Publicado em 16/09/2011 às 11:21

Marisa Monte, vinte anos depois, e ainda sem nada a dizer

marisa agnews  Marisa Monte, vinte anos depois, e ainda sem nada a dizer
Marisa Monte tinha 23 anos e eu 25 na única vez que nos encontramos. Amadureci, ela envelheceu. Perdeu o perfume de novidade e exclusividade. Continua "insuportavelmente estratégica", na definição cirúrgica do amigo Alex Antunes.

Sua nova canção, Ainda Bem, disponibilizada gratuitamente na internet esta semana, é havaiana assinada por estilista, um bolero étnico vestindo brechó de Nova York, falso flerte pseudopopular, completo com piscadinha de olho assegurando que é irônico, mas autêntico, ao mesmo tempo, percebeu? Pós-moderno, como se dizia nos anos oitenta.

É o exato tipo de atitude que eu já achava bestinha em janeiro de 1991, quando entrevistei Marisa, a entrevista mais desagradável da minha vida. Hoje sei quanto foi perniciosa.

Marisa Monte abriu as portas para uma legião de jovens invertebrados que faturam forte fazendo "MPB jovem", de roupinhas contemporâneas, para embalar as ilusões de cosmopolitismo e relevância de publicitários, jornalistas, designers e outros "criativos" ou candidatos a. Escolha sua sub-Marisa Monte no palco do Sesc mais próximo.

Mas quem foi rainha não larga a rapadura, opa, não abandona a majestade. O site de Marisa diz que ela está trabalhando no novo álbum com "especialistas em cultura digital". Ela não percebe como isso soa desesperado?

Desconfio que não percebeu que o único ás que tinha na manga deu tão certo que deu errado. Foi única, hoje está cercada de iguais, em todos os sabores, e de dez a 20 anos mais jovens que ela  - zilhões de cantoras ecléticas, bandinhas indie-folk-maracatu, rappers que cantam para as meninas da FAAP e congêneres. Ainda Bem insiste em composição de Arnaldo Antunes, insiste em arranjos limpinhos, insiste em caetanices. Venceu a validade.

Nossa entrevista aconteceu em uma quarta-feira, no meio do Rock In Rio 2. Meu chefe, o diretor de redação da revista Bizz, José Augusto Lemos, não só tinha decidido que ela seria capa da próxima edição, mas que eu era o cara certo para fazer a matéria. Hoje entendo.

Marisa era MPB demais para a Bizz, mas artefato pop interessante, com seu segundo e esperado disco chegando à praça, Mais. Entrevistada pelo editor da revista, um cabeludo que gostava de uma encrenca, seria mais digerível para o leitor. JAL não era mole não.

A assessoria da gravadora marcou o encontro, três da tarde, no estúdio onde depois ela vai tirar as fotos para a matéria, pode ser? Cheguei na hora. Marisa estava com assessora pessoal e o namorado, Nando Reis, que então não tinha razão para fazer cara de poucos amigos (eu daria uns meses depois, eviscerando um disco particularmente ridículo dos Titãs; ele rasgaria a Bizz no palco do Olympia; hoje mora na minha rua; não nos falamos).

Sentamos, liguei o gravador, puxei o bloquinho, e dez minutos depois ela simplesmente transferiu a entrevista para a sala de maquiagem. Ficou quase duas horas se preparando para a sessão de fotos, cabelo, maquiagem, etc., se olhando no espelho, eu tentando engrenar um papo, ela se dividindo entre maquiador, fotógrafo, secretária, o namorado e o jornalista que estava ali tentando tirar leite de pedra.

Marisa nunca teve nada a dizer que não parecesse escrito por um assessor de imprensa...

Tive muita vontade de levantar e ir embora, mas não tive coragem. Era trabalho, era a capa da revista, e eu tinha que entregar. Fiquei uma vara, mas engoli o orgulho e fui até o fim, e de lá para o show do Sepultura no Maracanã.

Dia seguinte, embalando ressaca brava (na piscina do Copacabana Palace, onde estava hospedado; rockstar days), compus mentalmente um ataque histérico a Marisa e tudo que ela representa.

Uma semana depois, ele se metamorfoseou em um quase "fluff piece", que é como os gringos chamam este tipo de perfil condescendente com o perfilado, típico das Vanity Fair da vida. Me rendi ao planejamento militar com que conduzia sua carreira, à sua ambição desmedida, à sua antipatia tão carioca, tão burguesa.

E me submeti à necessidade profissional de entregar o que me tinha sido encomendado, como faria tantas vezes depois, e ainda faço, droga. Reli ontem pela primeira vez em duas décadas o artigo, graças aos amigos da comunidade Bizz do Facebook, que desenterraram o texto.

Me constrange um pouco, mas tem seus momentos premonitórios. No final da entrevista, ela dizia que seu trabalho só poderia ser "daqui a uns 20 anos, quando eu realmente tiver uma carreira atrás de mim".

O dia chegou, sua carreira realmente ficou para trás, e vou bater o martelo sobre Marisa Monte: caso encerrado.

