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Publicado em 26/02/2013 às 11:19

O precioso silêncio de David Bowie

bowie blog O precioso silêncio de David Bowie

David Bowie não lança um disco há dez anos. Não lança um que preste há trinta. Desde 1983: Let's Dance. Mas entre 1970 e 1983 escreveu e gravou 12 álbuns irrepreensíveis. Ninguém na história do rock fez igual. São clássicos, na mais precisa definição. Não porque fizeram sucesso que nos enternece a memória, ou porque viraram parte da paisagem. E sim por que resistem a novas audições e interpretações e por que mudaram o que veio depois.

Bowie sempre foi mais que sua música. Suas roupas, atitudes, afetações, colaboradores e entrevistas sempre contaram tanto - frequentemente mais - que suas canções. É tudo indissociável, é tudo parte da obra. Nunca foi o melhor melodista, letrista, instrumentista ou cantor. Mas ninguém foi tão popstar e tão rockstar ao mesmo tempo; tão rudimentar e ambicioso e apelativo e transgressor. É muito difícil ser simples e sofisticado simultaneamente... E mesmo quando sua música murchou, Bowie continuou tendo o que dizer.

Aos 40 anos, explicava que fazia rock para pessoas de sua geração, porque a garotada queria música eletrônica, e não rock, e isso era bom. Era 1987. Sua contribuição já tinha terminado. O silêncio de Bowie na última década vai além de não produzir; ele deixou de falar com a imprensa e fazer shows. David teve um ataque do coração em 2004 (é isso que dá fumar). Nada como uma angioplastia para forçar revisão das suas prioridades. Se recolheu.

Parou de gravar, tocar e se comunicar. Não precisa trabalhar. É rico. Tem um filho adulto, diretor de cinema talentoso, Duncan, uma filhinha que esconde dos paparazzi, Alexandria, 12, e uma mulher linda e companheira, Iman. Vive entre Nova York e Londres. Não precisa fazer turnês caça-níqueis reempacotando velhos sucessos para velhos fãs. Fez mais que a maioria de nós e merece a aposentadoria de luxo.

Mas seu silêncio incomodou. Nesta era em que todos falam sem parar, e um quer falar mais alto que o outro, e todos gritam aos ventos suas mínimas e míseras conquistas, David Bowie calar é incompreensível. Nos provoca e ofende. Que conforto, então, que Bowie mostre a cara agora. Mas que desperdício que o faça sem espalhafato! Cadê as entrevistas na TV? O David Letterman? A tour mundial? O dueto com Lady Gaga? O show no Rock in Rio?

Bowie quebrou o silêncio e mantém a caluda. Gravou na surdina e lança, com videoclipes, o álbum The Next Day. Continua não dando entrevistas. Ungiu o produtor e camarada de milênios, Tony Visconti, para falar sobre o disco. Que a música fale por si, é a mensagem principal. Críticos correm para ouvir o álbum e dar seu veredito. Não eu. Vi a primeira, Where Are We Now?, minúscula. Entrou nos top ten da Inglaterra. Silêncio cria lendas. Vi a segunda, The Stars (Are Out Tonight). Não faz feio, mas nada especial ou urgente. O vídeo é cínico-mitômano. Resiste a uma visualização.

Nos últimos meses, novas audições me levaram a novas descobertas em Low, seu disco de 1977. Bowie continua a me interessar e muito. Seus três álbuns entre 1999 e 2003 são os mais fracos de sua carreira. Para que tanta sede por nova música? Alguém imagina que vai nos encantar ou surpreender? Talvez não seja esta a razão da ansiedade pelo disco, nem da generosidade da recepção a ele. É impossível que The Next Day tenha a densidade de informação, sensibilidade e argúcia de seus álbuns clássicos. Bowie tem 66 anos. Roqueiros não melhoram com o tempo, e mais: são prisioneiros do seu tempo.

O álbum pode ter seus momentos de brilho, talvez cegantes, no contexto do rock atual, auto-referente, ensimesmado e publicitário. Mas Bowie ficará pelo que fez entre 70 e 83 e o resto não tem importância. A não ser para ele. Festejo The Next Day pelo bem que deve lhe fazer. E talvez seja por isso que queremos tanto ouvir e gostar de seu novo disco. Porque queremos seu bem, pelo bem que nos fez e faz.

Mas é mais precioso seu silêncio: antídoto poderoso à glossolalia que nos embevece e bestifica. Bowie não teve pressa para lançar The Next Day. Eu não terei pressa para ouvir.

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