculos. É uma história que começa no ano de 750, em Damasco, com o primeiro grande racha da liderança islâmica e um herói, Abd Al-Rahman. E acaba em 1492, com a expulsão dos mouros e judeus da Espanha, e dois vilões, os reis católicos Fernando e Isabel.

20090903klphisuni 2 Ies SCO O que ganhamos com a queda das torres: informação Por boa parte destes 742 anos existiu um reino chamado Al Andalus. Era a região mais desenvolvida da Europa, ocupando boa parte de onde hoje fica a Espanha. Era governado por muçulmanos. Abrigava cristãos e judeus. Tinham seus entreveros, mas os uniam laços muito poderosos.

O que aconteceu em Al Andalus, e na Espanha depois dominada pelo regime das Taifas - reinos locais, alguns com governantes cristãos, outros católicos, todos disputando poder, mas sem ou quase sem perseguições religiosas - teve enorme influência sobre o destino da Europa e o nosso.

É uma história que os livros de história não contam. Como simplificar em poucas linhas a complexidade de comunidades de judeus embebidas das tradições árabes? Cristãos que abraçaram as mais diversas facetas do estilo árabe e da filosofia islâmica - da arquitetura à filosofia às modas à língua - mantendo sua convicção religiosa?

Como reescrever as apostilas para expor esta época de homens de gênio, de grandes descobertas científicas, de avanços tecnológicos e sociais, tudo exatamente no meio da Idade Média, a suposta era das Trevas?

Este quase milênio é sempre mal resumido em uma palavra, "reconquista", um suposto esforço cristão e civilizado para retomar terras europeias ocupadas por ignorantes muçulmanos. Como se este rei cristão celebrado por ter resgatado todo o território espanhol (salvo Granada), Fernando III, não tenha em sua tumba inscrições em hebreu e árabe, além de castelhano e latim.

Depois do ataque da Al-Qaeda aos Estados Unidos, ganhou força o discurso que explica o século 21 em termos de um choque de civilizações. Entre o Ocidente e o Oriente, os valores cristãos (e judeus) e os princípios do Islã. Era balela há 1.261 anos e é mais ainda hoje.

Os árabes amam a liberdade tanto quanto nós - está aí a Líbia, o Egito, a Tunísia, a Síria. Fundamentalistas ignóbeis fazem estragos em todos os lados. Os problemas dos países árabes são outros - pobreza e petróleo.

Não existem guerras ideológicas ou religiosas. Guerras são por dinheiro e poder. Os belos princípios servem para embalar o indigerível e inspirar obediência acrítica. Mas há quem guerreie por ideologia ou religião.

Para cada homem-bomba que propositalmente se explode para espalhar o terror, há outros tantos soldados americanos patriotas que se imolam em guerras estúpidas, embalados pelos discursos dos que querem faturar. São só marginalmente menos assassinos e suicidas. Causam raiva e pena.

Como causou raiva e pena o 11 de Setembro de 2001. Morreram 2.996 inocentes e dezenove culpados, os sequestradores dos aviões. Quantos civis morreram no Afeganistão entre 2001 e 2011, na guerra ao Terror, por ações militares dos Estados Unidos e seus aliados?

Os cálculos conservadores falam de mais dez mil inocentes mortos. Há quem diga mais de 30 mil. Que lado está errado? Todos. Bin Laden está onde merece? Aguarda a companhia de outros pilantras, que infelizmente seguem acima do chão.

É perfeitamente possível em 2011 a convivência harmônica entre cristãos, muçulmanos e judeus - como entre brancos, negros e amarelos, homossexuais e héteros, todos os comportamentos, caras, crenças. Mas diferente da época do Al-Andalus, não é mais viável sob domínio de uma das religiões.

Só em uma sociedade civil e civilizada, e portanto, não dominada por superstições. Ordenada por leis criadas por todos, que sirvam para todos, e que prevejam direitos e deveres iguais para todos. E só em uma sociedade educada.

Só um exemplo para escancarar a questão. O instituto Gallup fez em 2009 uma pesquisa mundial, com o objetivo de identificar os países mais e menos religiosos do mundo. Os pesquisadores perguntaram: "a religião é uma parte importante da sua vida diária?".

