Publicado em 31/10/2013 às 12:24

A guerra pela internet esquenta: Marco Civil, NSA, e muitas perguntas sobre o futuro do Brasil na rede

edward snowden A guerra pela internet esquenta: Marco Civil, NSA, e muitas perguntas sobre o futuro do Brasil na rede

É o assunto do momento, é a guerra do século: quem controlará a informação da humanidade? O assunto quente: o governo americano espiona milhões de pessoas do mundo, inclusive os chefes de estado de países aliados, com a colaboração das gigantes da internet que fazem parte da vida de todos nós: Facebook, Google, Microsoft. A guerra fria: o controle sobre os nossos dados é a nova geopolítica. Este é o segundo texto que escrevo sobre o tema, se você pode chamar isso de texto. É mais um relatório para mim mesmo, que compartilho.

O primeiro texto tinha mais cara de pensata. Tem um link para ele, no final deste post.

Essa semana no Brasil: votação do Marco Civil da Internet. O que é? Perguntei para o Comitê Gestor da Internet. A resposta:

“Marco Civil da Internet é uma cartilha de princípios, baseados na liberdade de expressão, inimputabilidade (não culpa) da rede, privacidade e neutralidade (acesso igual) da Internet. Funciona mais ou menos como se fosse uma “Constituição da Internet”. Não tem a força de uma lei, uma vez que o Marco ressalta a importância para que os crimes sejam julgados pela legislação vigente hoje. Seu objetivo é proteger a internet como ela existe atualmente, aberta e livre, facilitando o combate às eventuais irregularidades.”

O tema mais polêmico na proposta é a Neutralidade da Rede. As empresas de telefonia querem ter liberdade para cobrar mais dos usuários que usam mais. Aqui tem uma boa explicação do que é a Neutralidade da Rede, ouvindo os vários lados, incluindo entrevista com o deputado Alessandro Molon, autor do projeto do Marco Civil.

OK: o que é o Comitê Gestor da Internet? Quais suas atribuições? Quem são seus integrantes? Como o CGI é financiado?

“O Comitê Gestor da Internet no Brasil é a entidade responsável por estabelecer estratégias para o desenvolvimento da rede no país. É formado por representantes do governo, do terceiro setor, do setor privado e de organizações sociais. São 21 membros que compõem o comitê, sendo 12 da sociedade civil e 9 do governo. Representações das operadoras de telefonia, responsáveis pelo acesso, estão no órgão. O braço operacional do CGI.br é o NIC.br, presidido pelo Demi Getschko, que executa as resoluções do comitê. Há um coordenador da entidade, Virgílio Almeida, que é Secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.”

Este vídeo ajuda a explicar melhor sobre o CGI.br

Ou seja: muito do que a internet brasileira é, e do que será a ser, e das muitas mudanças que está sofrendo e sofrerá no futuro, passam de alguma maneira pelo CGI, pelo NIC.br e por Demi Getschco. Que tem de ser ouvido.

maxresdefault A guerra pela internet esquenta: Marco Civil, NSA, e muitas perguntas sobre o futuro do Brasil na rede

Demi Getschko

Mas antes vamos recapitular:

- Edward Snowden, ex-técnico do NSA, foge dos EUA e abre o bico sobre tudo que a agência norte-americana de espionagem apronta. Novas revelações pingam a cada dia. A primeira que fez barulho: os EUA grampearam celular e email de Dilma Roussef, e outros bacanas do governo brasileiro, incluindo altos executivos da Petrobras.

- Segundo o jornal britânico The Guardian, 35 líderes mundiais eram monitorados pelo NSA em 2006 - não se sabe quantos ainda são hoje. Muitos são aliados muito próximos. Grampearam o celular da chanceler alemã Angela Merkel. Interceptaram conversas de oito dos quinze governos de países que têm assento no Conselho de Segurança da ONU. 70 milhões de telefonemas na França foram interceptados. Ontem mesmo: o NSA grampeou milhões de telefonemas na Espanha. Muito mais virá.

- Quem não é grampeado? Os EUA têm um acordo com outros países anglófonos, Reino Unido, Nova Zelândia, Austrália, Canadá. Compartilhou informações com estes países? Em que nível? Não sabemos.

- Que pessoas e/ou empresas tiveram acesso a estas informações? Não sabemos.

- Obama sabia? A Casa Branca não detalha. Se sabia traiu a confiança de seus pares. Se não sabia, não governa. O governo americano só diz: todo mundo espia todo mundo, estamos revisando os parâmetros de nossas atividades, e vai demorar ainda um tempo.

- A Quarta Emenda da Constituição americana proíbe investigações sem justificativa legal. Só vale para cidadãos americanos.

- O tema repercute nas manchetes mundo afora. Cai na boca do povo. É tema da massa, mas só fora dos EUA. Lá começa a ficar pop agora. Semana passada teve marcha pela privacidade em Washington. A coalizão Stop Watching Us (Pare de nos espionar) reúne mais de cem organizações e empresas de todas as tendências políticas. Uma ONG, a Moveon.org, divulgou vídeo com famosos, políticos e ex-funcionários do NSA denunciando as atividades de espionagem do governo americano.

- Snowden se refugia na Rússia. Os EUA querem repatriá-lo, para julgamento e prisão. Bradley Manning, o soldado que passou as informações que deram origem ao Wikileads, cumpre pena de 35 anos. Snowden não volta nunca mais.

- Snowden é a principal fonte de Glenn Greenwald, jornalista americano baseado no Rio de Janeiro, que vinha publicando principalmente no jornal britânico Guardian. E vem alimentando o Fantástico na cobertura do tema, e já sugeriu que o Brasil deveria oferecer asilo a Snowden.

- Greenwald acaba de anunciar que vai liderar uma nova organização jornalística independente, financiada pelo bilionário Pierre Omidyar, 123º homem mais rico do mundo, fundador do site ebay.

o GLENN GREENWALD facebook A guerra pela internet esquenta: Marco Civil, NSA, e muitas perguntas sobre o futuro do Brasil na rede

Glenn Greenwald

- A revelação levou Dilma a cancelar viagem para os EUA. Marketing eleitoral, mas o Brasil já vinha trilhando um caminho de maior autonomia para sua internet há anos, em processo liderado pelo Comitê Gestor da Internet. Isso se aprofunda a partir desta semana, com a votação do Marco Civil da Internet. O projeto de lei detalha as bases sobre as quais se construirá a internet brasileira do futuro.

- Inclusão polêmica de última hora no Marco Civil: a necessidade de empresas nacionais e estrangeiras manterem os dados de seus usuários em servidores localizados no Brasil. Gringos berram contra. Usuários iriam chorar; boa parte da internet deixaria de ser útil para o brasileiro, e principalmente os serviços mais novos. Seria reserva de mercado para as empresas de hospedagem locais, que são caríssimas comparadas com as de fora.

- E: que adianta os dados dos usuários brasileiros estarem em servidores localizados no Brasil, se a) os servidores são fabricados fora, com tecnologia gringa, rodando softwares gringos e b) o Brasil não tem expertise em criptografia, a técnica de embaralhar os dados para que ninguém entenda nada se não tiver a chave do código?

- Adianta para uma única coisa: se os dados estão no Brasil, estão sob jurisdição brasileira.

- Reuters: Dilma pressiona para que  informação seja hospedada em servidores no Brasil, mas custo pode aumentar até 100% 

- Mas isso é só o começo. Dilma chamou para abril de 2014 um encontro no Brasil para discutir governança na internet. Tá longe. Até lá muito, muito mais vai acontecer. O novo embaixador brasileiro na ONU, Antonio Patriota, disse que o Brasil vai apresentar um projeto de direito à privacidade global.

- O quanto é jogo de cena da presidente? Muito. Se quisesse encrencar de fato com os americanos, bastaria fazer duas coisas: oferecer asilo a Edward Snowden, e aumentar radicalmente os impostos pagos pelas gigantes da internet. O Google, hoje, é o segundo maior faturamento de mídia do Brasil, após as organizações Globo. Viajando na maionese, poderia entrar com uma ação indenizatória bilionária contra o NSA, alegando espionagem industrial.

- Paralelamente aos discursos, o Brasil vem mudando sua estratégia de inserção na rede global. E falando grosso.

- O governo anunciou há pouco a criação de dois serviços nacionais de e-mail. Um criptografado, que será usado no governo. E um para o público

- O governo brasileiro diz que vai investir em empresas iniciantes na área de defesa e cybersegurança

Evidentemente não se trata só de espionagem e privacidade. Estamos falando de muito dinheiro. O Brasil será o líder mundial do crescimento no mercado de mídia entre 2013 e 2017, segundo estudo da PriceWaterhouseCooper. Tudo vai crescer muito além da média global. Publicidade na Internet em primeiríssimo lugar: 18% ao ano (e acesso à internet em segundo, e videogames em terceiro). E, bem, quanto vale toda a informação e comunicação do planeta?

Algumas das perguntas mais importantes:

- porque o Brasil está investindo uma grana pesada em infra-estrutura de tráfego de dados?

- o Brasil vem investindo em um cabo submarino que nos conecte à Europa, para que uma parte importante do nosso tráfego na internet não passe pelos EUA. Para quê?

- A China proíbe a entrada de Google, Facebook e outras grandes empresas americanas de internet, e estimulou a criação de empresas chinesas que fazem o equivalente. A Rússia fez parecido. Isso é um caminho para o Brasil?

