Fim de ano, lista pra todo gosto: melhores livros, filmes, discos. Bato o olho em algumas. Os 50 melhores discos do ano, e não ouvi nenhum. Os 25 livros imperdíveis de 2011, idem.

Novos autores recomendados por velhos autores, não conheço nem uns nem outros. Descompasso total.  Mesmo assim vou te dar de presente a lista das melhores coisas que li este ano. Não necessariamente lançadas em 2011.

Que te importa o ano do lançamento?

Em número de títulos e páginas, ninguém me ocupou mais em 2011 que Warren Ellis. Foram umas 2500 páginas. Leva vantagem porque escreve primariamente quadrinhos. Também romances, crônicas, games, animação e cinema.

É um inglês que sabe juntar ficção-científica, horror, sordidez e humor, e observador arguto das misérias e glórias humanas. Muito ativo online, e bom colunista também, do site Suicide Girls, depois da edição britânica da revista Wired.

Costumam defini-lo como um cyberpunk tardio. Está mais para splatter-sci-fi (inventei agora). Faz literatura de ideias, com pulso pop e vísceras à mostra. Inventou o moderno gibi de super-herói em 1999, com a série The Authority - narrativa cinematográfica widescreen, diálogos esparsos, ação em tempo real, pouca explicação.

warren ellis Os melhores do (meu) ano: o escritor que mais li em 2011

Eu já tinha lido toda a principal obra de Ellis - os quadrinhos Planetary, Transmetropolitan, Global Frequency e uma pá de gibis soltos; seu único romance, o demoníaco e hilário Crooked Little Vein; a antologia de colunas Come In Alone.

Até editei um no Brasil - Batman/Planetary, pela Pixel, obrigatório para fãs do velho morcego. Este ano resolvi passar a régua.

O que li de Warren Ellis em 2011:

- Shivering Sands, coletânea de ensaios, historinhas, xingamentos, divertida e inteligente - Seven Years of Stories, Drinking and the World, é o subtítulo

- Os três volumes de Gravel, sobre um soldado mágico na Inglaterra de hoje - arte meio pra tosca e protagonista proletário genérico, mas embalei

- Wolfskin, a versão de Ellis para heróis bárbaros taciturnos, tipo Conan, mais explícito e sanguinolento

- No Hero é sobre super-heróis e drogas, mas principalmente sobre super-vilões

- Ignition City uma aventura de aviação retrô, com perfume de Flash Gordon

- Anna Mercury, super-espionagem sexy e futurista

- Crecy, sobre a mais importante batalha da Guerra dos Cem Anos, entre ingleses e franceses, 1346

- Black Summer tem um Super-Homem que decide mudar as coisas - e começa assassinando o maior bandido que conhece, o presidente dos Estados Unidos

- Freak Angels, aventura teen distópica, publicada como webcomic, só depois em papel.

ignition city ok Os melhores do (meu) ano: o escritor que mais li em 2011

Ainda falta uma ou outra coisa pra fechar a obra do cara. Ellis sempre foi um "working writer", um cara que vive de escrever. Por isso escreve muito. Cada vez menos para grandes editoras. Bolar outra aventura do Hulk ajuda a pagar as contas, mas nada como ser dono das suas criações.

Pode vender pouco, mas é um percentual maior no seu bolso, e se você emplaca uma superprodução em Hollywood, tá feito. Foi o que aconteceu com Ellis. Red, sobre agentes secretos aposentados, foi adaptado para um divertido filme com Bruce Willis e Morgan Freeman. Ellis está riquinho e com visibilidade maior que nunca. Em 2012, ganha um documentário sobre a sua obra.

Warren Ellis - Captured Ghosts Release Trailer por perolasblogs no Videolog.tv.

Uns são bons, outros ótimos, todos têm seus defeitos, todos têm personalidade. Em cada um você encontra a mesma tensão - entre transformação e permanência, entre novas e velhas tecnologias e o uso que damos para elas.

Ellis não é um bobão inocente do Vale do Silício, nem um apocalíptico. Se define como "um otimista constantemente desapontado". Acredita na possibilidade de mudança para melhor.

Não da natureza humana; esta caminha no ritmo da evolução, coisa para milhares de anos. Mas mudança das sociedades humanas. Porque somos animaizinhos muito engenhosos, capazes das maiores burrices e maldades, mas também de criar soluções para grandes problemas.

Porque um cara com um cérebro desses dedica a maior parte do seu tempo a escrever gibis? Em Shivering Sands, Ellis dá sua explicação:

"Qualquer outro tipo de narrativa visual é comprometida por comitês, executivos, pesquisas e imposições. Nos quadrinhos, é apenas o escritor, o ilustrador e o editor. No máximo outras duas pessoas além de você, e na mesma sintonia que você.

E assim você consegue se comunicar sem filtros, em um meio de massa, em que as vendas são pelo menos um pouco melhores que em literatura, ou música independente. Você tem a chance de dizer o que quer dizer."

"E assim se eu for bom e tiver sorte, posso mudar a maneira como você pensa, só um pouquinho. Posso te contar meus segredos e te revelar coisas, e te embebedar com idéias, e dramatizar o mundo em que você vive, só por um tempinho. É para isso que servem as histórias, é para isso que estou aqui. Muito obrigado."

Obrigado você, Warren.

warrenellis okoko Os melhores do (meu) ano: o escritor que mais li em 2011

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