no cell phone sign Por que nunca atendo o celular

"Bora beber na vespera do feri? Liguei, mas celula ta desligado, claaaaaro!"

Puxão de orelhas merecido. Mais um de muitos, passados e futuros. Só fui ler dia seguinte, no email. Raridade, que em feriado jamais checo email.

Perdi boa chance de tomar uns tragos com amigo velho. Pena: depois de uma certa idade não se faz mais amigos velhos. Bem, é o preço da paz de espírito. Pago com gosto.

Os amigos e colegas já sabem: a chance de meu celular estar desligado é igual à de estar ligado. A chance de eu retornar uma mensagem deixada no celular é ínfima. Quer garantia de me achar, é por email, e mesmo assim até umas nove da noite. Saí do trabalho, só amanhã. Cada um com suas técnicas de gerenciamento do tempo. Eu com a minha: sumi.

Por que isso, porque não quero ir beber com os amigos ou fofocar com desconhecidos no Facebook? Não, é por causa do trabalho, que é muito, para um vagabundo convicto, se não prático, como eu.

Muita gente sofre, estressada, ansiedade a mil com os tantos estímulos da tal vida contemporânea, com a internet, as redes sociais e tal. Tanto as exigências do trabalho, como as da diversão. Eu não. Também não criei uma fórmula mágica que funciona para todos. Simplesmente desligo os aparelhos e tento dar conta da função toda. Quando saio do trabalho, é como se desligassem a internet do planeta. Atendo o número fixo de casa, que pouquíssima gente tem. Não tenho tablet, Flickr, Tumblr, não posto foto, não baixo nada. Quero menos input, não mais.

Quase ninguém pode se dar ao luxo de fazer como eu. Para começar, quem trabalha para empresas grandes tem que estar disponível o tempo todo, ou fazer de conta que está. Aí aumenta a pressão para "descansar" nas horas livres. Por isso, teóricos andam defendendo que o luxo máximo no século 21 é tirar férias off the grid - fora da megamatriz de tecnologia de informação e comunicação que nos cerca. Tem livro sobre isso, hotel que oferece isso, consultor vendendo esse peixe pra corporações.

Fácil falar. Tenho um amigo jornalista que foi passar uma semana numa pousada divina de frente para o mar na Praia do Forte e não conseguiu dormir uma noite, por causa do sossego e silêncio. Se você é daqueles que não acredita que está vivo se não postar no mesmo minuto sua experiência no Foursquare, no Flickr, Tumblr e não sei o quê, passar uma semana em um hotel off the grid vai ser causa de angústia, e não motivo de felicidade.

Embora eu tenha virado especialista em escapar das distrações e obrigações virtuais, na verdade ainda lido com elas bem melhor do que com as reais. Hoje de manhã, em casa, tive que lidar com eletricista, Eletropaulo, o funcionário do seguro que veio botar uma lona no forro que está vazando, a gerente do banco, meu filho que está nos últimos dias de férias, a mãe do amigo onde ele foi passar o dia, os livros dele que não estarão entregues no primeiro dia de aula, burocras variadas, oito emails escritos ou respondidos e 32 outros lidos, olhei Twitter, Facebook, li umas várias coisas e ainda escrevi isso aqui e mais um pouco. Tudo isso antes do almoço e antes de começar minha jornada oficial de trabalho. Ufa!

Pelo menos nessa função toda descobri um sistema de gerenciamento de tempo que parece perfeito para mim. Coisa de um carcamano pazzo. Te conto amanhã. Hoje acabou o tempo!

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