- Existe um plano da Telebras para colocar em órbita três satélites brasileiros de comunicação entre 2016 e 2026. Hoje não temos nenhum. Quais as vantagens deste projeto para o Brasil?

- O Brasil deveria aprovar uma lei que force as grandes empresas internacionais a hospedarem os dados sobre brasileiros em servidores instalados no Brasil, e sujeitos à legislação brasileira? Por quê?

- As grandes empresas internacionais de internet pagam poucos impostos no Brasil? Qual deveria ser a taxação justa?

- O governo encomendou aos Correios que ofereçam um sistema gratuito de email para o Brasil. Pra quê? Já não existem muitos outros sistemas de email gratuito? Não vai ser mais uma dessas coisas como a TV Brasil?

- Muitos brasileiros estão trocando os emails por comunicações nas redes sociais, ou aplicativos - Facebook, Gtalk, Skype etc. É função do governo brasileiro criar alternativas estatais às redes sociais que os brasileiros usam?

- Uma proposta do governo é encorajar os provedores de internet que atuam no Brasil a utilizar equipamento fabricado e projetado no Brasil. O argumento é que equipamento estrangeiro poderia ter portas de acesso secretas, "backdoors", que permitiram o roubo de dados ou a espionagem. Isso faz sentido? Que empresas brasileiras tem equipamentos assim? O custo é semelhante ao dos equipamentos estrangeiros?

- Não corremos o risco do Brasil se isolar da internet global, ou ficar atrasado com relação a outros países?
O Brasil deveria aprovar uma lei que force as grandes empresas internacionais a hospedarem os dados sobre brasileiros em servidores instalados no Brasil, e sujeitos à legislação brasileira? Por quê?

- Finalmente, em um país que ainda tem problemas básicos de saneamento, saúde e educação, faz sentido investirmos tanto dinheiro na internet?

dilma pisei A guerra pela internet esquenta: Marco Civil, NSA, e muitas perguntas sobre o futuro do Brasil na rede

É um assunto que mistura economia, política, comportamento, cultura, jornalismo e tecnologia. Assunto para super especialistas, ou especialistas em generalidades, jornalistas - eu. Voltarei a escrever muitas vezes sobre esse assunto, com os títulos sempre começando por “A Guerra Pela Internet”.

O primeiro texto: A Guerra pela Internet começa agora (quando Dilma foi à ONU, 24/9/2013)

O próximo: uma entrevista com Demi Getschko, do Comitê Gestor da Internet.

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Publicado em 28/10/2013 às 14:51

Lou Reed colhe o que plantou

earlylou Lou Reed colhe o que plantou

Lou Reed cantava o prazer das drogas injetáveis em 1966. Morreu em 2013, fígado detonado. Viveu mais que o provável, pelo mal que fez a si mesmo. Talvez tenha vivido mais que moralmente aceitável, considerando os muitos que inspirou a fazer merda também.

Garoto judeu, bissexual e durango, aos 17 anos foi tratado com terapia de choque. O tratamento eletrificou seus pesadelos? Descobriu um caminho na arte de vanguarda, e na arte de vanguarda que qualquer um podia fazer, o rock. Não rock qualquer: rock além do limite do bem e do mal. Ninguém se esforçou tanto para encontrar no perigo, glamour - e um bom refrão. Para fazer barra pesada um ideal de vida, sedutor e inevitável. Esse era Lou, e essa era sua banda, o Velvet Underground, de que ele era o coração. Velvet, que na época poucos ouviram, e cada um que ouviu montou sua própria banda. Velvet que hoje poucos ouvem, porque organicamente integrado ao que entendemos como "rock" e "risco".

O Velvet inspirou 99% dos roqueiros posteriores que, como Lou, tinham algo a gritar - Bowie ou Sid Vicious, Patti Smith ou o Jesus & Mary Chain ou, bem, a lista jamais terá fim. Com o fim da banda, seguiu encrencando. Fez discos que eram só distorção de guitarra. Seus primeiros álbuns solo passeiam chapados pelo lado negro da força - vício, putaria, miséria, revolta. "Walk on the Wild Side", seu único hit, descreve a via crucis de jovens drogados e prostituídos que orbitavam a cena artística de Nova York.

Seu único bom disco mais alegrinho, Coney Island Baby, foi inspirado, segundo o jornalista Lester Bangs, por uma figura de "longo cabelo negro, barbada, grotesca, abjeta... como algo que poderia ter se arrastado implorando para dentro da casa, quando Lou abriu a porta pra pegar o jornal ou o leite, pela manhã." Era Rachel, ou Tommy, travesti e amante de Lou, que explicou: "Rachel não tinha o menor interesse em quem eu era ou o que eu fazia. Nada impressionava ela. Pouco tinha ouvido minha música, e quando ouviu também não deu a mínima".

lourachel Lou Reed colhe o que plantou

Mais sobre Lou e Rachel aqui.

Lou envelheceu sem amadurecer, nem fazer sucesso. Batia nos quarenta quando viu que os punks faturavam firme, vomitando o que ele fazia 15 anos antes. Se metamorfoseou em rocker machão e malhado. Tirou Rachel da biografia, virou garoto-propaganda de motocicleta, fez duetos com qualquer um, tocou para o papa, por Mandela, pela Anistia Internacional. Ressuscitou o Velvet para excursionar com o U2. Ganhou uma graninha e atestado de ícone no Rock'n'Roll Hall of Fame.

Vovô ranzinza, tornou-se figurinha fácil nos saraus vanguardistas de Nova York, casado com a também artista, tiazinha e inofensiva, Laurie Anderson.  O Lou de outros tempos ainda mostraria dentes afiados em dois discos: o jornalístico New York, em 1989, e o belo Songs for Drella, de 1990, sobre Andy Warhol, co-assinado com o parceiro no Velvet, John Cale. As últimas duas décadas, bem, que artista sobrevive pelos últimos anos de sua obra?

Lou merecia mais fama, mais dinheiro, um verbete maior nas enciclopédias do futuro? Merecia ter vivido mais que 71 anos? O melhor de Lou Reed permanecerá, doce e assustador como sangue na calçada: algumas canções, muitos herdeiros, e o disco de estreia do Velvet Underground, imortal, atemporal. Lou morreu cedo, não fará mais falta, e viverá para sempre. Recebe tanta justiça quanto podemos aspirar: colheu o que plantou.

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Publicado em 25/10/2013 às 19:23

Reinaldo Azevedo na Folha: apagando fogo com gasolina

reinaldo Reinaldo Azevedo na Folha: apagando fogo com gasolina

Reinaldo Azevedo espuma de raiva dia e noite. Era menos agressivo quando colunista da Veja. Quando passou a blogueiro, com oportunidade de interagir diretamente com seus muitos fãs e desafetos, aposentou a focinheira. Faz muito sucesso, o que irrita muita gente. Nunca vi razão para tanta bronca contra Reinaldo. Ele defende o que defende. Também nunca vi razão para ler seu blog. Já sei o que ele ataca.

Mas li sua coluna de hoje na Folha, na internet. O que me levou a visitar seu blog e ler uns trinta textos. Vários são bem engraçados, quase todos são muito violentos. Me peguei concordando com Reinaldo em vários temas e discordando em outros tantos. Não voltarei. O volume é muito alto, sempre onze. E ele grita sempre a mesma coisa: abaixo o PT.

É perfeitamente defensável, e útil para a democracia, que tenhamos cães de guarda das tradições de um país - conservadores, vamos chamá-los assim. E fundamental que tenhamos jornalistas que se disponham a morder as canelas dos poderosos. Mas Reinaldo jamais critica banqueiros, empresários, ruralistas, grandes empresas de comunicação, ou o alto tucanato. E vive no pé de ambientalistas, feministas, blogueiros, manifestantes, grevistas e petistas, grandes ou pequenos.

Como Reinaldo Azevedo só bate em um lado, o que faz é propaganda eleitoral, não jornalismo. O mesmo vale para outros porta-vozes disfarçados de imprensa, dos dois lados do fla-flu. E é por isso que, além de seu blog na Veja, agora ele tem uma coluna na Folha de S. Paulo.

Foi contratado, junto com Demétrio Magnoli, para bater no PT. E inevitavelmente no candidato petista ao governo do estado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

A dupla Reinaldo-Demétrio presta-se perfeitamente para a missão. Um é histriônico, o outro é articulado. Um briga, outro elabora. Os dois são ligados ao Instituto Millenium, entidade organizada por banqueiros e grandes empresários, inclusive de comunicação, com o objetivo de combater o PT. A Folha, que diz buscar o equilíbrio nesta renovação do time de jornalistas, chamou também Ricardo Melo. Ricardo é crânio, língua afiada, apartidário: bate em gregos e troianos (e Reinaldo já arrumou treta com ele, no passado). Mas são dois do lado da propaganda, e um do lado do jornalismo.

Críticos se surpreendem com uma suposta guinada à direita da Folha. É falta de perspectiva histórica. Lembro quando a Folha chamou José Sarney para colunista, logo que o gângster deixou a presidência, o país em frangalhos, Collor no poder. Perto de Sarney, que aliás agora é Lula desde criancinha, Reinaldo Azevedo é uma flor, ninguém há de negar. O jornal sempre deu uma no cravo e outra na ferradura. Veja o espaço que têm Jânio de Freitas e Clóvis Rossi, e o tanto de podridão que o jornal revelou de administrações do PSDB. A Folha não é imparcial, como nenhum veículo é. Também não é irresponsável.