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

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Marisa Monte odeia falar de sua vida pessoal. Explicar tintim por tintim o arranjo vocal de uma nova canção, tudo bem. Mas ouse abordar tema um pouquinho mais fútil - digamos, o batom que ela prefere para realçar sua famosa e kabukiana boca (Cassis, da Payot) -, e a casa cai. Um colega da Veja, ao saber que eu ia enfrentar a fera, contou que uma vez Marisa cortou uma pergunta sua dizendo "se quer falar de música, tudo bem. Se não, a entrevista acaba já".

Exatamente por causa desta e outras histórias é que a primeira pergunta séria a pipocar durante minha conversa com Marisa (logo depois do papo-furado enturmador habitual de repórter) foi: por que esse circo todo? Quem se propõe a ser popstar não tem obrigação de arcar com esse lado Contigo do business? Não é natural que as pessoas que desembolsaram a grana para comprar o disco ou ver o show queiram saber, afinal, quem é essa garota?

"Não acho que faço mistério sobre minha vida. Mas o que interessa é o meu trabalho, a minha música, não com quem eu corto o cabelo" (Mais tarde, quando eu registrar meu espanto com o tempo que demora uma pessoa ser maquiada, uma hora e meia, Marisa dirá que "ser cantora é muito mais que cantar". O importante é a música. claro - mas uma boa maquiagem e saber posar como modelo profissional não atrapalha em nada.) "Não vou ficar me expondo à toa; por exemplo, não me incomodo de aparecer na televisão, mas me recuso a dublar. Não vou fazer qualquer coisa por dinheiro. Acho que quem faz, está fudido".

O papo ocorreu na semana do Rock In Rio, numa tarde opressivamente carioca: sol abrasivo, todo mundo lindo, queimado e com o mínimo de roupa. Logo que cheguei ao estúdio, onde iria ser feita a foto que está na capa desta revista, estava querendo ver a caveira da mulher - caramba, daqui a pouco tem show do Sepultura e eu aqui tentando decifrar essa perua.

Só que ela não é perua. E inteligente, articulada e exala aquele jeito à vontade das mulheres que sabem que são bonitas - ainda que não pelos padrões habituais, muito menos pelos cariocas. A pele, primeira surpresa, não é alva como aparece na TV ou em fotos; é só uma cor de quem nunca toma sol. O corpo magro e forte sugere anos de balé. A cabeleira negra e brilhante é bem cuidada e, aposto, natural.

Mas, o que sobressai é o rosto de Marisa Monte. Estático, durante a maquiagem, não tem nada demais: só se vê o nariz, a bocarra e as sobrancelhas de Monteiro Lobato. Quando em movimento, a coisa muda completamente: Marisa Monte, puta da cara com uma pergunta irritante, é uma belíssima visão. Estavam presentes ou por perto o fotógrafo da BIZZ, a secretária de Marisa, um maquiador e Nando Reis. A maioria das respostas foram dadas enquanto ela estava sendo maquiada. Fazia, como definiu a própria Marisa, "um calor do caralho".

Você é rica? "Não. Tenho que trabalhar para viver, como todo mundo. Mas tive uma boa base. Pude estudar em colégios bons, ler, falo quatro línguas, essas coisas. Sempre soube que nunca morreria de fome. Eu tive base, você entende?"

Marisa é filha da mais tradicional aristocracia carioca. Descende de Miguel Couto, aquele que virou nome de hospital. Sua família tinha uma fábrica de sal, entre outras coisas; Marisa diz "já tivemos grana, mas não temos mais". A educação de Marisa incluiu aprender a fazer tricô, crochê e bordados; a cozinhar, do trivial fino a quitutes caseiros tipo pão de queijo; a tocar piano; a ser fluente em várias línguas (ela fala inglês, francês e italiano).

Aos 14 anos, começou a estudar com Alda Pereira Pinto, professora que ensinou cantores líricos brasileiros que conseguiram fama internacional, como Nelson Portella. Aos 19, se mandou para a Escola de Canto Lírico, na Itália, pronta para se tomar à nova Maria Callas (que sempre admirou obsessivamente e a quem foi comparada pela professora várias vezes). Só que não estudou coisíssima nenhuma: passou seis meses cantando na noite para fazer uma graninha (ela diria depois que "o ensino lá é muito conservador, não queria estudar só ópera").

Numa destas noites regadas a Djavan, Caetano Veloso e quetais, reencontrou Nélson Motta, já conhecido do Rio. Motta se tomou seu diretor artístico. Usou seu know-how do funcionamento da mídia para promover o nome e a imagem de Marisa.

Shows, só em lugares que garantiam repercussão máxima, como o Jazzmania e o Teatro Ipanema, no Rio, e o Aeroanta, em São Paulo. Logo Marisa era o must da estação - mais ou menos como acontece agora com Edson Cordeiro. Após algumas notinhas estrategicamente publicadas em jornais, e o Jornal do Brasil fez uma matéria de capa com Marisa. Rapidinho, as gravadoras ofereceram contratos - sabiamente recusados, obedecendo à tese de que "o silêncio produz lendas".

