Dos nove filmes indicados ao prêmio principal este ano, assisti um. É ruim. Meia-Noite em Paris é pior que ruim, na verdade, porque condescendente com a plateia e repleto de piscadinhas irônicas para pseudodescolados, pecado mortal para um Woody Allen no bico do corvo. Masturbar o público, tudo bem - cinema é negócio, Hollywood vive disso, e Allen sempre foi antes de tudo um entertainer. Mas tudo tem limite, ou deveria.
Meia-Noite em Paris é o pior de dois mundos, porque um ´típico Woody Allen, só que feito para pagar as contas, e, portanto, nem peixe nem carne. A esta altura, Allen já deveria ter aprendido a fórmula mágica da independência no cinema: um filme para mim, um filme para o estúdio, e todos entregues abaixo do orçamento. Foi assim que Clint Eastwood, em princípio só mais um brucutu careteiro, construiu sua autonomia e aura de autor.
Meia-Noite em Paris não é assumidamente comercial nem corajosamente autoral. É o que se chamava antigamente de middle-brow, entretenimento para babaquaras arrotarem peru. Owen Wilson faz o típico papel de Woody Allen, o intelectual neurótico e zonzo, mas pegador, em conflito entre a vida prática e suas aspirações à relevância.
É um escritor fracassado que não consegue se acomodar no papel de roteirista bem-sucedido em Hollywood. Em Paris com a noiva e sua família, começa a dar escapadas noturnas, em que magicamente viaja no tempo para o período que idealiza, a Paris dos anos 20, pátria de legendários expatriados, de saraus surrealistas, do festerê sem fim.
Wilson tem duas grandes diferenças de Woody: é apresentável e parece estúpido. Sua interpretação sugere um hot dog em coma, ou, se fores um espectador imaginativo, uma improvável e extremamente sofisticada caricatura de americano baba-ovo. É representativa do filme como um todo: é tudo sub-Woody Allen.
Paris é uma sequência de cartões postais, a noivinha é yuppie de anedota, seus pais são republicanos quadradões, Marion Cotillard é coquete de anúncio de champagne, os diálogos regurgitam Annie Hall e Manhattan etc. Onde está o cineasta que nos fala às partes altas e baixas, que, velhinho, ainda era capaz de uma arapuca como Match Point e uma suruba como Vicki Cristina Barcelona?
Vi em DVD em um sábado à noite. Daria pra relevar; é só um filminho, e abençoadamente curto. Até entendo os amigos que, generosos, curtiram o filme, porque adequado pra assistir com a namorada e jantar depois.
Infelizmente, admiro Allen, e já li mais livros que o razoável sobre o período e seus personagens, que não eram personagens, eram gente de verdade. Os passeios de Wilson pela Paris dos anos 20 são um chute nas partes. Hei, ligue-os-pontos e conheça toda a vanguarda modernex! Leia mais aqui.
Olha, Gertrude Stein! Dali! Hemingway! Zelda Fitzgerald! Cada um, uma caricaturinha com uma frase de efeito. Quando o zumbilóide Wilson sugere um roteiro para Buñuel, eu quase taquei o chinelo na TV.
Expectativa é promessa, e Allen fez pior que não entregar o que prometeu. Eu aguardava salivando pelo menos um fillet au poivre avec pommes frites, o picareta maquiavélico me enfiou goela abaixo um Big Mac com mostarda dijon. A prova um é a bilheteria, sua melhor nos Estados Unidos em muitos anos, US$ 56 milhões, US$ 148 milhões no mundo.
A prova dois, e definitiva, são as indicações a melhor filme, diretor, roteiro e direção de arte. Mas reconheço que não é nem de longe o pior filme do ano. O pior filme de 2011 é A Árvore da Vida.
Pelo menos os primeiros vinte minutos, que foi o que eu consegui assistir. Perto da idiotice galática desta bomba inominável, Meia-Noite em Paris é uma festa.
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