Dilma está reeleita. O grande objetivo do PT em 2014 é roubar dos tucanos o segundo orçamento da união, quase 40% da economia brasileira.

O PSDB sem o governo de São Paulo perde a espinha. No cenário dos sonhos de Lula, que ungiu Padilha candidato, o PT governará sem oposição. Falta combinar com as ruas, que segundo Reinaldo na sua coluna na Folha, é "ente divinizado por covardes". Não vejo o divino em nada, nem vejo grandes diferenças entre PT e PSDB. Mas enxergo o seguinte: uma parte grande do que foi rejeitado nas manifestações de junho foi esse jeito raivoso de Azevedo e suas contrapartidas governistas verem o mundo, assim como essa polarização partidária fundamentalista e paralisante.

Não leio essa gente e recomendo que ninguém leia. A rapaziada nas ruas queimava bandeiras de partidos. Reinaldo e companhia querem apagar o fogo com gasolina.

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Publicado em 24/10/2013 às 11:12

Sobre livrinhos, livrões, iPads e tubarões

foto Sobre livrinhos, livrões, iPads e tubarões

Douglas Adams: "um livro é como um tubarão"

Acostumo lentamente a ler em tablet e smartphone. Artigos, ensaios, não ficção. Para histórias inventadas, o papel continua tendo mais poder sobre mim. Com o tempo mudarei, quem sabe. Hoje, a tela e seus toques e possibilidades me distraem. Ficção requer imersão. E paixão.

Anos atrás comprei um Kindle, um dos primeiros. A ideia era sedutora: uma engenhoca em que eu poderia comprar livros gringos instantaneamente, gastando menos, e carregar todos comigo por aí. Comprei uns dez livros. Não acabei nenhum. A falta de massa, de presença física, facilitava que eu ignorasse aqueles milhões de letrinhas. Abandonei. Dei para alguém o Kindle. Hoje percebo que meu erro foi comprar ficção.

Mas continuo fã do Kindle, e clientão da Amazon. Comprei meu primeiro tablet há três meses, um iPad. Uso comedidamente, até porque meu filho tende a monopolizar o bicho, tagarelando via Skype com os amigos enquanto assiste ao YouTuber do momento. Recentemente descobri um aplicativo chamado Send to Kindle. É mais que uma mão na roda, é uma nova maneira de devorar conteúdo da web. Você baixa e instala no seu browser. Fica um botãozinho com o K de Kindle lá. Quando você está em uma página qualquer da web, e tromba com aquele artigão comprido que você quer ler, mas não tem tempo agora, ou está com preguiça, é só clicar no botão do Send to Kindle.

Plim! O artigo é enviado para o seu tablet, e salvo em formato de texto limpinho, sem banners, pop-ups, links e tal. Tá lá pra sempre, na sua biblioteca. Naturalmente, você precisa ter um Kindle, ou um tablet qualquer. E baixar o aplicativo Kindle para o seu tablet Apple, Android ou Windows. Agora leio meu Guardian de cada dia no celular, no metrô e ônibus. Coisa simples que enriquece a vida.

O que não me pega de jeito nenhum em tablet é gibi. A tela é pequena e mostra uma página por vez. Depois de 42 anos vendo ao mesmo tempo duas páginas, com desenhos em formato grande, e letras em tamanho legível, não tenho a menor vontade de mudar. E como ando especialmente seletivo com gibi (por quê? Não sei), a torrente de lançamentos semanais não me seduz.

Esses dias estive na casa do Miranda, amigo querido que compartilha comigo a tara por quadrinhos. As paredes da sala dele são ocupadas de cima a baixo por estantes cheias de álbuns, graphic novels, revistas. Só finesse. Dá gosto só de estar ali, vendo aquelas lombadas, cercado de histórias absurdas, imagens incríveis, papel cheiroso. Eu queria ter um ano numa dimensão paralela para ler tudo que está ali, sem pressa, offline, pernas pro ar. E sempre que vou lá ele me dá algum gibi que agora tem encadernado, ou que comprou repetido. Como esse, desenho delicado, argumento embasbacante: Red Handed, do Matt Kindt. Quem tem amigo tem tudo.

foto 2 Sobre livrinhos, livrões, iPads e tubarões

Pode ser que quando apareceram tablets bem leves, como esse novo iPad Air, e com telas bem grandes, eu me convença. Mas como dizia Douglas Adams, e Neil Gaiman lembrou esses dias, um livro é como um tubarão. Os tubarões já estavam nos oceanos antes dos dinossauros existirem. E a razão por que eles sobrevivem até hoje, essencialmente os mesmos, é porque os tubarões são excelentes na missão de serem tubarões. Os livros, lembra Gaiman, são "difíceis de destruir, resistentes a banheiras, movidos a energia solar, e dá gosto ter um nas mãos; os livros são ótimos em ser livros." Fato, e eu completaria: os livros podem ser rabiscados, colocados na estante, guardados para seu filho algum dia ler, emprestados para um amigo nunca mais devolver, dados para uma pessoa querida, vendidos para um sebo... e muito mais.

O Brasil tem uma novidade excelente para quem ama livros, uma coisa que eu esperava desde sempre: livros baratos. Me fiz leitor de verdade, onívoro, dos 17 aos 23 anos, matando aula da faculdade e destruindo pockets em inglês, 400 páginas a U$ 3,99. Uns 100% dos livros publicados em inglês têm versão em formatinho, a preço de refrigerante. Inclusive Douglas Adams - li tudo que ele escreveu em papel vagabundo, começando pelo meio, So Long And Thanks for All The Fish. Claro que eu já lia nos anos 70 os pockets infantojuvenis da Ediouro, e pouco depois a melhor ficção científica do mundo com sotaque lusitano, na coleção Europa-América. Um dia Robert Heinlein, no outro Brigitte Montfort!

capa 3 Sobre livrinhos, livrões, iPads e tubarões

O pocket é o formato editorial inclusivo e democrático por excelência, mas no Brasil demorou para vingar. Foi com a megacoleção da LP&M. Só ali já tem leitura para uma vida (as traduções de Shakespeare são uma delícia, algumas por Millôr Fernandes). Agora todas as principais editoras têm suas séries de livros em formatinho, de todo tipo, pra todo leitor, coisas incríveis. Inclusive a Penguin, inventora do formato, prazer ver livros brasileiros com o selo do pinguinzinho, pela Companhia das Letras. Muitos já saíram em formato grande e caro, outros tantos estão saindo pela primeira vez direto em formato pequeno. É minha nova velha mania. Se entro em uma livraria, vou direto onde estão os pockets. A L&PM bolou uma genial: a coleção 64, só com livros de 64 páginas, sempre por cinco reais.

Nas últimas semanas, dois pequenos notáveis: Sobre a Amizade e Outros Diálogos, antologia de papos radiofônicos entre Jorge Luiz Borges e Osvaldo Ferrari. E Onde Encontrar a Sabedoria?, de Harold Bloom, que sorvo agora (originalmente R$ 52,90 em formato tradicional, paguei R$ 19,90 pelo formatinho). Mais que leituras agradáveis e enriquecedoras, os livrinhos são amigos que me acompanham na mochila, na pasta, na cama e no final de semana. Delícia ver e rever a capa com Borges descabelado, o estrabismo fitando um Aleph? Sua companhia me fez pensar que deveria escrever sobre este livro, o que faço agora, por vias tortíssimas. Será que eu sentiria o mesmo, se tivesse lido em formato digital? Por enquanto, não. Elétrons me bastam para o trabalho. Para o prazer, ainda sou amante dos átomos.

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Publicado em 22/10/2013 às 10:52

Neil Gaiman: o poder e o prazer da leitura


  "Uma vez eu estava em Nova York e assisti uma palestra sobre o negócio de construir penitenciárias - uma indústria que cresce muito na América. Eles precisam planejar seu crescimento futuro - quantas celas vão precisar? Quantos prisioneiros vão estar na cadeia, digamos, daqui a 15 anos? E eles descobriram que conseguem prever isso muito facilmente, usando um algoritmo muito simples, baseado na porcentagem de crianças de 10 a 11 anos que não conseguem ler."

"Os Chineses promoveram sua primeira convenção de fantasia e ficção científica em 2007, eu estava lá. Perguntei, por que agora? Responderam: nós Chineses somos brilhantes para copiar os outros, mas somos fracos em inovação. Não inventamos nada, não imaginamos coisas novas. Então o governo mandou uma delegação aos EUA, para visitar a Apple, a Microsoft, o Google, e conhecer como eram as pessoas que estavam lá inventando o futuro. E todos eles tinham lido ficção científica, quando eram meninos ou meninas."

Com argumentos como esses, fica difícil resistir ao gentil manifesto de Neil Gaiman pela leitura, pelas bibliotecas, e principalmente pelo prazer de ler. Os parágrafos fazem parte de uma palestra que ele deu recentemente em favor da The Reading Agency, uma organização que promove a leitura no Reino Unido. É o cara certo para esta pregação. Neil Gaiman vive entre a alta literatura e o gibi, entre Borges e Hollywood, a mitologia e o rock'n'roll. Nunca sacrificou o apelo pop para impressionar a crítica. Escreve para crianças, adolescentes, adultos - frequentemente, ao mesmo tempo. Agora, colhe os frutos de um bem-sucedido romance "adulto"e semiautobiográfico para todas as idades, O Oceano no Fim do Caminho, e retoma os quadrinhos que fizeram sua fama com Sandman: Overture.

