Não há grife no mundo dos livros maior que Penguin. Não há editora mais respeitada no Brasil que a Companhia das Letras. Se "associaram", isto é, o Penguin Group comprou 45% da empresa brasileira.
Casamento de conveniência, e quase de sangue azul. Só não, porque a Penguin sempre teve os dois pés profundamente fincados na classe média média, e "a Companhia", como todos a chamam, não tem estirpe - nasceu quando eu estava na faculdade. Faz 25 anos.
Li a notinha no jornal: o editor Luis Schwarz deixa a Editora Brasiliense e vai fundar sua própria empresa. A Brasiliense era a única editora que importava nos anos 80. Provocava os jovens e impunha as pautas culturais do país.
Luis era seu editor-chefe. Saiu por cima e na hora certa; a Brasiliense desboroou pouco depois. Eu andava desanimado com minha futura profissão e pensando em mudar para editoração.
Meu pai falou, escreve para o Luis! Quem sabe você não vai trabalhar com ele? Ou quem sabe ele não quer um sócio minoritário?
Nunca soube se brincou ou falou sério - meu pai, médico, ia lá botar algum dinheiro em uma editora iniciante de um cara que ele nem conhecia, só para arrumar um emprego para o filho de 21 anos indeciso com a vida?
Duvide-o-dó. Mas enviei a carta. Recebi resposta? Não lembro, e se sim, foi como se não. Pouco depois nascia a Companhia das Letras. O sócio da empresa era uma editora e gráfica de cartões (desses de Aniversário e Boas Festas), da família Schwarz.
Comprei, como todo mundo, Rumo à Estação Finlândia, de Edmund Wilson, primeiro livro da editora, e como a maioria não cheguei ao final. Cadê os beatniks, o rock'n'roll, os primeiros passos, as cantadas, a ousadia? Bye-bye.
A Companhia apostou no prestígio. No pop, só depois, e comedidamente, tênis com paletó.
Um ano depois fiz teste para tradutor na Companhia. Peguei um livro de John D. McDonald, mais um da série estrelada pelo investigador Travis McGee. Eu já tinha lido uns 15 McGees até então. Não passei.
Hoje entendo - estava traduzindo muito duro, muito literal. Na época fiquei uma vara! Mais um ano, arrumei meu primeiro emprego, de jornalista. Seria eu mesmo editor de livros depois, na Conrad, mas estratégico, sem meter a mão na massa. Tenho vocação para catálogo e negociação, nenhum para a ourivesaria do acabamento, ou para relacionamento com autores.
Um quarto de século depois da minha cartinha, a Companhia tem mais de três mil livros lançados, prestígio junto aos leitores e formadores de opinião, amor (até excessivo e condescendente) da imprensa especializada.
Deve ter boas vendas governamentais, como todas as grandes editoras, porque é o que dá dinheiro de verdade no mercado editorial brasileiro. Onde entrou, fez bonito ou não fez feio, da literatura estrangeira e nacional a livros de bolso, infantis e quadrinhos.
Ganha a Penguin como sócia. O restante ficou com os três sócios principais, Luiz, sua esposa Lilia Moritz Schwarz (boa escritora, de As Barbas do Imperador) e Fernando Moreira Salles, da família bilionária e extremamente ativa na cultura brasileira.
O dote deve ter sido convidativo, talvez menos pela grana no bolso que pelo futuro. O casamento é melhor pelas diferenças entre os noivos que pela semelhança. A Companhia ganhou uma chance de sobreviver, coisa que a maioria das editoras brasileiras não têm.
A Penguin nasceu em 1935 com o intuito de levar livros de boa qualidade às massas, a preços acessíveis. Usava para isso o formato paperback, antes exclusivo de pulps estrelados por monstros espaciais, tiras durões e melindrosas de decotes generosos.
A definição de bons livros do fundador da Penguin, Allen Lane era ampla: os primeiros dez títulos publicados pela Penguin incluíam de Ernest Hemingway a Agatha Christie a Vita Sackville-West. Eles eram vendidos em magazines a preço de banana. Pagavam royalties menores que edições normais.
