Traduttori, traditori, tradução é traição, me explicou Ezra Pound, que entendia dos dois, e não esqueci. Está no ABC da Literatura? Onde? Descobri anos depois que a pepita não era de sua lavra, mas tradicional epitáfio italiano às nossas pobres tentativas de nos fazer entender em outras línguas e linguagens. Nós carcas manjamos dessa parada; a velha bota já foi terra de gente de todo canto, núbios, vikings, sumérios, persas, celtas, conquistadores e conquistados. Tutti buona gente... E ainda assim persiste a pergunta preguiçosa: mas é fiel ao original? Como se fosse essa a fogueira que o crítico deve atravessar quando julga uma adaptação. E agora somos todos críticos, dando nossos pitacos na internet sobre esse livro, aquele político, a roupa da moça da novela e a pertinência da construção de hidrelétricas na Amazônia, não é?
Tintim traz a assinatura bilionária do diretor Steven Spielberg e do produtor Peter Jackson, este famoso pela ortodoxia na adaptação de O Senhor dos Anéis. O novo filme leva à telona pela primeira vez outro objeto de culto, a idolatrada série de 24 álbuns em quadrinhos que fez a alegria de três gerações. Camisa pesa: é o mais famoso título da HQ em língua francesa.
O roteiro do filme mistura trechos e personagens de vários dos álbuns clássicos do personagem. Visualmente, não tem patavina a ver com o traço de seu roteirista e desenhista, o belga Hergé. Tintim é marco fundador
da ligne claire, a linha de nanquim sem volume, homogênea, elegante, estilo extremamente influente no quadrinho franco-belga e em todo lugar.
O filme é animação por computador, baseada na captura de movimentos de atores em carne e osso, e com versão em 3D. Já passou dos trezentos milhões de dólares de bilheteria e vai longe. Ignorantes relembram de má-fé o conservadorismo do belga George Remi, o homem por trás do pseudônimo Hergé. Destacam seu preconceito com pardos e terceiro-mundistas, seu eurocentrismo, sua fraqueza frente ao fascismo.
Hergé nasceu em 1907 e criou Tintim em 29. Era homem de sua época, e tão imperfeito quanto nós - surpresa! Queriam o quê, que fosse multiculturalista, politicamente correto, e inserisse um romance gay entre nosso herói e o Capitão Haddock? Cresçam.

Fãs fiéis de Tintim pelo mundo afora também esperneiam - como estes porcos capitalistas anglófonos puderam trair tão cruelmente minhas queridas memórias da infância? Se és desses, o único retruque possível é, de novo: cresça. Seus álbuns empoeirados continuam lá no teu armário, camarada, exatamente da maneira como você se lembra, se é que ainda os têm. A boa tradução tem o desafio de ser fiel ao espírito do original, não à forma ou as minúcias; cada novo intérprete adiciona ou subtrai ao original; dinheiro manda; é assim que é.
A constatação é lugar comum para quem cresceu lendo também outro tipo de herói de gibi, o americano, em que cada novo desenhista ou roteirista deixa sua própria marca no Flash, Homem-Aranha e companhia uniformizada.O Batman de Bill Finger é tão Batman quanto o de Denny O´Neil e Neal Adams, ou o de Grant Morrison e Frank Quitely; o da série cômica dos 60 tão válido quanto a grotesqueria de Tim Burton ou o tech-noir de Christopher Nolan. Não gostou de nenhum, faça seu próprio Batman; e se a dona dos direitos não deixar, muda ele de nome e faz mesmo assim. Meu filme favorito do Batman chama-se O Corvo.
Tintim, bem, eu adoraria ver os talentos de Peter Jackson e Steven Spielberg enfrentando o problema criativo de traduzir a linha clara para o cinema. Não encararam, covardões. Verei mesmo assim, com meu filho de oito anos. E forçarei ele a atravessar pelo menos um episódio do desenho de Tintim, que volta ao ar diariamente no canal Futura. Quem sabe essas versões estimulam o moleque a enfrentar o gibi? Bem que me daria um prazerzinho ver o garoto atrás daquelas capas duras, mergulhado nos infinitos detalhes das incríveis, ultrapassadas e colonialistas aventuras de Tintim. O problema é que mostrei uma vez um álbum de Tintim para o moleque e ele não deu a menor bola. Gibi 2D de cinquenta anos atrás não tem bala para enfrentar Mario na terra do 3D; cada época tem seus Disneys, Kirbys e Hergés, e hoje a maioria deles trabalha na indústria dos videogames, não na dos quadrinhos.
Todos os romances são sequências, diz Michael Chabon; influência é êxtase.
Vi ontem O Espião que Sabia Demais. É uma adaptação solene do celebrado romance de espionagem. Interpretações sólidas, roteiro tosco à gastura. Mas passa com louvor pelo desafio de ser fiel à morna melancolia de John Le Carré. Agora toca rever a versão anterior, Alec Guinness, 1979; e dar uma folheada na minha edição do Círculo do Livro, o final era bem diferente, não? E onde está minha biografia de Kim Philby, líder dos Cambridge Five, inspiração real do traidor ficcional de O Espião Que Sabia Demais? Infinitas traduções, infinitas traições.

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