Neil, cinquentão, sempre de preto, ainda posa de rockstar dark-fofo e derrete as fãs. Mas devagarinho se converte em outro arquétipo: o velho sábio, sarrista e um pouco ranzinza, que tem muito a ensinar. Suas palavras são brisa suave que sopra pra longe o cinismo. Reproduzo sua preleção, em inglês, e não resisto a traduzir uns trechinhos.

"A ficção é uma porta para a leitura em geral. O impulso de querer saber o que acontecerá depois, de virar a página, de continuar, mesmo que seja difícil, porque alguém está com um problema e você quer saber como vai ser o fim da história - é um impulso muito real. E te força a aprender palavras novas, a pensar pensamentos novos, a continuar... e quando você aprende isso, está na estrada para ler tudo."

"A maneira mais simples de garantir que criaremos crianças alfabetizadas é ensiná-las a ler, e mostrar que ler é um prazer. Qualquer livro que elas curtam..."

"Ficção constrói empatia. Quando você vê TV ou um filme, está olhando coisas acontecendo com outras pessoas. Ficção em prosa é algo que você constrói com 26 letras e um punhado de pontuação, e você, só você, usando sua imaginação, cria um mundo e pessoas nele e olha através de outros olhos. Sente coisas, visita lugares e mundos... aprende que todas as outras pessoas lá fora também são um eu. Você está sendo outra pessoa, e quando volta ao seu próprio mundo, está ligeiramente transformado. Empatia é uma ferramenta para reunir pessoas em grupos, e permite que funcionemos como mais que um indivíduo obcecado por si mesmo."

"Ficção pode mostrar um mundo diferente. Depois que você visitou outros mundos... nunca mais estará inteiramente satisfeito com o mundo em que você cresceu. Insatisfação é uma coisa boa: pessoas insatisfeitas podem modificar e melhorar seus mundos, fazê-los melhores, transformá-los."

"Todos nós - adultos e crianças, escritores e leitores - temos obrigação de sonhar acordados. Temos obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar nada, que estamos em um mundo em que a sociedade é enorme e o indivíduo menos que nada: um átomo numa parede, um grão de arroz numa plantação. Mas a verdade é que indivíduos mudam o mundo o tempo todo, indivíduos fazem o futuro, e eles o fazem imaginando que as coisas podem ser diferentes."

1 Neil Gaiman: o poder e o prazer da leitura

Ilustração de Sandman: Overture

Neil e o artista Dave McKean relembram a criação de Sandman. Leia aqui!

A palestra de Gaiman inteira:

It's important for people to tell you what side they are on and why, and whether they might be biased. A declaration of members' interests, of a sort. So, I am going to be talking to you about reading. I'm going to tell you that libraries are important. I'm going to suggest that reading fiction, that reading for pleasure, is one of the most important things one can do. I'm going to make an impassioned plea for people to understand what libraries and librarians are, and to preserve both of these things.

And I am biased, obviously and enormously: I'm an author, often an author of fiction. I write for children and for adults. For about 30 years I have been earning my living though my words, mostly by making things up and writing them down. It is obviously in my interest for people to read, for them to read fiction, for libraries and librarians to exist and help foster a love of reading and places in which reading can occur.

So I'm biased as a writer. But I am much, much more biased as a reader. And I am even more biased as a British citizen.

And I'm here giving this talk tonight, under the auspices of the Reading Agency: a charity whose mission is to give everyone an equal chance in life by helping people become confident and enthusiastic readers. Which supports literacy programs, and libraries and individuals and nakedly and wantonly encourages the act of reading. Because, they tell us, everything changes when we read.

And it's that change, and that act of reading that I'm here to talk about tonight. I want to talk about what reading does. What it's good for.

I was once in New York, and I listened to a talk about the building of private prisons – a huge growth industry in America. The prison industry needs to plan its future growth – how many cells are they going to need? How many prisoners are there going to be, 15 years from now? And they found they could predict it very easily, using a pretty simple algorithm, based on asking what percentage of 10 and 11-year-olds couldn't read. And certainly couldn't read for pleasure.

It's not one to one: you can't say that a literate society has no criminality. But there are very real correlations.

And I think some of those correlations, the simplest, come from something very simple. Literate people read fiction.

Fiction has two uses. Firstly, it's a gateway drug to reading. The drive to know what happens next, to want to turn the page, the need to keep going, even if it's hard, because someone's in trouble and you have to know how it's all going to end … that's a very real drive. And it forces you to learn new words, to think new thoughts, to keep going. To discover that reading per se is pleasurable. Once you learn that, you're on the road to reading everything. And reading is key. There were noises made briefly, a few years ago, about the idea that we were living in a post-literate world, in which the ability to make sense out of written words was somehow redundant, but those days are gone: words are more important than they ever were: we navigate the world with words, and as the world slips onto the web, we need to follow, to communicate and to comprehend what we are reading. People who cannot understand each other cannot exchange ideas, cannot communicate, and translation programs only go so far.

And the second thing fiction does is to build empathy. When you watch TV or see a film, you are looking at things happening to other people. Prose fiction is something you build up from 26 letters and a handful of punctuation marks, and you, and you alone, using your imagination, create a world and people it and look out through other eyes. You get to feel things, visit places and worlds you would never otherwise know. You learn that everyone else out there is a me, as well. You're being someone else, and when you return to your own world, you're going to be slightly changed.

Empathy is a tool for building people into groups, for allowing us to function as more than self-obsessed individuals.

The simplest way to make sure that we raise literate children is to teach them to read, and to show them that reading is a pleasurable activity. And that means, at its simplest, finding books that they enjoy, giving them access to those books, and letting them read them.

I don't think there is such a thing as a bad book for children. Every now and again it becomes fashionable among some adults to point at a subset of children's books, a genre, perhaps, or an author, and to declare them bad books, books that children should be stopped from reading. I've seen it happen over and over; Enid Blyton was declared a bad author, so was RL Stine, so were dozens of others. Comics have been decried as fostering illiteracy.

It's tosh. It's snobbery and it's foolishness. There are no bad authors for children, that children like and want to read and seek out, because every child is different. They can find the stories they need to, and they bring themselves to stories. A hackneyed, worn-out idea isn't hackneyed and worn out to them. This is the first time the child has encountered it. Do not discourage children from reading because you feel they are reading the wrong thing. Fiction you do not like is a route to other books you may prefer. And not everyone has the same taste as you.

Well-meaning adults can easily destroy a child's love of reading: stop them reading what they enjoy, or give them worthy-but-dull books that you like, the 21st-century equivalents of Victorian "improving" literature. You'll wind up with a generation convinced that reading is uncool and worse, unpleasant.

We need our children to get onto the reading ladder: anything that they enjoy reading will move them up, rung by rung, into literacy. (Also, do not do what this author did when his 11-year-old daughter was into RL Stine, which is to go and get a copy of Stephen King's Carrie, saying if you liked those you'll love this! Holly read nothing but safe stories of settlers on prairies for the rest of her teenage years, and still glares at me when Stephen King's name is mentioned.)

And the second thing fiction does is to build empathy. When you watch TV or see a film, you are looking at things happening to other people. Prose fiction is something you build up from 26 letters and a handful of punctuation marks, and you, and you alone, using your imagination, create a world and people it and look out through other eyes. You get to feel things, visit places and worlds you would never otherwise know. You learn that everyone else out there is a me, as well. You're being someone else, and when you return to your own world, you're going to be slightly changed.

Empathy is a tool for building people into groups, for allowing us to function as more than self-obsessed individuals.

You're also finding out something as you read vitally important for making your way in the world. And it's this:

The world doesn't have to be like this. Things can be different.

I was in China in 2007, at the first party-approved science fiction and fantasy convention in Chinese history. And at one point I took a top official aside and asked him Why? SF had been disapproved of for a long time. What had changed?

It's simple, he told me. The Chinese were brilliant at making things if other people brought them the plans. But they did not innovate and they did not invent. They did not imagine. So they sent a delegation to the US, to Apple, to Microsoft, to Google, and they asked the people there who were inventing the future about themselves. And they found that all of them had read science fiction when they were boys or girls.

Fiction can show you a different world. It can take you somewhere you've never been. Once you've visited other worlds, like those who ate fairy fruit, you can never be entirely content with the world that you grew up in. Discontent is a good thing: discontented people can modify and improve their worlds, leave them better, leave them different.

And while we're on the subject, I'd like to say a few words about escapism. I hear the term bandied about as if it's a bad thing. As if "escapist" fiction is a cheap opiate used by the muddled and the foolish and the deluded, and the only fiction that is worthy, for adults or for children, is mimetic fiction, mirroring the worst of the world the reader finds herself in.

If you were trapped in an impossible situation, in an unpleasant place, with people who meant you ill, and someone offered you a temporary escape, why wouldn't you take it? And escapist fiction is just that: fiction that opens a door, shows the sunlight outside, gives you a place to go where you are in control, are with people you want to be with(and books are real places, make no mistake about that); and more importantly, during your escape, books can also give you knowledge about the world and your predicament, give you weapons, give you armour: real things you can take back into your prison. Skills and knowledge and tools you can use to escape for real.

As JRR Tolkien reminded us, the only people who inveigh against escape are jailers.

