forasta 11 A batalha de Atenas é do mundo

Hoje o sangue correrá em Atenas. Começa a "mãe de todas as greves", o prometido maior protesto da história do país. De um lado, os combativos sindicatos do país. De outro, cinco mil soldados da tropa de choque.

O governo propõe aumentar impostos, e cortar salários, aposentadorias e direitos dos trabalhadores. A votação do pacote de maldades começa esta quinta. Não tem apoio da população, claro. A oposição vota com o governo, porque qualquer outra posição seria irresponsável, dizem. Se aprovado o plano de austeridade radical, a Grécia recebe mais uma prestação dos empréstimos pré-aprovados pelo FMI e União Européia. Com a grana, o governo poderá pagar seus funcionários e aposentadorias. Sem o alívio, terá que declarar falência, talvez tão cedo quanto o meio de novembro. As repercussões ninguém quer nem imaginar. Mas não se pensa em outra coisa. Implosão da zona do Euro? Contaminação da crise para Espanha, Itália, e quem sabe - glup! - França e Alemanha?

A Grécia está entre a cruz e a espada. O futuro será duro, aconteça o que acontecer. O povo está mais preocupado com o presente, sejam professores, juízes ou lixeiros. Atenas fede com pilhas de sacos de lixo não recolhidos. E Evangelos Venizelos, o ministro da economia, não consegue entrar em seu próprio escritório há duas semanas; funcionários públicos trancaram seu escritório.

A megagreve de 48 horas acontece dias antes de mais uma reunião importante de políticos, planejando o "resgate" da Grécia. Resgate de bancos e da solvência do governo, não da população. Sinuca de bico? Os gregos têm espírito de luta, afiado em milênios de batalhas e séculos de correntes.

Causa Célebre: a libertação da Grécia. Mobilizou algumas das mais arrojadas mentes criativas do século 19. Com razões de sobra. As mais importantes conquistas do espírito e do intelecto, as mais influentes obras de arte, os marcos fundadores da matemática, da literatura, da arquitetura, da escultura - tudo que há de mais importante na cultura ocidental, e razoável parte da oriental, trazem a marca da Hélade, a terra do sol e da harmonia. E não só na antiguidade. Grega foi Roma e o Egito, e o norte da África, e a Síria e Pérsia; grega foi Alexandria; em grego foram escritos os evangelhos; por mil anos o Império Grego foi o último bastião da civilização.
E quando caiu, foi a redescoberta dos clássicos gregos que batizou o novo período de iluminação, a Renascença.

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Desde 1453, quando os Otomanos tomaram Constantinopla, os gregos não têm sossego. Foram quase quatro séculos sob domínio turco. Os gregos declaram independência em 1821, mas foram sabotados pelas grandes potências européias, que se davam muito bem com o Império Otomano. Morreu muita gente. Os gregos levaram, mas também bateram.

Quando a independência veio, em 1830, veio sob condições. O primeiro presidente da república era russo, de origem grega. Logo foi assassinado, e a Europa forçou a Grécia se tornar uma monarquia. O primeiro rei da Grécia foi alemão; o segundo, dinamarquês.

A esta altura Lord Byron, poeta-celebridade, ícone romântico, já morrera planejando atacar a fortaleza de Lepanto, aos 36 anos. A cicatriz marcou e inspirou muitos. Gerou pelo menos uma obra-prima entre o simbolismo e o jornalismo, inspirada por carnificina perpetratada em 1822 pelos otomanos, quando mataram vinte mil gregos de uma vez só, e escravizaram outros vinte mil. É o monumental O Massacre de Chios, razão suficiente para visitar o Louvre. O quadro de Delacroix em 1824 não retrata heróis, nem saída fácil. Como é hoje.

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Depois: mais traumas, mais batalhas. Já no século 20, os gregos tiveram outra guerra com os Turcos. Foram invadidos pelo eixo na Segunda Guerra, com direito a bandeira nazista na Acrópole e campos de concentração. Finda a guerra, mais cinco anos de batalha fratricida, agora entre gregos, de direita e esquerda, pelo controle do país. As forças apoiadas pelos Estados Unidos e Inglaterra venceram.

A esta altura, o país estava um bagaço. Os americanos bancaram um plano Marshall para a Grécia, para mantê-la longe dos comunistas. Desaguou em golpe, que em 1967 iniciou um regime militar sangrento, registrado em outra obra-prima, o filme Z, do grego Constantin Costa-Gavras.

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O país só começou a ter um respiro - depois de séculos! - na década de 80. Com eleições livres, entrando na OTAN, se integrando à Europa e finalmente adotando o Euro. Não era assim uma Suíça, mas entre os investimentos da Eurolândia e a explosão do turismo, os gregos viviam melhor e em paz.

A Grécia agora enfrenta outra guerra. Desta vez, contra invasores do futuro, armados com capital internacional desregulado, alta tecnologia, e protegidos por governos sem escrúpulos nem visão. A encrenca grega nada tem a ver com repentina repugnância dos turistas pelo mar azul de Mykonos, com a queda do preço do queijo feta, ou com a reconhecida ineficiência da máquina administrativa do país. Os inimigos dos gregos são os mesmos dos americanos, do Brasil, do mundo.

Helas, o país do sol, é de novo o centro do universo. O que acontecer hoje, e nas próximas semanas, vai nos influenciar por meses e anos. Não vejo novos Byrons ou Delacroix no horizonte. Mas sei que a resistência dos gregos vai continuar a inspirar outros, em Wall Street, em Barcelona, por aí e, espero, por aqui. Estamos em mais um momento de inflexão na história. E, mais uma vez, a mudança passa pela Grécia.

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