Ester tem dezenove anos e um mês de emprego. Começou dia primeiro de novembro. A estudante de pedagogia é estagiária de marketing em uma escola particular.

Parte da sua função era receber os pais interessados em matricular os filhos, responder suas perguntas, mostrar o colégio.

Mas teve problemas logo no primeiro dia. Segundo Ester, a diretora da escola reclamou de uma flor presa em seu cabelo. Pediu para prender os cachos.

Dias depois, reclamou de novo do cabelo de Ester. Disse que ia comprar camisas mais longas, para que Ester escondesse seus quadris.

Como você pode representar nosso colégio com esse cabelo crespo, perguntou a diretora?

Ester é negra. Foi à polícia. Registrou BO na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.

"A discriminação me afetou de tal forma que eu não consigo mais me olhar no espelho e mexer no meu cabelo.A diretora mexeu com meu emocional. Estou triste e choro a todo instante", disse aos jornais.

Esta semana, Ester divulgou o caso na internet. Pegou fogo. Muita gente indignada. Acusações de racismo. Absurdo.

Ester foi transferida para o arquivo, em uma sala em frente à direção. “Agora só arquivo documentos e carimbo carteiras dos alunos”, reclama a moça. A direção do colégio diz que ela não mudou de função.

É chato para Ester? Certamente. É raro? Claro que não. É injusto? Bem, quem trabalha representa a empresa onde trabalha. Mais ainda se é a face pública da empresa, lida com atuais ou potenciais clientes.

Butique fina de shopping tem vendedoras magrinhas e elegantes. Recepcionista de academia não pode ser gordeta. Médico usa branco. Advogado usa gravata. Executivo americano usa camisa azul e calça cáqui de sexta-feira, dia casual.

Principal: é racismo da diretora do colégio? De longe, não me parece. Estivesse Ester dentro dos padrões estéticos que a tal diretora considera os ideais para fazer os pais abrirem a carteira e matricularem os filhos, não seria problema nenhum ela ser negra.

Os padrões estéticos são idiotas? Bem, empresas de cosméticos ganham rios de dinheiro vendendo alisador para negras.

Cirurgiões plásticos no mundo todo faturam forte corrigindo narizes, peitos, bundas e tudo mais de mulheres de todas as cores, todas procurando se aproximar do padrão hollywoodiano. Se os padrões são bobos, somos todos.

Soube esses dias de um jovem recém-formado em jornalismo. Estagiava em um grande jornal. Foi convocado para fazer uma entrevista em vídeo com um executivo. Foi e fez - de jeans, tênis e camiseta.

A direção do jornal decidiu não colocar o vídeo no site. O jovem jornalista espumou. Mandou email coletivo, indignado, como o jornal podia fazer uma coisa dessas com ele? Que importa se estava de jeans? Ele fez seu trabalho ou não?

Não fez não. E dançou, merecidamente. Meu trabalho não é o que eu acho que é. É o que a empresa onde eu trabalho diz que é. Se o jornal exige que os profissionais que aparecem no vídeo usem terno, parte do trabalho é usar terno.

Ester está no final da adolescência. Como o cara do caso acima, deve se sentir no direito de vestir o que quer, ter o cabelo que quer, orquídea no cabelo - ué, contanto que eu faça meu trabalho, por que não?

Porque não, querida. O mundo não funciona assim. Triste? Verdadeiro. Coisa mais útil que você poderia aprender em um estágio.

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