Another way to destroy a child's love of reading, of course, is to make sure there are no books of any kind around. And to give them nowhere to read those books. I was lucky. I had an excellent local library growing up. I had the kind of parents who could be persuaded to drop me off in the library on their way to work in summer holidays, and the kind of librarians who did not mind a small, unaccompanied boy heading back into the children's library every morning and working his way through the card catalogue, looking for books with ghosts or magic or rockets in them, looking for vampires or detectives or witches or wonders. And when I had finished reading the children's' library I began on the adult books.

They were good librarians. They liked books and they liked the books being read. They taught me how to order books from other libraries on inter-library loans. They had no snobbery about anything I read. They just seemed to like that there was this wide-eyed little boy who loved to read, and would talk to me about the books I was reading, they would find me other books in a series, they would help. They treated me as another reader – nothing less or more – which meant they treated me with respect. I was not used to being treated with respect as an eight-year-old.

But libraries are about freedom. Freedom to read, freedom of ideas, freedom of communication. They are about education (which is not a process that finishes the day we leave school or university), about entertainment, about making safe spaces, and about access to information.

I worry that here in the 21st century people misunderstand what libraries are and the purpose of them. If you perceive a library as a shelf of books, it may seem antiquated or outdated in a world in which most, but not all, books in print exist digitally. But that is to miss the point fundamentally.

I think it has to do with nature of information. Information has value, and the right information has enormous value. For all of human history, we have lived in a time of information scarcity, and having the needed information was always important, and always worth something: when to plant crops, where to find things, maps and histories and stories – they were always good for a meal and company. Information was a valuable thing, and those who had it or could obtain it could charge for that service.

In the last few years, we've moved from an information-scarce economy to one driven by an information glut. According to Eric Schmidt of Google, every two days now the human race creates as much information as we did from the dawn of civilisation until 2003. That's about five exobytes of data a day, for those of you keeping score. The challenge becomes, not finding that scarce plant growing in the desert, but finding a specific plant growing in a jungle. We are going to need help navigating that information to find the thing we actually need.

Libraries are places that people go to for information. Books are only the tip of the information iceberg: they are there, and libraries can provide you freely and legally with books. More children are borrowing books from libraries than ever before – books of all kinds: paper and digital and audio. But libraries are also, for example, places that people, who may not have computers, who may not have internet connections, can go online without paying anything: hugely important when the way you find out about jobs, apply for jobs or apply for benefits is increasingly migrating exclusively online. Librarians can help these people navigate that world.

I do not believe that all books will or should migrate onto screens: as Douglas Adams once pointed out to me, more than 20 years before the Kindle turned up, a physical book is like a shark. Sharks are old: there were sharks in the ocean before the dinosaurs. And the reason there are still sharks around is that sharks are better at being sharks than anything else is. Physical books are tough, hard to destroy, bath-resistant, solar-operated, feel good in your hand: they are good at being books, and there will always be a place for them. They belong in libraries, just as libraries have already become places you can go to get access to ebooks, and audiobooks and DVDs and web content.

A library is a place that is a repository of information and gives every citizen equal access to it. That includes health information. And mental health information. It's a community space. It's a place of safety, a haven from the world. It's a place with librarians in it. What the libraries of the future will be like is something we should be imagining now.

Literacy is more important than ever it was, in this world of text and email, a world of written information. We need to read and write, we need global citizens who can read comfortably, comprehend what they are reading, understand nuance, and make themselves understood.

Libraries really are the gates to the future. So it is unfortunate that, round the world, we observe local authorities seizing the opportunity to close libraries as an easy way to save money, without realising that they are stealing from the future to pay for today. They are closing the gates that should be open.

According to a recent study by the Organisation for Economic Cooperation and Development, England is the "only country where the oldest age group has higher proficiency in both literacy and numeracy than the youngest group, after other factors, such as gender, socio-economic backgrounds and type of occupations are taken into account".

Or to put it another way, our children and our grandchildren are less literate and less numerate than we are. They are less able to navigate the world, to understand it to solve problems. They can be more easily lied to and misled, will be less able to change the world in which they find themselves, be less employable. All of these things. And as a country, England will fall behind other developed nations because it will lack a skilled workforce.

Books are the way that we communicate with the dead. The way that we learn lessons from those who are no longer with us, that humanity has built on itself, progressed, made knowledge incremental rather than something that has to be relearned, over and over. There are tales that are older than most countries, tales that have long outlasted the cultures and the buildings in which they were first told.

I think we have responsibilities to the future. Responsibilities and obligations to children, to the adults those children will become, to the world they will find themselves inhabiting. All of us – as readers, as writers, as citizens – have obligations. I thought I'd try and spell out some of these obligations here.

I believe we have an obligation to read for pleasure, in private and in public places. If we read for pleasure, if others see us reading, then we learn, we exercise our imaginations. We show others that reading is a good thing.

We have an obligation to support libraries. To use libraries, to encourage others to use libraries, to protest the closure of libraries. If you do not value libraries then you do not value information or culture or wisdom. You are silencing the voices of the past and you are damaging the future.

We have an obligation to read aloud to our children. To read them things they enjoy. To read to them stories we are already tired of. To do the voices, to make it interesting, and not to stop reading to them just because they learn to read to themselves. Use reading-aloud time as bonding time, as time when no phones are being checked, when the distractions of the world are put aside.

We have an obligation to use the language. To push ourselves: to find out what words mean and how to deploy them, to communicate clearly, to say what we mean. We must not to attempt to freeze language, or to pretend it is a dead thing that must be revered, but we should use it as a living thing, that flows, that borrows words, that allows meanings and pronunciations to change with time.

We writers – and especially writers for children, but all writers – have an obligation to our readers: it's the obligation to write true things, especially important when we are creating tales of people who do not exist in places that never were – to understand that truth is not in what happens but what it tells us about who we are. Fiction is the lie that tells the truth, after all. We have an obligation not to bore our readers, but to make them need to turn the pages. One of the best cures for a reluctant reader, after all, is a tale they cannot stop themselves from reading. And while we must tell our readers true things and give them weapons and give them armour and pass on whatever wisdom we have gleaned from our short stay on this green world, we have an obligation not to preach, not to lecture, not to force predigested morals and messages down our readers' throats like adult birds feeding their babies pre-masticated maggots; and we have an obligation never, ever, under any circumstances, to write anything for children that we would not want to read ourselves.

We have an obligation to understand and to acknowledge that as writers for children we are doing important work, because if we mess it up and write dull books that turn children away from reading and from books, we 've lessened our own future and diminished theirs.

We all – adults and children, writers and readers – have an obligation to daydream. We have an obligation to imagine. It is easy to pretend that nobody can change anything, that we are in a world in which society is huge and the individual is less than nothing: an atom in a wall, a grain of rice in a rice field. But the truth is, individuals change their world over and over, individuals make the future, and they do it by imagining that things can be different.

Look around you: I mean it. Pause, for a moment and look around the room that you are in. I'm going to point out something so obvious that it tends to be forgotten. It's this: that everything you can see, including the walls, was, at some point, imagined. Someone decided it was easier to sit on a chair than on the ground and imagined the chair. Someone had to imagine a way that I could talk to you in London right now without us all getting rained on.This room and the things in it, and all the other things in this building, this city, exist because, over and over and over, people imagined things.

We have an obligation to make things beautiful. Not to leave the world uglier than we found it, not to empty the oceans, not to leave our problems for the next generation. We have an obligation to clean up after ourselves, and not leave our children with a world we've shortsightedly messed up, shortchanged, and crippled.

We have an obligation to tell our politicians what we want, to vote against politicians of whatever party who do not understand the value of reading in creating worthwhile citizens, who do not want to act to preserve and protect knowledge and encourage literacy. This is not a matter of party politics. This is a matter of common humanity.

Albert Einstein was asked once how we could make our children intelligent. His reply was both simple and wise. "If you want your children to be intelligent," he said, "read them fairy tales. If you want them to be more intelligent, read them more fairy tales." He understood the value of reading, and of imagining. I hope we can give our children a world in which they will read, and be read to, and imagine, and understand.

Ouça Neil Gaiman lendo algumas de suas histórias aqui.

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Publicado em 18/10/2013 às 16:47

Lama e Malala, Arábia Saudita e Paquistão: duas meninas, duas medidas, duas faces da mesma moeda

time malala Lama e Malala, Arábia Saudita e Paquistão: duas meninas, duas medidas, duas faces da mesma moeda

Malala na capa da Time: uma das pessoas mais influentes do mundo (Foto: Reprodução)

No dia de Natal de 2011, a menina de cinco anos foi internada no hospital. Lama tinha costelas e braço esquerdo quebrado, crânio fraturado, hematomas e queimaduras em todo o corpo. Uma assistente social que a viu no hospital disse que a menininha foi estuprada "em todos os lugares". Depois de oito meses inconsciente, a garota morreu.

No dia 9 de outubro de 2012, outra menina, de quinze anos, levou um tiro no rosto. Malala ficou inconsciente, à beira da morte, por uns dias. Conseguiu se recuperar. Uma é obscura. A outra foi chamada de "a adolescente mais famosa do mundo", já recebeu mais de 20 prêmios internacionais, quase levou o Nobel da Paz, e foi recebida por presidentes, famosos, pela rainha da Inglaterra. Foi capa da maior revista semanal brasileira esta semana. A razão para a diferença de tratamento de Lama e Malala: business, just business.