Sir Allan Lane, criador da editora Penguin
Com o tempo, provaram que havia público de massa para livros contemporâneos, para não-ficção, livros de viagem, biografias, todo tipo de livro, de poesia a polêmica (O Amante de Lady Chatterley, Os Versos Satânicos).
E principalmente para clássicos, linha iniciada em 1945, que ainda é dominada pelo selo, portfolio irresistível. Cada linha com sua borda de cor diferente.
Pagar barato pelo biscoito fino e revendê-lo barato para as massas que não frequentavam livrarias foi boa estratégia, hoje turbinada no mundo digital. Padronizar a apresentação coroou a estratégia.
Os livros da Penguin desde o início foram facilmente reconhecíveis, pelas bordas, pelo formato e tipografia, pelo pinguinzinho.
Para entender porque a associação é estratégica, o importante é ir além de catálogos ou ativos das duas empresas e chegar ao grupo britânico Pearson, multinacional que é dona da Penguin.
A Pearson tem 37 mil empregados e faturou 5,6 bilhões de libras em 2010. Através do Penguin Group, controla dezenas de editoras de primeira como Dorling Kindersley, Putnam, Viking, os guias Rough Guide e outras.
Tem negócios gigantescos em educação. A Pearson é dona de duas grifes globais de mídia, sinônimos de qualidade em jornalismo, de sotaque tão britânico quanto Penguin: o venerando jornal Financial Times e The Economist, a única publicação que se dá bem de verdade no mundo digital.
Em 2010, a Pearson comprou os sistemas brasileiros de ensino do Pueri Domus, COC e Dom Bosco. São seis mil escolas particulares e 500 mil professores no Brasil.
Ao negócio de apostilas, fica fácil acoplar livros do catálogo da Companhia, através de um selo chamado Boa Companhia.
E a Pearson já tem um negócio razoável de livros digitais, chamado Biblioteca Virtual Universitária, mais de dois mil títulos digitalizados de editoras como Ática e Martins Fontes, e, agora, os livros da Companhia.
A venda para estudantes, via compra governamental ou imposição da apostila adotada, é a mais garantida que há.
Hoje, qualquer um pode publicar seu livro digitalmente, vender ou doar ao mundo, divulgar de graça nas redes sociais. O custo caiu para zero ou perto disso.
As editoras são crescentemente desnecessárias, como estão percebendo rápida e dramaticamente - quando, por exemplo, a gigante do varejo eletrônico Amazon.com começa a publicar seus próprios títulos.
Com a popularização dos tablets, o livro de papel vai pelo caminho do disco de vinil. Está com os dias contados como produto, salvo exceções pontuais tipo edições de luxo e fac-similes.
Facílimo ser autor, dificílimo ganhar dinheiro com livro, que a oferta é infinita - quem tem tempo para ao menos saber tudo que existe para ler?
A venda de livros digitais diretamente para o tablet ou computador do consumidor é operação que existe tecnologia de ponta e constantemente atualizada - não é negócio em que uma editora de papel, sozinha, faça verão.
Quando você quer vender seu livro em bits, está concorrendo com todos os livros de graça do planeta Terra, com os piratas, e com a Amazon, o Google, o Facebook e a Apple. Encrenca indigesta.
Dentro da Penguin - dentro da Pearson - a Companhia das Letras tem alguma chance de estar viva daqui a outros 25 anos.
Espero que sim, mas minha colaboração será muito eventual. O que preciso ler já, por razões profissionais, vem via web, grátis ou muito barato. O que quero ler para mim, posso esperar. Não compro mais lançamentos.
Meu consumo de livro é em sebo físico ou virtual, ou na Amazon, velharia com descontão. Não tenho pressa para ler nada. Eu tinha pressa era de deixar de publicar livros, o que fiz alguns anos atrás.
Pressentia o dia em que nem a mais importante editora do Brasil teria sua sobrevivência garantida, imagine minha editorinha independente. O dia chegou.
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