Minha casa está caindo aos pedaços, e ainda tenho vários anos de prestação pra pagar. Aqui não tem esgoto nem água encanada. Luz elétrica tem, mas a conta vive atrasada. Arroz e feijão eu garanto, mistura só no fim de semana.
Meu filho estuda em uma escola bem distante, em que falta tudo, de merenda a professor. Até que enfim dei sorte! Recebi uma herança da minha tia Tibúrcia.
Não é uma fortuna, mas dá pra começar a colocar a vida em ordem.
O que você acha que eu devo fazer?
a) pago as dívidas, quito e reformo a casa, abro uma poupança para garantir o futuro das crianças, ou
b) compro o terreno na favela aqui ao lado, construo um campo de futebol, e o resto que se dane?
O Brasil 2011 é isso: o desgraçado que de repente ascendeu a remediado. Quem nunca comeu melado, quando come se lambuza. O que importa é ficar bem na fita agora. Vale pra gente e para o nosso dinheiro.
Cada vez mais grana do meu e seu trabalho são drenados para os cofres públicos. De lá, parte polpuda vai direto para os grandes negócios dos grandes amigos de nossos ilustres representantes, com o devido pedágio.
A turba aqui no andar de baixo nem se toca, ou se percebe, bate palmas. Ainda mais se as negociatas vêm embaladas em um pacote convincente, luxuoso, e se juntar "emprego" e "esporte", sem polêmica.

Então o paulistano está bem satisfeito com nossa nova "sports arena", o Itaquerão. Os cariocas batem palmas para a reforma do Maracanã.
E nas outras dez cidades que sediarão a Copa do Mundo de 2014 os torcedores comemoram seus moderníssimos estádios.
Esgoto e escola continuam artigos raros, e dinheiro pra assistir aos jogos da Copa o populacho não vai ter, mas os idiotas estão todos orgulhosos. Um estudo da consultoria Brunoro Sport Business, BSB, apresenta a conta.
As arenas esportivas que estão sendo reformadas ou construídas nestas doze cidades demorarão de onze a 198 anos para se pagar, considerando o nível atual de rentabilidade dos estádios.
Os doze estádios escolhidos para os jogos da Copa custarão bem mais e terão receita bem menor depois da Copa do que os que foram construídos para as últimas edições da Eurocopa.
Quanto pior? Bem, a arena com a pior rentabilidade é a de Manaus. Seu faturamento anual depois da Copa deve ficar em torno de R$ 2,5 milhões. Quanto estamos investindo? O custo total está estimado em R$ 499,5 milhões.
A nova Arena da Amazônia demorará 198 anos para se pagar, segundo a BSB. Isso supondo que não houvessem neste período novos gastos em manutenção (o que em duzentos anos deve somar uma bolada).
Mas a receita deve dar uma melhorada com um estádio novo, né? A consultoria mexeu com os números pra cá, pra lá, considerou que a receita poderia subir para até R$ 11 milhões por ano.
Em pouco menos de cinquenta anos, tá pago o estádio amazonense. Mas vai ficar lindão, hem?

Em Brasília, o estádio Mané Garrincha está recebendo investimento de R$ 671 milhões - em 167 anos estará paga a conta. Cuiabá: desembolsamos R$ 342 milhões. Em Natal, a conta é R$ 400 milhões. E por aí vai.
Total da esbórnia: R$ 6,71 bilhões. O gasto é 32% maior que foi investido na África do Sul, na última Copa.
Claro que quando o prazo for esvanescendo, o custo vai subir, sete bilhões de reais ou mais, dos quais vai saber lá que pedaço imenso vai diretinho pro bolso dos de sempre.
Todo esse investimento para preparar o Brasil para a Copa tem impacto positivo na vida da população, defendem alguns, principalmente os que têm algo a ganhar, ou nada na cachola. Isso é propaganda.
O que ficou dos Jogos Pan-Americanos no Rio? Dívidas.
Se você quer informação sobre o efeito negativo de megaeventos esportivos no Brasil e mundo afora, sugiro começar com uma entrevista do professor Gilmar Mascarenhas, estudioso do tema. Leia aqui.
O Brasil está fazendo esta besteira no meio da maior crise financeira desde a Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos e o Japão fazendo água, a Europa submergindo, e até a China desacelerando.
Estamos tomando esta decisão em um país em que as necessidades básicas de parte imensa da população continuam desatendidas. E a minoria que vive menos mal tem que pagar tudo do bolso.
Socializamos os problemas e privatizamos as soluções.
O piso salarial de um professor brasileiro da rede pública é de R$ 1.187,00, para quarenta horas semanais. A lei tem três anos e não é cumprida em 17 das 27 unidades da federação, segundo reportagem da Folha do dia 16 de novembro.
Não temos dinheiro para investir no futuro da nossa criançada, mas temos sete bilhões para jogar no ralo, bancando o que não podemos, durante um mês de Copa do Mundo. Mas o que importa? É bola na rede.
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