Lama Al-Ghamdi foi morta pelo pai, Fayan al-Ghamdi. É um popular pregador islâmico radical. Foi preso por estuprar e matar sua filha. Há testemunhas de que ele teria feito o que fez por "duvidar da virgindade" da filha. Foi condenado por um tribunal do seu país a oito anos de prisão, oitocentas chicotadas e a pagar uma indenização para sua ex-esposa, mãe de Lama. É uma pena ridícula para os padrões locais. Ativistas denunciam a injustiça da decisão. Um assassinato bárbaro punido com só oito anos de prisão?

Lama nasceu na Arábia Saudita. Vários tipos de crime são passíveis de pena de morte no país (incuindo adultério e bruxaria). Mas um pai não pode ser executado por matar seu filho ou sua mulher. Isso é punido com penas de cinco a doze anos de prisão. Fayan al-Ghamdi é um caso limite. Mas o fato é que a Arábia Saudita tem um histórico assustador no tratamento de crianças. Segundo um estudo, uma em cada quatro crianças é abusada no país. A National Society for Human Rights registra que 45% das crianças sauditas enfrentam algum tipo de abuso, ou violência doméstica. Recentemente, outro pregador defendeu na televisão saudita que as meninas devem usar véu a partir dos dois anos de idade. "Se uma menina é desejada sexualmente, os pais devem cobrir sua face e forçá-la a usar o véu", disse Abdullah Daoud à rede Al-Majd.

Veja a reportagem da CNN sobre a morte de Lama e o julgamento de seu assassino:

A Arábia Saudita é uma monarquia islâmica ultraconservadora, desde 1932. Segundo a revista The Economist, é o 7º país mais ditatorial do planeta. Tem a segunda maior reserva de petróleo do mundo. Petróleo é 95% das exportações e 70% da receita do governo. Quase 28 milhões de pessoas vivem no país, berço do Islamismo, onde estão os dois locais mais sagrados para os muçulmanos, Meca e Medina.

É proibido qualquer tipo de teatro, a exibição de filmes, beber álcool, e a pintura de pessoas ou animais. A homossexualidade é crime. Há censura prévia em literatura e nenhuma liberdade de expressão. É proibido ter religiões que não a oficial, islamismo tradicional, wahabita. O casamento entre parentes é comum, o que gerou um altíssimo número de crianças com problemas genéticos, como atrofia muscular e surdez. E fundamentalistas sauditas, financiados por ricaços sauditas, causam problemas mundo afora - como os que atacaram Nova York em 2001, como o saudita Osama Bin Laden.

As mulheres penam mais. Mulher não vota. O tráfico de mulheres é comum. A violência sobre as meninas é enorme. Toda mulher saudita adulta tem que ter um "guardião" homem. Elas não têm o mesmo status civil dos homens. Seus testemunhos em tribunal não valem tanto quanto as dos homens. Elas têm dificuldade de se divorciar. Na hora de dividir heranças, a filha mulher recebe metade do que o filho homem. A mulher saudita é proibida de guiar automóveis. Há quem chame a situação de "apartheid" - só que em vez de negros, são as mulheres os cidadãos de segunda classe.

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Lama al-Ghamdi

A Arábia Saudita, onde Lama morreu, é um país bem mais atrasado que o Paquistão, onde Malala nasceu. O Paquistão é uma república parlamentarista, com 180 milhões de habitantes. Para se ter uma ideia: nas próximas eleições a presidente, um dos candidatos no Paquistão é uma mulher - ou seja, há eleições, e as afegãs tem muito mais autonomia que as sauditas.

O Paquistão é o segundo maior país islâmico, oitavo maior exército do mundo, tem armas nucleares, e é eterno aliado dos EUA, também. É de onde os americanos lutam a guerra contra o Taleban, movimento hiper-radical islâmico, cujo objetivo é estabelecer no país a lei da sharia, a lei do Corão. O Taleban controla um território no Paquistão, na fronteira com o Afeganistão. Nasceu de um grupo de combatentes fomentado e financiado pelos EUA e pela Arábia Saudita, como contraponto à invasão soviética, nos anos 80. Eram retratados como heróis na mídia ocidental (eles até ajudam os mocinhos em Rambo 3 e 007 - Marcado para a Morte…). Hoje são retratados como os maiores canalhas do mundo. E quem resiste a eles, como herói.

É o caso de Malala. Muito antes de ser baleada pelos talebans, ela já era célebre internacionalmente. Aos onze anos, escrevia um blog sob pseudônimo para a BBC, descrevendo sua vida em uma região do Paquistão ocupada pelo Taleban, e defendendo os direitos das meninas estudarem. Depois, o New York Times fez um documentário sobre ela. Passou a dar entrevistas para a imprensa global. Ganhou prêmios. Virou alvo.

Malala só sobreviveu porque foi transferida para se tratar na Inglaterra, o que só aconteceu por ser famosa, e por ser ótimo marketing. Foi para a capa da revista Time, como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Passou a acumular prêmios. Sua família toda vive na Inglaterra hoje. Seu livro, Eu Sou Malala, está sendo lançado simultaneamente mundo afora. A campanha para ela levar o Nobel da Paz foi maciça - apareceu em todos os principais programas de TV dos Estados Unidos, nas últimas semanas. Só não levou porque a Academia Sueca resolveu dar um tapinha com luva de chumbo nos EUA, concedendo o prêmio para a OPCW (no Brasil, OPAQ), a Organização para a Proibição de Armas Químicas. É a entidade que afirmava que Saddam Hussein jamais teve armas de destruição em massa, furando o argumento que os americanos usaram pra invadir o Iraque.

Malala é bacaninha? Claro. Mas o ponto é que os EUA lutam uma guerra sem fim no Afeganistão, onde já gastaram bilhões sem fim. É o front mais claro da guerra ao terror. É fundamental para o establishment americano que o Taleban seja entendido como não só um perigo global, mas como canalhas cruéis que baleiam menininhas. O que são, sem dúvida.

Enquanto isso, os canalhas cruéis da Arábia Saudita continuam judiando de suas menininhas, com apoio americano. Malala é uma heroína. Lama nem mártir é. A Arábia Saudita é aliado estratégico dos EUA desde 1941. A família real saudita é bancada pelos EUA, que controla a extração de petróleo e gás no país. Retribui de muitas maneiras - por exemplo, comprando mais de US$ 80 bilhões em armas fabricadas por empresas americanas, entre 1951 e 2006. Gastos que estão aumentando: nos últimos anos, o país tem gasto mais de US$ 20 bilhões em defesa anualmente.

Lama e Malala são duas faces da mesma moeda: a hipocrisia imperial americana. Que enfrenta fundamentalistas em um canto do mundo e os apoia em outro. Que defende a liberdade quando é bom para o business, e financia a opressão quando é mais lucrativo. Como fazem governos e poderosos em todo canto; mas ninguém com o poder de fogo dos EUA. Governo e capital americanos tratam as Lamas e Malalas do mundo, e aliás todos nós, com dois pesos e duas medidas. A voz de Malala inspira. O silêncio de Lama condena.

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Publicado em 17/10/2013 às 14:43

Sem a liberdade de ofender, não existe a liberdade de expressão

chico burque 2 Sem a liberdade de ofender, não existe a liberdade de expressão

Chico Buarque

Escrevi uma vez: "Os problemas da liberdade se resolvem com mais liberdade, não menos. Democracia é choque de opiniões, visões, pressões - nada a ver com o asco brasileiro ao conflito aberto. Liberdade de expressão é a liberdade de uma pessoa que você despreza dizer algo absolutamente repugnante."

É um trecho de um artigo chamado Pela Libertinagem de Expressão, que defendia Monteiro Lobato e Rafinha Bastos. Não é assim nenhum aforismo que viverá eternamente. Mas todo mundo acredita em alguma coisa, e eu acredito em liberdade de expressão, além do limite da irresponsabilidade. Vivesse nos Estados Unidos e eu seria, como Neil Gaiman se define, um fundamentalista da primeira emenda. Liberdade de pensamento, imprensa, credo, questionamento, movimento, comportamento, ação - é o ar rarefeito que eu quero respirar.

O movimento de artistas buscando tolher a publicação de biografias não-autorizadas fez muita gente refletir sobre a liberdade, o que ela exige e significa. A postura antidemocrática de Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan e companhia levou justamente ao conflito aberto. Quando vimos, a empresária de Caetano Veloso batia boca com a colunista da Folha, Chico era retrucado por escritores e editores, e todo mundo palpitava. Sinal que o país vai amadurecendo.

Não que haja muito o que debater. Se aceitamos estabelecer a censura prévia para biografias, a sequência lógica é reestabeleer a censura prévia a reportagens, documentários, filmes, canções, romances. Estaríamos de volta à minha infância, ao regime militar. Desconfio que muitos brasileiros sonham com um papai que lhes comande, censure e puna. Mas a história não caminha para trás.

O episódio desmascara os baluartes da MPB como os hipócritas que são. E provoca uma questão relevante: estes famosos, que vivem de dinheiro público via leis de incentivo e patrocínios estatais, por acaso têm direito de esconder suas vidas e negócios, sob a justificativa de defesa da privacidade? Escrevi sob o tema há uma semana.

Foi prova retumbante que o bom e velho jornalismo continua importando, e muito. A celeuma começou com uma reportagem de Juliana Gragnani, na Folha de S. Paulo. Jornais publicaram outros artigos importantes. A mídia impressa foi pioneira, as redes sociais foram protagonistas. A internet é nosso fórum permanente, boteco aberto 24 horas por dia, espaço de liberdade e, sim, de bagunça e bate-boca. Quem gosta de ordem, previsibilidade e calmaria são os censores.

