Nada fede mais que preconceito. Qualquer sugestão de preconceito contra negro, homossexual, nordestino, mulher ou qualquer outra "minoria", te prepara que vem chumbo. Não sou racista. Até porque não existe diferença racial entre indivíduos da espécie homo sapiens.

Somos todos muito iguais, nas qualidades e fragilidades. Mas questionei a acusação de racismo (leia aqui), formulada por uma jovem estagiária negra contra a empresa em que trabalha, e choveu estrume pro meu lado.

Respeito o direito de todos opinarem, tirando os que não leram e não gostaram, e os que me questionaram pelo que não estava escrito. Na maior parte dos casos, trata-se de deficiência educacional, problemas com interpretação de texto.

Sei a origem de toda essa indignação e de por que preconceito é o pecado mortal de nossos dias. Se chama Identity Politics. Mais uma invenção americana que conquistou o mundo, como o hot dog e o refrigerante.

É política baseada em quem você é, não no que você faz. É a defesa dos direitos das pessoas com aquela cor, ou que vem dessa região, ou que tem esse tipo aqui de atividade sexual, ou que reza para aquela divindade em particular.

Você, e outros parecidos com você, se organizam para enfrentar a o preconceito ou perseguição específica do seu grupo. Não tem tradução em português. Generalizando, é a política das minorias, termo pra lá de inexato, porque muitas vezes gigantes. Então chamarei de - a-ha! - "Política para Minorias".

Deu certo algumas vezes. O caso mais espetacular foi o movimento pelo direito dos negros nos anos 60, Estados Unidos. Mortos Martin Luther King e Malcolm X, seguiu-se a instauração de uma série de políticas dedicadas a tirar os negros americanos do subdesenvolvimento.

Ação afirmativa: ajuda financeira e outras para os negros comerem, estudarem, trabalharem; cotas e tudo mais. Foi e é copiado internacionalmente. No Brasil também.

Política para Minorias é tão comum que passa batido como é criação recente. A esquerda tradicional sempre foi contra o conceito: era a classe opressora lá em cima, a classe trabalhadora revolucionária aqui embaixo, e acabou o assunto.

malcolm martin blog Pessoas que pensam com sua pele, genitália ou clã são o problema, não a solução

Martin Luther King e Malcolm X

A razão porque nenhum tema dá mais pano pra manga do que Política para Minorias: a política institucional hoje é jogo para profissionais bem adestrados, financiados por lobbies poderosíssimos.

A queda da União Soviética gerou um mundo multipolar, mas ele tem uma única obsessão: dinheiro. Identity Politics se tornou o único tipo de política ao alcance das pessoas comuns.

Subsegmentou-se. É a luta pelo direito do velho, do gordo, do transsexual, desta e daquela minoria étnica ou religiosa. Pelo direito do pequeno lavrador, do sem teto, do ciclista, dos cachorros e seus donos, das crianças com Síndrome de Down e suas famílias.

Virou capital de negociação eleitoral. Deputado tal faz lei protegendo tal grupo, leva os votos do grupo. Virou também uma maneira de gritarmos ao mundo nosso narcisismo, e a internet amplia o ruído à surdez.

Não é reducionismo demais? Ser mulher é a característica fundamental de 3,6 bilhões de mulheres sobre o planeta Terra? O elemento que define os milhões e milhões de negros do mundo é a cor da pele? O elemento determinante sobre quem eu sou é o fato de eu ser homem e branco?

Não há um quê de egoísmo, quando você coloca seus problemas acima dos problemas dos outros? Quanto da nossa tendência a procurar os parecidos conosco é DNA de primata feroz, e quanto é uma construção social? Não tenho respostar prontas, o que em alguns círculos já me caracteriza como conservador, racista, sexista etc.

Evidente que grupos específicos têm problemas específicos, além dos gerais. Foco concentrado na solução customizada de problemas específicos frequentemente funciona. Vagas suficientes em creches públicas boas beneficiam toda a sociedade, mas só é demanda urgente para mães.

Se elas não brigarem por isso, será mais uma das 2057 "prioridades" do governante do momento. Só crápulas impõem tratamento igual aos diferentes. Uma sociedade que não protege quem precisa de proteção é uma selva disfarçada - olhe pela janela.

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Eric Hobsbawm

O historiador Eric Hobsbawn defende que Política para Minorias é uma espécie de nacionalismo. Uma distração do problema principal: a famosa dominância da burguesia, esta sim mola propulsora das agruras que afligiriam todas as latitudes.

E que dizer da suposta superioridade moral das minorias, da sua incompreensão das demandas de massa, da cooptação destes movimentos pelo big business?

Soa sólido, e ninguém acusaria de conservador Hobsbawn, lenda do marxismo. Mas sou mais Emma Goldman. Cento e tantos anos atrás, a líder anarquista repreendeu um grupo de operários americanos que lutava pela redução da jornada de trabalho.

Deveriam estar lutando é pela revolução! Levou o retruque de um peão lá, mas eu vou ter que esperar todos os capitalistas estarem mortos para poder ler meus livrinhos, ter uma meia hora de folga por dia? Emma nunca mais minimizou a importância da batalha pelo aqui e o agora.

Mas - e nisto o Século 21 pode aprender muito com Emma - nossa heroína anarco nunca deixou de pensar no longo prazo, na conquista do difícil e na materialização do insensato.

O enfrentamento da ignorância, da violência, da ganância, é tarefa pra todo dia, pra se encarar sozinho ou com sua turma. A vitória possível sobre estes eternos inimigos da humanidade são missão de massa, para muitas vidas.

A Política para Minorias podem se articular com o que eu chamaria de Grande Política, como duas frentes da mesma batalha. Podem se somar - ou não. Veremos o destino do Occupy, dos Indignados esapnhóis e de outros movimentos que tentam hoje construir esta ponte.

Homem, branco, remediado etc., me importa mais o que nos iguala do que o que nos separa. O Brasil e o mundo têm muitos grupos com problemas específicos, e que bom que todos eles se organizem para tomar o que é seu.

Melhor ainda se for sem miopia triunfalista ou arroubos de excepcionalismo. Faço minha a irretocável lápide que Christopher Hichens depositou sobre a Identity Politics:

"Quase sempre são os ignorantes e chatos e egoístas que vêem na Política de Minorias sua grande chance... Pessoas que pensam com sua epiderme ou sua genitália ou seu clã são o problema, para começar.

Impossível banir este espectro através de sua invocação. Eu jamais votaria contra alguém baseado somente na sua "raça" ou "gênero". E jamais votaria a favor, pela mesmíssima razão."

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Christopher Hitchens

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