Depois de um ano de boca a boca, refinando o show junto a plateias amigáveis e seletas, chegou o momento da superexposição: um especial para a TV Manchete, gravado ao vivo no Teatro Villa Lobos e dirigido magistralmente por Walter Salles Jr. (diretor das séries "China" e "Japão", portanto, outro nome com trânsito garantido entre descoladetes em geral).

O especial virou o disco MM. Puxado pela inclusão de Bem Que Se Quis numa novela das oito e seguido de uma maratona de shows - setenta, só no ano passado -, o disco chegou à marca de 350 mil cópias vendidas, das quais 22 mil em CDs (destes, três mil foram exportados). Estes números fizeram de Marisa um dos grandes vendedores do país e campeão absoluto de CDs.

Por tudo isso é que a gravadora de Marisa, a EMI-Odeon, bancou sem pestanejar a conta de seu novo LP, gravado no Rio e em Nova York. A produção de Mais ficou a cargo de Arto Lindsay, sua primeira experiência solo como produtor. Marisa diz que o escolheu "depois de ver uma sessão de estúdio dos Ambitious Lovers".

As sessões americanas foram feitas pelo que ela chama singelamente de "a turma do Arto". Este grupo inclui dois nomes cultuadíssimos pelos "modernos", o tecladista japonês Ryuichi Sakamoto e o saxofonista John Zom; e alguns magos de estúdio, como o tecladista Bemie Worrel e o baixista Melvin Gibbs.

O objetivo não declarado do álbum é reposicionar Marisa no mercado: enterrar de vez as acusações de "crooner talentosa" e instituir uma cara própria e coesa para seu trabalho, um "estilo Marisa Monte". A cantora resume o processo a "procurar minha turma. Deixar de cantar tudo o que eu gosto e procurar trabalhos de gente que tenha a ver comigo, com a minha geração. Não sou compositora, estou começando agora (em cinco faixas do novo disco).

Gosto da ideia de me ligar a compositores que me acompanhem durante toda a carreira. Como...", e a comparação é feita com uma naturalidade que desarma qualquer acusação de megalomania, "a Elis tinha o Ivan Lins e a Gal tem o Caetano".

A turma de Marisa, por enquanto, se resume aos Titãs. Das doze faixas do disco, sete têm a mão de algum integrante do grupo, com ênfase para Arnaldo Antunes e Nando Reis - este, atual namorado de Marisa e seu parceiro em três faixas. Mas o LP não é de rock. "As músicas do Arnaldo e do Nando que gravei nunca entrariam no repertório dos Titãs, o estilo é diferente (mais ou menos; Eu Não Sou Da Sua Rua, de Arnaldo e a boa Diariamente, de Nando, poderiam perfeitamente ser gravadas pelos Titãs, desde que rearranjadas). E também... eu adoro os Titãs, mas gostaria de fazer contato com outras pessoas, com a galera da nossa geração. Tem muita gente por aí que merece ser gravada".

As quatro músicas restantes são Rosa, de Pixinguinha, em arranjo "pacífico sul" de Ryuichi Sakamoto; De Noite Na Cama de Caetano Veloso; Borboleta, canção folclórica nordestina recriada pela insólita trinca Marisa-Robertinho do Recife-Naná Vasconcelos e a ótima Ensaboa, verdadeiro case de propaganda para a etno music, com sua mistura de Mestre Marçal com Sakamoto e Pastoras da Velha Guarda da Portela com Fela Kuti.

No conjunto, Mais vai ser uma surpresa - tanto para os fãs de Marisa como para seus detratores. E simultaneamente ameaça ser um grande sucesso, já a partir da primeira música, Beija Eu. O disco, no entanto, é só o começo. Em março, começa a maratona de shows: devem ser oitenta até o final do ano, com direito a uma temporada europeia em junho. Em agosto deve ir ao ar um segundo especial televisivo ("acho que na Manchete - adorei que o primeiro não tivesse sido na Globo. Pensei também no SBT... mas eles não têm muita experiência com esse tipo de coisa"). Se você é fã de Marisa, portanto, prepare-se para um ano cheio.

Em meio à superficialidade e à voracidade rastaqüera da vida brasileira, Marisa Monte é um estranho no ninho. Adotou uma estratégia de longo prazo, cuja pedra de toque é o cuidado extremo com cada mínimo detalhe de sua carreira. Quando a indústria fonográfica investe em intérpretes ecléticas, Marisa procura sua turma e começa a compor. Numa época em que o público devora uma moda por mês, ela afirma que só poderá julgar seu trabalho "daqui a uns vinte anos, quando eu realmente tiver uma carreira atrás de mim". A garota acha que está três jogadas na frente do resto das pessoas - e vendo o tabuleiro todo.

"Eu me sinto capaz de fazer tudo!", diz Marisa, interrompendo de novo o trabalho do maquiador. O rosto já sumiu debaixo do rímel, da base branquíssima e do batom rubro. A menina já se transformou em Marisa Monte. "Não que eu saiba tudo. Mas sinto que posso aprender o que eu quiser, qualquer coisa!"

Eu acredito. Do jeito que ela fala, não dá para duvidar.

André Forastieri

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