Os acontecimentos na USP nos últimos dias geraram muita conversa pela internet afora. Quando vi, estava lá discutindo e discordando, e de gente inteligente e bem-informada, não de simplórios.
Conversando a gente não se entende, mas frequentemente entende o que antes estava lá chapinhando no córtex. Decidi que não queria que alguns insights fossem sugados pelo torvelinho do Facebook, donde os reproduzo aqui.
Fora de contexto, mas não de pauta.
* O Brasil de hoje não é uma ditadura, de jeito nenhum. Mas é uma democracia muito imperfeita, com muitos resquícios da ditadura, sim; inclusive gente como Sarney e Maluf e afilhados ainda apitando e muito, assim como big indústria e agro; a oposição fez acordo com essa gente para se viabilizar como situação, desde as indiretas, até depois com FHC abrigando o PFL e PT abrigando todos os partidos, dos mais fisiológicos à suposta extrema esquerda.
* PSDB, PSD, PMDB, PT, PSOL - não quero saber se é pato macho, eu quero é ovo.
* O Estado de São Paulo, como centro econômico, cultural e intelectual do país - e nossa única conexão de fato com o mundo exterior, no que diz respeito a grana - é onde a briga entre novo e velho é mais disputada, com o velho ganhando de braçada, porque muitíssimo bem preparado e financiado.
A inserção do Brasil no mundo que importa, no mundo que pode superar as discussões e dicotomias do século 20 (se tivermos muita sorte) necessariamente passa por São Paulo.
Não tem solução 100% Brasil pardo, até porque está majoritariamente nas mãos de coronéis assumidos ou disfarçados, e MUITO dependente do governo federal.
* Naturalmente, quando os escurinhos começaram a comer, comprar geladeira e fazer facul via ProUni, a reação veio a pau, e de onde viria o fogo mais pesado? São Paulo, claro.
* E a maior parte do orçamento do governo federal vem, naturalmente, do sul-maravilha. O que aliás é muito justo. Mas: a suposta ação e vida inteligente espalhada por aí é bancada por aqui. Então, é só mezzo orgânica das suas comunidades, estados etc. É tipo Luz pra Todos, sacou?
* Tô nem aí com papo de música e cultura, não tem essa de separar isso do resto quando estamos falando do país. É economia, é business, é política e realpolitik e idealpolitik, e cultura vem no bolo, é indissociável.
É só ver o que vai acontecer com a cultura da Europa, museu a céu aberto, subsídios mil pra vanguarda e livros e tal, agora que o continente tá indo pra béstia.
* São Paulo tem que ser compreendida por sua função simbólica. O que é São Paulo? Um lugar onde você vem FAZER alguma coisa. É o lugar da produção, e portanto da organização hierárquica, do foco, da mais valia, do consumo, do status conquistado e não herdado.
SP é all business, man, não tem boi para quem veio a passeio. Quem quer malemolência, wellness, sintonia com a natureza e os anseios pardos e eróticos do Brasil brejeiro etc. vai sentar no pudim.
* Em suma: o Brasil tem mil pontos de inflexão e reflexão e ação espalhados pelos quatro cantos de seu território, mas a AÇÃO, de verdade, está em São Paulo. Foi por isso que mudei para cá em 1983...
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