Foi um momento de reflexão sobre a liberdade que queremos, e portanto o país que queremos. Espero que seja de inflexão também. Revisitemos outros tempos, outras censuras, e outros libertários. A melhor maneira de evitar que a história se repita é com liberdade de informação e debate. E é... lendo.

O Congresso jamais fará lei que estabeleça uma religião oficial, ou proibindo a liberdade de crença; ou limitando a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das pessoas se reunirem pacificamente, ou limitar o direito de fazer petições ao governo, com o intuito de reparar agravos.

Primeira Emenda à Constituição dos Estados Unidos

Há mais de uma maneira de queimar um livro, e o mundo está cheio de gente com fósforos acesos.
Ray Bradbury

É difícil libertar os idiotas das correntes que reverenciam.
Voltaire

Ser livre não é simplesmente se livrar de seus grilhões, mas viver de uma maneira que respeita e amplia a liberdade dos outros.
Nelson Mandela

Silenciar uma opinião é um tipo de mal peculiar. Rouba a raça humana, a posteridade assim como a geração atual; aqueles que discordam da opinião, ainda mais que aqueles que a apóiam.
John Stuart Mill

A censura reflete a falta de confiança de uma sociedade nela mesma.
Potter Stewart

Se os editores precisarem ter certeza de que seus livros não ofenderão ninguém, antes de publicar, muitos poucos livros serão publicados.
Benjamin Franklin

Limitar a liberdade de imprensa é insultar uma nação. Proibir a leitura de certos livros é declarar seus habitantes tolos ou escravos.
Claude-Adrien Helvétius

Todos podemos imaginar um livro que esperamos que nossos filhos jamais leiam. Mas se eu tiver o direito de remover este livro que abomino da estante, você também tem, todo mundo tem. E um belo dia não restará livro nenhum na estante, para nenhum de nós.
Katherine Paterson

Toda censura existe para nos prevenir de desafiar conceitos correntes e instituições existentes. Todo progresso começa quando desafiamos conceitos atuais, e acontece quando substituímos as instituições atuais por coisa melhor. Consequentemente, a primeira condição para o progresso é o desaparecimento da censura.
George Bernard Shaw

A censura é a inimiga feroz da verdade. É o horror à inteligência, à pesquisa, ao debate, ao diálogo. Decreta a revogação do dogma da falibilidade humana e proclama os proprietários da verdade.
Ulisses Guimarães

Não me preocupam só os livros que estão sendo proibidos. Mas os livros que jamais serão escritos.
Judy Blume

Cada livro queimado ilumina o mundo.
Ralph Waldo Emerson

Livros não permanecem proibidos. Livros não queimam, idéias não vão para a cadeia. Na perspectiva da história, o censor e o inquisidor sempre perderam. A única arma contra idéias ruins são é ter idéias melhores.
Alfred Whitney Griswold

Não vale a pena ter liberdade, se ela não incluir a liberdade de errar.
Mahatma Gandhi

Se não acreditamos na liberdade de expressão para pessoas que desprezamos, não acreditamos na liberdade de expressão.
Noam Chomsky

Sem a liberdade de ofender, não existe a liberdade de expressão.
Salman Rushdie

salman Sem a liberdade de ofender, não existe a liberdade de expressão

Salman Rushdie

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Publicado em 15/10/2013 às 17:40

O universo explica o universo: um cartunista, um cientista, o New York Times e o Bóson de Higgs


A grande descoberta científica de 2012 foi o Bóson de Higgs. Por que isso é importante? Bem, essa partícula subatômica foi imaginada pelos físicos Peter Higgs e François Englert em 1964. Demorou quase 50 anos, mas em 2012 foi provado que ele existe - e isso é uma peça chave do quebra-cabeça sobre como as partículas interagem para formar a matéria do universo.

A dupla acaba de ganhar o Nobel de Física. Merecidamente? Como provar? Toda ciência contemporânea sugere ficção científica. A imprensa é incapaz de dar conta do que descobrem os cientistas, e os cientistas não conseguem falar língua de gente. O que é exatamente o Bóson de Higgs? Difícil explicar. Mas agora dá para entender.

A física atual se estende ao infinito - infinito em todas as direções, para baixo e para cima, macro e micro, na descrição inebriante de Freeman J. Dyson. Físico de gênio e escritor de talento, Dyson se atracou com as questões de seu tempo. De um lado, pesquisa pura. Do outro ajudava a construir sistemas de ar condicionado alimentados por lagos gelados, palestrava contra a política de defesa do governo americano, projetava reatores nucleares seguros, imaginava naves espaciais biológicas inspiradas em borboletas, e debatia a existência de um ser criador. O grande tema de sua vida, resume a biografia oficial em seus livros, "é a busca da variedade, incluindo variedade de pessoas, teorias científicas, truques técnicos e linguagens." Está vivo, velhinho.

Infinito em Todas as Direções, o livro, reúne uma série de conferências dadas por Dyson em 1985. Apesar de trechos que dataram, continua leitura corrente e deliciosa. Mesmo quando se aprofunda no que não pesco. Ou gasta um oceano de saliva numa discussão teológica colegial. É até confortante testemunhar como Dyson, que merecia ter papado seu próprio Nobel, faz previsões que se provaram totalmente errados. Por outro lado, ele disse uma vez que não se prevê o futuro para acertar, mas para dar esperança ao leitor...

Comprei minha edição em 1988. Acabava de ler uma semana atrás, quando foi divulgado o Nobel de física. Não tem regra que diz que a gente tem que ler livro até o fim. Muito menos de uma vez só. Indo de Dyson ao Bóson no mesmo, senti o solavanco da minha ignorância. Queria escrever aqui sobre isso, mas cadê as ferramentas? Matei tanta aula de Física quanto possível.

Li alguns artigos nos dias seguintes sobre o Bóson de Higgs. Chocante a discrepância entre a postura humanista do gênio e o palavreado pedante dos jornalistas. Freeman, que passou a vida a desvendar segredos da astronomia, física e matemática, fala comigo de igual para igual. Meus colegas, que imagino tão generalistas e superficiais quanto eu, discursam, toga preta e peruca empoeirada. Enfileiram proparoxítonas e empacam em questiúnculas. A maioria não faz idéia do que diz. Bota o leitor para dormir ou correr.

E então alguém se inspira no exemplo de Dyson, Sagan e Tyson, e faz o complicado simples e sedutor. Tão simples que parece que qualquer um poderia ter feito, o que é dica certa de que há um talento de primeira classe envolvido. Onde está? No site de um jornal! É jornalismo em forma de cartum, desenvolvido e publicado pelo The New York Times, com arte de Nigel Holmes, e animação a cargo de um time de quatro pessoas. Uma metáfora clara, traços elegantes, animação limitada, e está para sempre impresso na sua mente o conceito do Bóson de Higgs. Jornalismo vai ser isso, cada vez mais: explicação.

Não há versão em português, como 99% do que precisamos ler e saber (se não sabe inglês, vá estudar, nunca é tarde; sua vida vai mudar completamente). Felizmente, no 1% está Infinito em Todas as Direções, que foi traduzido para nossa língua.

Assista esse cartum sobre o Bóson de Higgs. É um pedacinho do universo, explicando como o todo funciona. Dá orgulho de, como Higgs, Englert, Dyson, Nigel e você, ser uma parte infinitesimal do cosmos - este lugar infinitamente interessante.

Leia entrevista com Freeman Dyson na Super Interessante:

Michio Kaku, Marcelo Gleiser e outros explicam o que é o Bóson de Higgs:

Publicado em 10/10/2013 às 16:12

Para quê serve um Nobel de Literatura? (estrelando Alice Munro e Luiz Ruffato)

 Para quê serve um Nobel de Literatura? (estrelando Alice Munro e Luiz Ruffato)

Todo ano quando é anunciado o Nobel de literatura, duas palavras me pipocam: nunca li. Quando vou me informar sobre o vencedor, outras duas se repetem com incrível frequência: nunca lerei. E Alice Munro? No caso da vencedora este ano, estou ainda em um estágio anterior, e, admito, muito comum: nunca ouvi falar.

Imperdoável para um jornalista? Relaxei. Temos esse cacoete de posar de sabichão. A gente pode nunca ter lido, assistido, ido ou vivido, mas tem que fazer de conta que sabe de tudo. Pior que nosso vício privado virou virtude das massas. Com a internet, somos todos pseudo-especialistas instantâneos em tudo, com direito a opinião sobre tudo, e acalorada e radical sempre faz mais sucesso.

Tô nem aí com o Nobel de literatura. A maioria dos que ganharam escrevem no gênero "drama realista contemporâneo". Eu já leio muita não-ficção e jornalismo. Quando leio ficção, é exclusivamente por prazer. Que também encontro neste gênero, que domina premiações e atenção da crítica. Mas encontro mais em outros cantos.

O prêmio é entregue desde 1901. Li 29 dos vencedores - li alguma coisa dos 29, pra ser preciso, não "a" obra. Para pegar uma mostrinha recente, no século 21 os vencedores foram:

2013 - Alice Munro

2012 - Mo Yan

2011 - Tomas Transtromer

2010 - Mario Vargas Lllosa

2009 - Herta Muller

2008 - Jean-Marie Gustave Le Clézio

2007 - Doris Lessing

2006 - Orhan Pamuk

2005 - Harold Pinter

2004 - Elfriede Jelinek

2003 - John M. Coetzee

2002 - Imre Kertész

2001 - V.S. Naipaul

2000 - Gao Xingjian

Se sentiu ignorante? Eu sim. Devemos estar perdendo um monte de coisa boa. Mas a academia sueca também perdeu, porque quase nenhum dos meus favoritos de todos os tempos ganhou o prêmio.

