Finalmente os políticos fecharam o tempo com o movimento Occupy. O acampamento em Wall Street, o mais vistoso, foi desocupado à força esta terça, depois de dois meses. A suprema corte de Nova York decidiu que os manifestantes podem ficar no parque, mas sem usar tendas, ou geradores de energia, por suposto "perigo de incêndio em área pública". Com o inverno chegando, só se decidirem virar picolé.
Na segunda, foi em Oakland, cidadezinha na área de São Francisco, palco de várias encrencas. Semana passada, a polícia apertou os manifestantes em San Diego, Nashville e Atlanta, e por aí vai. Acabou a bagunça?
Não. Primeiro, porque o questionamento do capitalismo continuará. A economia dos EUA e Japão continua patinando; a da Europa, deslizando para o fundo do poço; a da China crescendo, mas mantendo a população muito pobre. O resumo da mensagem do Occupy - somos os 99% dos humanos que trabalham para 1% de uma elite que só defende seus próprios interesses, e vamos mudar isso agora - funciona bem em qualquer canto do planeta. O corolário é: não dá pra mudar o que interessa via eleitoral ou militando na esquerda tradicional.
O segundo motivo foi bem desenvolvido por Gilson Scwhartz e Guilherme Ari Plontz, em artigo recente: Ocupem o Digital. Você não precisa concordar integralmente com a tese, mas preste atenção. Uma palinha para estimular a leitura:
"Promover a digitalização da saúde, da cultura e da economia criativa é o desafio central que nossas autoridades, lideranças sociais e empresariais e inteligências acadêmicas e culturais precisam enfrentar.
Ocupar o digital é ir além do choro e do ranger de dentes que massacram as populações de todo o mundo, vítimas do "meltdown" da globalização financeira. No entanto, para construir a sociedade em rede, não basta comprar máquinas ou estender cabos e redes sem fio. É preciso saber o que fazer para bem ocupá-las. Queremos mudar o mundo? Ocupemos o digital, já." Leia mais aqui.
O terceiro motivo é o perfil dos manifestantes do Occupy nos Estados Unidos. Foi transformado em um infográfico elegante e esclarecedor pela revista de negócios Fast Company. Ele ilustra visualmente o resultado de um estudo realizado pelo professor Hector Cordero Guzman, da Baruch College, e do analista Harrison Schultz, que ajudou a criar o site occupywallst.org. Este site, eixo oficioso do movimento, recebeu 4.7 milhões de visitantes únicos entre 18 de setembro e 28 de outubro.
O estudo analisou inicialmente 1619 integrantes do Occupy, e depois mais 5006 pessoas, em outubro. O resultado está aí embaixo, em inglês, mas fácil de entender em qualquer língua. Os dados mais espetaculosos: 47% dos manifestantes estão empregados em horário integral; 81% são homens; 76,5% acima de 25 anos; 81% brancos; 53,4% com renda anual acima de US$ 25 mil. Ué, não era um bando de hippies e filhinhos de papai? Nada - a crise americana está pegando onde dói, no coração da classe média.
Quarto, o movimento se espalhou. São mais de duzentas ocupações planeta afora. Uns briguentos, uns frágeis. Não consigo levar muito a sério os indignados do Ocupa Sampa, que acampa há um mês no Anhangabaú, onde eles não atrapalham ninguém. Fosse na Paulista ou na Berrini... Mas tem umas 300 pessoas circulando todo dia por lá, com aulas públicas, e debates acalorados e intermináveis sobre todos os assuntos imagináveis ou não. Uma lista das ocupações internacionais está aqui.
Quinto, o que muitos consideram a principal fraqueza do grupo - sua falta de lideranças e de uma pauta unificada de reivindicações - é, na verdade, justamente sua força. Em estruturas hierárquicas, corte a cabeça, e o corpo vem abaixo. Em estruturas de rede, o poder emana dos nós, dos lugares de encontro, dos links. O Occupy tem, sim, lideranças, e foram elas que convenceram o coletivo a aceitar as decisões por assembléia geral e consenso. Improvável, mas verdadeiro. Conheça David Graeber, o antropologista de profissão, anarquista de berço e principal articulador da parada toda, aqui.
Para lidar com organizações estruturadas em torno de uma agenda específica, basta acenar com concessões pontuais e engajamento institucional (para os "razoáveis") e isolamento dos radicais (porque "irresponsáveis"). Quando o movimento tem mil demandas mutantes conforme dia e localização e necessidades locais e grupais, articular respostas é tarefa que as democracias não cumprem, que dirá ditaduras. Protesto com a sua cara e todas as caras.
Daí a grande força deste movimento. Que não se resume ao Occupy; este é só a parte mais visível e americana de um desconforto permanente, mais profundo e militante do que qualquer coisa que o mundo vê desde os anos 60.
O Século 21 é a era da integração econômica do mundo, via tecnologia, logística e finanças; essas caminham rápido, e geram novas soluções, novos problemas, novas elites e servos. As paralelas e necessárias integrações políticas, legislativas, judiciárias se arrastam. Nossas lideranças não dão sinal de idéias ou espinhas. Se não levarmos a sério os indignados, vamos levar a sério quem? Deputados, presidentes, banqueiros e CEOs?
Nossa era finalmente tem uma causa, uma militância e suas próprias armas, à prova de desocupações forçadas. Só cego não vê que, como se dizia antigamente, a luta continua. O arsenal é digital, o movimento é internacional, e o lema é inspirador. Como se gritava em Paris, 1968, nas barricadas do desejo: "seja razoável: exija o impossível".
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