R7.com

E-mail @R7
R7 E-mail
Usuário @R7.com
Senha
  • Facebook
  • Twitter
  • Orkut
  • Pinterest
  • Instagram
  • You Tube
  • RSS
  • Youops
Publicado em 24/01/2013 às 16:00

São Paulo: daqui ninguém me tira

foto 11 São Paulo: daqui ninguém me tira

Nasci em Ribeirão Preto, me criei em Piracicaba, vivo em São Paulo desde 1983. Escolhi, escolho todos os dias, viver aqui. É onde está a ação, os amigos e o amor. A cidade foi boa para mim. Em 1999, retribuí por escrito, na revista Caros Amigos. Hoje é um bom dia para revisar e lembrar...

Toda grande cidade merece um portal, um ícone, uma mensagem subliminar do que espera o imigrante e o filho que à casa torna. Uma estátua da Liberdade, a Torre Eiffel, a Basílica de São Pedro. Em São Paulo é a Marginal. As duas – na minha cabeça, uma. Como São Paulo, não acaba nunca. Estão ali torres futuristas e favelão, engarrafamento e outdoors, garças, ratos, vendedores de coca-cola, caminhão, conversível, lixão e luxúria.

Sempre que chego guiando de fora e caio na Marginal lembro porque decidi viver aqui. Porque só prestei vestibular para estudar aqui e como queria, como sonhava morar em São Paulo!

São Paulo é a minha casa. Em 1999 são 17 anos que moro aqui – muito mais que minha vida em Piracicaba, onde fui criado. Volto pra lá e não entendo nada, não reconheço os quarteirões que explorava passo a passo, as fronteiras que corajosamente atravessei. Lembro de pela primeira vez atravessar a avenida proibida que me separava do Santo Graal dos meus oito anos, a banca da rodoviária…

Sou caipira e sempre serei. Até hoje solto “os cara são legal”. Mas sou paulistano também. Todo mundo nessa cidade é mesmo caipira, nortista, imigrante. Se não é, foi seu pai ou seu avô.

E viver em São Paulo bota esse negócio de ser caipira ou cosmopolita no seu devido lugar. Depois de viver em SP, que lugar mete medo? A capital do planeta, Nova York? Adoro – uma cidadezinha charmosa, segura, aconchegante e jeitosa de andar a pé.

Ninguém duvida que São Paulo é um lugar infernal, injusto e incompreensível. Sua área urbana é um país de quase 18 milhões de pessoas, dos quais pelo menos metade vive em uma merda de dar gosto. Para cada concessionária de importados tem um Capão Redondo.

A cidade não tem plano diretor, não tem explicação e, muita gente garante, não tem jeito. A última bizarria é a construção de uma das torres mais altas do mundo no centro velho.

É obviamente injusto expulsar o morador durango do centro para revitalizar (e encarecer) a área. Construir uma megatorre numa metrópole com tantos problemas, para quê? Para dar dinheiro a construtoras e políticos? Mas também não é absurdo abandonar o centro ao destino de cortição movido a crack?

Nenhuma solução é simples. E, mesmo assim, não entendo morar em outro lugar do país. Se bem que, como todo paulistano, também fantasio morar a um passo da areia, a 20 metros do mar – algum dia.

Posso mudar de opinião. O Brasil fica mais parecido com São Paulo a cada dia. Percebi assistindo ao Vídeo Show. Um novo grupo de pagode mineiro tinha aulas de ginga e samba no pé numa academia, com uma professora de balé moderno.

Não dá pra ficar mais claro. Sai de cena o jeito moreno de ser, entra a profissionalização custe o que custar. Está se escafedendo a fantasia do Brasil malemolente, “espontâneo”, das conexões da sociedade sem classes nem preconceitos.

Agora a ideologia é outra: ganha quem estiver melhor preparado (conectado, capitalizado, armado) para fazer a oportunidade render. É a meritocracia da padaria paulistana: preto, baiano ou gringo, quem tem competência e persistência se estabelece. Não é à toa que ACM só passou a mandar de verdade quando deixou de ser puro peixe da Globo para operar junto com a máfia tucana paulistana.

Como sempre, a cultura pop é o radar da transformação. O sucesso de sertanejos, pagodeiros, forrozeiros não é a armação das gravadoras, que ainda habitam o mesmo ambiente incestuoso e jabazeiro de festinhas descoladas. Pelo contrário. Tudo que executivo de gravadora não quer é ouvir sotaque caipira.

O que está acontecendo é a aplicação de valores administrativos modernos ao velho “charme e veneno” brasileiros. Jorge Benjor abriu as festividades quando foi ressuscitado por um jingle de agência de publicidade. O case da hora é a Tiazinha: uma gostosa (como tantas) vira de uma vez capa campeã da Playboy, super-heroína de televisão, hit das paradas e fenômeno de licenciamento.

Ou, como notou meu camarada Pereira, a nova loira do Tchan é loira por talento marqueteiro de Beto Jamaica e Compadre Washington. Pontaria certeira: só no maior mercado de discos, o Estado de São Paulo, se diz “loira” e não “loura”.

Você pode questionar a originalidade da Banda Eva e pode duvidar de que a receita de sucesso acima seja útil pro favelado escapar da enchente. Mas você não pode negar a força de São Paulo nem seu novo papel na maneira como o brasileiro entende seu país.

Embora daqui pra baixo a ética profissa seja igualmente forte, os sulistas perdem ponto na variedade. É quase tudo branco imigrante (e no Paraná, japonês também). Fazem falta a convivência e o conflito de taxista carcamano, executiva mulata, playboy paraíba, tira libanês e feirante coreano.

E onde estão eles? Na padaria, de terno e de havaiana, lugar do papo, da birita, dos negócios, da paquera e do moleque esmolando um sanduba – tudo rolando de pé que estou numa puta correria, velho.

Na vitrine quentinha tem esfiha com pizza, coxinha versus cheese-salada, pão de queijo, pão sírio e ciabatta. Peço antes uma meia cerveja pra tomar de barranco e garanto pro santo: dessa cidade do diabo não saio, daqui ninguém me tira.

Veja mais:
+ R7 BANDA LARGA: provedor grátis!

+ Curta o R7 no Facebook

+ Siga o R7 no Twitter

+ Veja os destaques do dia

+ Todos os blogs do R7

Ir para o Topo