Publicado em 18/09/2012 às 09:07

Por que Russomanno é o novo e Haddad não


Vi metade do debate entre os candidatos a prefeito de São Paulo. Que gente desagradável, que conversa mole. E que previsível reparar que de todos os presentes, o mais balbuciante e menos convincente era Fernando Haddad. Perdeu para Levy Fidelix. Isso que dá botar um cara que nunca concorreu a nada para brigar pela prefeitura de uma das maiores cidades do mundo. Parabéns.

E Russomanno? Bem, o historiador Boris Fausto puxou o fio da meada, em entrevista ao Estadão: o paulistano não quer mais um prefeito tocador de obras, que faça a cidade crescer. Quer é um prefeito que faça a cidade funcionar. Boris, 80 anos, morador do Butantã, defende um projeto intergeracional para a cidade, acima dos mandatos. Manja mais que analistas de política, marketeiros eleitorais, ranzinzas do Facebook, e eu. A íntegra da entrevista dele está aqui.

Esta é a principal explicação para a irresistível ascensão de Celso Russomanno, que levou décadas construindo sua reputação como defensor dos direitos do consumidor. O paulistano paga, em grana e stress e saúde, por serviços que não recebe. Para a cidade ter água, esgoto, polícia, hospital, transporte, ar respirável. Quer algo em troca. Quer o que foi combinado.

Russomanno está há séculos fazendo esse papel. É homem de rádio e TV. Sabe que o que interessa é Ibope, e sabe como se conquista audiência. Tem consciência que não é o tempo do horário político que vence eleição. Que eleitor não está nem aí com partidos e, aliás, desconfia deles todos. Que o apoio de caciques não faz milagres (o PT apanha em quase todas as capitais do norte-nordeste, eterno reduto eleitoral de Lula...).

Russomanno é pós-democrático. Por isso é o novo, e não Haddad. Novo não é o que eu digo, ou você diz, que é novo. O novo é o que o eleitor paulistano entende que é novo. E ao mesmo tempo, Russomanno é herdeiro de uma tradição da cidade. Não, não é o malufismo. É o janismo, sugere Boris. Eureca.

Claro que Russomanno se beneficia de não ter opositor à altura. O problema fundamental de Haddad é que ele não entrega o que promete. Há uma dessincronia entre a forma e o conteúdo. Toda a campanha de Haddad malha sem parar que ele é o Novo. Até o site dele se chama pensenovo.pt. Mas não há nada de novo no que ele fala ou no que ele é. Não há nada de novo em quem o apoia. É mais do mesmo.

Haddad propõe mais escola, creche, centro de saúde, bilhete único, isso e aquilo. Tudo importante? Claro. Mas é o que todos falam. São soluções incrementais para uma megalópole global, eternamente à beira da explosão. E frustrantes para um novo grupo de eleitores empoderados, que querem o seu já.

Russomanno promete: você me conhece, vou lá buscar o seu direito e resolver essa parada.  Haddad, que ninguém conhece, para soar novo teria que gritar mais alto: vou fazer quarenta anos em quatro, vou botar São Paulo no primeiro mundo, vou fazer uma revolução na sua vida, paulistano. Mas só requenta a lenga de sempre.

E não tem moral para acusar Russomanno de direitista, visto que tem um bando de reaças ao seu lado. Nem de malufista, visto que Maluf apoia Haddad. Nem de fundamentalista, quando ele mesmo (como todos os outros) corteja líderes religiosos, rezando para o diabo e para a Virgem Santíssima, como cutuca Boris Fausto. Quanto ao partido, bem, o PRB foi bom o suficiente para o beatificado José Alencar. De repente é ruim?

E você vai votar em quem, André? Em ninguém. Eu não voto, por princípio e preguiça. Sou cobrado: nem para deter Serra e Russomanno? Bem, não. Um amigo inteligente diz que votará em Haddad, porque é, como ele diz, moçada, significando um de nós. Parece mesmo. É da nossa geração, estudou direito com o meu primo, foi levado ao PT pelo camarada Eugênio Bucci, tenho uma grande amiga na sua campanha.

Mas Haddad tem 11 anos de vida pública, dos quais seis e meio no Ministério da Educação, e o que tem para mostrar são os bilhões transferidos às escolas particulares via ProUni, e a evolução da educação pública de catastrófica para péssima. Não é da minha turma, não.

Ler a entrevista do professor me fez encontrar a embocadura do que eu estava pensando e queria dizer. Porque ela vai ao cerne da questão. Em um mundo em que o valor máximo é consumir, não somos cidadãos, somos só consumidores. Votamos com a carteira e nada mais. Meu direito é o que está escrito na garantia; política é garantir o cumprimento dos contratos; e fim.

O cidadão é automaticamente membro de uma comunidade. Comunidades pressupõem negociação, pressão e contrapressão, trocas, regras. Já o consumidor é um indivíduo. Está pagando, pô! E o novo consumidor brasileiro, que não é classe média coisíssima nenhuma, mas o trabalhador com um dinheirinho no bolso, quer ser tratado como indivíduo - finalmente. É uma conquista. Não é pouco. Não é tudo.

Muito se fala sobre essa e aquela razão por que Russomanno está na frente em São Paulo - direita, esquerda, religião, mensalão e tal.

Boris Fausto explicou, e eu finalmente entendi: Russomanno é o SAC de paletó.

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