Os países mais religiosos do mundo:

Egito
Bangladesh
Sri Lanka
Indonésia
Congo
Sierra Leone
Malawi
Senegal
Djibouti
Marrocos
Emirados Árabes

Os menos religiosos:

Estônia
Suécia
Dinamarca
Noruega
República Tcheca
Azerbaijão
Hong Kong
Japão
França
Mongólia
Bielorússia

Predominância dos islâmicos entre os mais religiosos.

Veja a mesma pesquisa, em que o Gallup identificou os estados mais e menos religiosos dos Estados Unidos:

Os Estados menos religiosos:

Vermont
New Hampshire
Maine
Massachussets
Alaska
Washington
Oregon
Rhode Island
Nevada
Connecticut

Os mais religiosos:

Mississipi
Alabama
Carolina do Sul
Tennessee
Louisiana
Arkansas
Georgia
Carolina do Norte
Oklahoma
Kentucky
Texas

Todos, naturalmente, com predominância cristã. A questão não é de fé. Sobreponha estas listas sobre pesquisas equivalentes sobre nível educacional. A relação é lugar comum. Onde as pessoas são mais educadas, a religião é menos importante. Isso também significa que os países menos religiosos são os com melhor padrão de vida para suas populações.

Não é minha culpa; são as estatísticas. Onde as pessoas têm menos acesso à educação, à informação, à liberdade de expressão, as religiões são mais importantes para as pessoas, e por consequência mais poderosas dentro de cada sociedade.

Naturalmente, não vivemos no vácuo. Pessoas e grupos com crenças diferentes vão disputar espaços simbólicos, religiosos e políticos. Faz parte da vida e do jogo. Liberdade é também a liberdade de acreditar no que você quiser, mesmo que me cause repugnância.

Mas esta disputa só é positiva em uma sociedade que não acredita em nada, salvo na defesa da liberdade e do progresso de todos, por igual, sem tolerância com os intolerantes, com o máximo respeito pela vida e pelas diferenças. Nem que países mais ricos e menos fervorosos sejam à prova de problemas ou psicopatas - está aí a Noruega. Mas lá foi um demente, e não o representante de uma força política ou cultural coesa.

Quando as torres gêmeas caíram, o terror não venceu - mas avançou rápido em diversas frentes. Durante semanas os brados de vingança nos ensurdeceram, e encobriram interesses escusos em ambos os lados. Gente moderada se radicalizou. Idiotas disseram que os próprios Estados Unidos fizeram por merecer, e outros que os muçulmanos mereciam tudo de ruim que acontecesse daí em frente.

O primeiro comentário que deu conta da tragédia só apareceu meses depois. Não era divisivo - abraçava nossas diferenças e semelhanças. Isolava a ignorância como estopim. Escorraçava Bush e Bin Laden como as figuras ridículas e malévolas que eram. Tudo isso em umas poucas páginas de gibi, desenhadas pela americana Melinda Gebbie, idealizadas e escritas por seu marido, o inglês Alan Moore.

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Estas singelas páginas, jamais publicadas no Brasil, sugerem que não é problema nem solução a crença em um criador. Importa mais nossa compreensão do mundo, da política, da ciência, do ser humano. Nossa cruz é a ignorância. É ela que gera superstição, medo, e em última instância, violência. Contra ela, só temos uma arma: informação.

Moore é mais que anti-materialista, mais que religioso - é um místico. Sua crença no que está além da razão ilumina nossa tragédia. A de 11 de Setembro e a que continua a nos desafiar, no planeta, na nossa rua.
O segundo comentário fundamental sobre o ataque aos EUA li há poucos meses.

Foi, na verdade, concebido antes e publicado pouco depois de 2001. É o livro O Ornamento do Mundo, da americana de origem cubana, María Rosa Menocal, publicado lá em 2002 e no Brasil em 2004.

O subtítulo original, traduzido: “como muçulmanos, judeus e cristãos criaram uma cultura de tolerância na Espanha Medieval”.

É necessário e belo. Moore, María Rosa, e muitos, muitos outros seguem iluminando nosso caminho, enfrentando a ignorância, diluindo preconceitos, abrindo portas e percepções. Na noite mais negra, quando a ignorância parece triunfante, inspiram esperança. A luta pela luz continua.

Clique nas imagens abaixo para ampliá-las.

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