Em setembro, o comediante Rafinha Bastos disse, no programa CQC, da Band, que "comeria a mãe e o bebê". Referiu-se à cantora Wanessa Camargo, grávida. Era uma tentativa de humor. Você pode achar piada de muito mau gosto. E é.
Wanessa foi além. Com o marido Marcus Buaiz, entrou com processo contra Bastos. A ação tem um terceiro co-autor: é o feto que Wanessa carrega. Bastos teria violado a honra do casal e do "nascituro", além de ter cometido crime de injúria; praticou, segundo os advogados, ato ofensivo à dignidade e ao decoro dos três.
Pedem indenização e propõe que Bastos seja também alvo de uma ação penal, porque o humorista teria "violado os direitos do feto". Já defendi minha posição sobre o assunto, meses antes deste caso específico acontecer.
Trata-se de um caso de ataque à liberdade de expressão, protofascismo politicamente correto, incompreensão das liberdades individuais fundamentais em uma democracia, e preguiçosa cumplicidade com o consenso que compensa, por parte de conservadores de diversos matizes - de "direita" e "esquerda", inclusive, uma pá de grande amigos meus. Se tiver paciência, leia aqui minha defesa da liberdade de falar coisas indefensáveis.
Tenho razão pessoal para minha forte convicção sobre o caso, confesso. Já fui processado por uma celebridade por causa semelhante e perdi. História velha, resumo aqui. O que aprendi na época e Bastos aprende agora: quem tem rabo que cuide do seu. Outra que aprendi: a ser grato à empresa que pagou minha defesa e a indenização final.
Mais uma: quando você está sendo processado por uma pessoa rica e famosa, por ter simplesmente explicitado de maneira bruta sua opinião, ou ofendido o gosto do leitor ou editor, qualquer demonstração de solidariedade é preciosa. Então, aqui está a minha, Rafinha, pelo que vale.
Pela libertinagem de expressão
A nova informação sobre o processo - e a inclusão do bebê como co-autor - me lembrou dois trechos lidos recentemente. O primeiro, do jornalista e escritor anglo-americano Christopher Hitchens, é o epílogo de sua fuga de uma tentativa de estupro.
O segundo, do político e escritor Conor Cruise O'Brien, cristaliza o momento em que o irlandês, socialista, reconhece quais os reais valores que julga fundamentais. Os dois trechos estão no livro de memórias de Hitchens, Hitch-22, leitura obrigatória nestes tempos tão conflituosos - e principalmente no Brasil, onde o dissenso é considerado de malcriação a crime.
"....esta foi minha primeira introdução a um conflito que domina nossas vidas: o conflito eterno e irreconciliável entre Atenas e Jerusalém. De um lado, o mundo não do hedonismo, mas da tolerância, do reconhecimento que o sexo e o amor têm suas dimensões irônicas e perversas. De outro, a exigência pétrea do sacrifício, da restrição e da conformidade, e a invenção de punições cada vez mais cruéis para os desvios, como se não fosse este próprio fanatismo o responsável."
O'Brien
"Fui obrigado a reconhecer que liberal era o que eu realmente era, incuravelmente. Por mais que eu defendesse qualquer posição, estava profundamente ligado aos conceitos liberais de liberdade. Liberdade de expressão e de imprensa, liberdade acadêmica, julgamento independente, juízes independentes - eu estava mais ligado a isso do que a qualquer idéia de um partido disciplinado, mobilizando todas as forças da sociedade, para a criação de uma ordem social que garantisse mais liberdade real para todos, em vez de apenas uns poucos.
A ideia revolucionária é claramente mais relevante de imediato para a maior parte da humanidade, do que os conceitos liberais. Mas eram os conceitos liberais, e sua importância no longo prazo, que conquistaram minha lealdade - ainda que não sob o nome de liberal."
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