Claro que o Nobel não é premia anualmente "o melhor escritor do mundo do ano". Ele joga luz sobre autores de talento que têm identidade clara, e pontos de vista iluminadores sobre temas contemporâneos. No caso de nomes consagrados que escrevem em inglês, o habitual é premiar pelo conjunto da obra - vide Pinter, Lessing e Naipaul (aliás, os únicos deste século que li, com Vargas Llosa). E agora Alice Munro, que em um minuto de pesquisa descobri que tem 82 anos de idade, é canadense, especialista em contos, e acaba de anunciar sua aposentadoria.

Quando a obra é em língua "exótica", o Nobel premia um tanto o autor, e muito a literatura daquela cultura, país, continente. Você não vai ver autores africanos ganharem três anos seguidos, ou asiáticos, ou latino-americanos. O que nos leva à eterna questão: e o Brasil, porque nunca ganhou, e quando vamos ganhar? Pela crescente estatura internacional do país, chuto que nos próximos dez anos não nos escapa. O Brasil está cheio de gente que sabe escrever. Adoraria encontrar alguém que abrace nossa complexidade social, meio Naipaul e meio Philip K.

Dick, com ginga e humor, que dê conta da nossa senzala e seus donos.

Deve existir, e fiquei com vontade de procurar, depois de ontem.

Primeiro, por causa da reação forte de nossos escritores, e da opinião pública, à tentativa de um grupo de dinossauros da MPB forçar a censura prévia de biografias. Segundo, por causa do discurso de Luiz Ruffato em Frankfurt. Foi na cerimônia de abertura da Bienal do Livro, onde este ano o Brasil é o país homenageado, e para onde viajou uma caravana de autores nacionais. Seu discurso, politizado e prolixo, foi valente, e me fez querer ler seus livros. E não foi tão negativo quanto seus críticos pintaram. No final, Luiz aposta na utopia e no poder da escrita, e aposto junto:

"Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade.

Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos.

Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."

A íntegra do discurso de Ruffato

Leia um conto de Alice Munro, traduzido para o português por Jório Dauster

Tudo e mais um pouco sobre Alice, em inglês, no Guardian

E aqui, um conto de Luiz Ruffato: O Ataque

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Publicado em 08/10/2013 às 17:00

A MPB defende a censura pelo motivo de sempre: dinheiro (o nosso, claro)

11 00 10 105 file A MPB defende a censura pelo motivo de sempre: dinheiro (o nosso, claro)

Imagine que uma editora publica um livro sobre você. Alguém que você nem conhece entrevistou seus amigos, parentes, amores e desafetos. Juntou tudo em uma biografia que revela ao mundo suas intimidades, as glórias e os podres. Mas também contém erros absurdos, coisas que jamais aconteceram. O livro foi parar na lista dos mais vendidos. Está todo mundo falando de você, e o escritor faturando com as calúnias. O único recurso que te sobra é processar o autor e a editora. Mas isso vai custar os olhos da cara e demorar anos! Isso lá é justo?

Em uma palavra: sim. Porque a única alternativa seria dar a você o direito de impedir previamente publicações que não te agradem. Por este caminho, toda biografia louvará o biografado, todo entrevista levantará a bola do entrevistado, e todo documentário será propaganda. É preferível enfrentar as inverdades, ainda que custe e demore, que suprimir a priore as verdades. E por acaso é bonito ter lucro mentindo sobre os outros? Não. Mas a decisão sobre se é mentira ou verdade, e se causou dano, tem de ser apurada publicamente, na justiça. A outra opção é a censura prévia. É inaceitável.

Censura prévia é exatamente o que defende um grupo dos mais aclamados nomes da música brasileira. Eles se organizaram em uma entidade chamada Procure Saber. Reúne compositores e intérpretes. Os fundadores são Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Djavan, Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Chico Buarque, também membros dos conselho deliberativo. A ONG quer influir na legislação que mexe com o bolso dos artistas. Seu grande objetivo é reformar o órgão responsável por arrecadar direitos autorais, o ECAD, e aumentar a fatia da grana que vai para o bolso dos compositores. O Procure Saber não é uma associação de classe. Não representa nem todos os compositores. Conta com a oposição de muitos, como esclarece esse artigo de Fernando Brant, principal letrista de Milton Nascimento.

Agora, esse grupo pressiona pela manutenção da lei que rege a publicação de biografias no país. Segundo a lei atual, uma biografia só pode ser publicada se contar com a anuência do biografado. O projeto de lei do deputado Newton Lima, do PT, propõe mudanças no Código Civil, para que biografias não precisem mais de autorização dos biografados, caso eles tenham "notoriedade pública". Escritores e editores são a favor. Em setembro, um grupo de 47 nomes como Ruy Castro, Bóris Fausto, Zuenir Ventura e Carlos Heitor Cony lançaram manifesto a favor da liberdade para as biografias.

O grupo do Procure Saber é contra. A presidente da diretoria do Procure Saber, Paula Lavigne, disse em entrevista à Folha: "Nosso grupo é contra a comercialização de uma biografia não autorizada. Não é justo que só os biógrafos e seus editores lucrem com isso e nunca o biografado ou seus herdeiros. O Código Civil já libera as biografias, desde que não seja para usos comerciais. Porque mudar os artigos 20 e 21? Simplesmente por interesses comerciais? Usar o argumento da liberdade de expressão para comercializar a vida alheia é pura retórica. Vamos correr o risco de estimular o aparecimento de biografias sensacionalistas, em um país em que a reparação pelo dano moral é ridícula. É quase um incentivo às violações. Nesse caso, somos contra. As pessoas públicas e notórias também têm direito à sua intimidade e vida privada, que são invioláveis segundo a Constituição."

É uma maneira hipócrita de embaralhar a questão. Sem a chance de receita, está automaticamente inviabilizada a produção de qualquer biografia. Djavan, em artigo, sugeriu que as biografias não-autorizadas poderim ir para as livrarias, contanto que pagando um royalty para o artista... com din-din tá liberado, é?

Nada de novo no front. O Brasil não compreende a liberdade de expressão. Quanto mais poderoso, mais o brasileiro se sente acima dos direitos e deveres que deveriam valer para todos. O valor máximo do Brasil é a impunidade - estar acima da crítica, da lei, das regras que valem para o zé-povinho. Nossos artistas e políticos são a maior expressão desta arrogância. Surpreendeu muita gente a presença de Chico Buarque de Hollanda no grupo, e seu silêncio sobre o tema. Basta lembrar seu apoio acrítico à ditadura de Fidel Castro, que no quesito liberdade de expressão se iguala ao pior que a América Latina enfrentou. Mas Chico não é grande compositor, coroa charmoso etc.? É. O que uma coisa tem a ver com a outra?

No caso dos citados, trata-se simultaneamente de arte e política. Que bacana da MPB vive só de sua arte, sem as leis de incentivo, a captação de recursos, o patrocínio de governos e estatais? Gilberto Gil foi mais longe, direto ao pote: o ministério da cultura. Como seus colegas da terceira idade do Procure Saber, Gil pena para se manter corrente e relevante. Tirando Roberto Carlos, esses artistas convencem bolsões cada vez menores. Mas suas finanças florescem, porque articulam sem parar, e porque operam seus negócios entre o patrocínio do Estado e as benesses da grande mídia. Biografias pra valer de Gil, Caetano e companhia dariam um cheque-mate nesse jogo.

Políticos, gestores públicos, empresas bancadas pelo BNDES e companhia, assim como artistas pendurados nas leis de incentivo, deveriam ter obrigação adicional de dar satisfações ao público, que é quem os sustenta. Quanto da receita destes famosos vêm dos nossos impostos?
Essa é a principal razão da oposição desta turma à mudança na lei das biografias. Eles têm muito a perder, e Lavigne bastante a defender. É produtora de cinema. Tem uma produtora de shows, CDs e DVDs, e uma editora musical. Recentemente trabalhou com Baby do Brasil, Seu Jorge, Criolo e Emicida (aposto um bombom que tudo é financiado via leis de incentivo). Agencia o ex-marido, Caetano Veloso, e é mãe de dois herdeiros do cantor. Segundo contou em uma entrevista, sua relação com Caetano começou aos 13 anos, quando transou com o cantor, que fazia 40. Enfrentou a oposição do pai, advogado eminente, para ir morar com Caetano aos 16, e passou a tomar conta de sua carreira aos 17. Sua vida renderia uma biografia não-autorizada instigante - que jamais leremos, se depender dela.

Vale comparar a posição desses dinossauros da MPB com o caso recente de uma biografia que deu o que falar. Bem a tempo para o julgamento final do mensalão, Otávio Cabral, editor da Veja, lançou uma biografia de José Dirceu. O livro mereceu capa da própria Veja. Outro jornalista, e ex-editor da revista, Mário Sérgio Conti, eviscerou o livro nas páginas da Piauí. Listou dezenas erros de informação cometidos pelo autor, que não retrucou. A biópsia repercutiu. O livro saiu rapidamente das listas dos mais vendidos.

Isso não significa que Dirceu é flor que se cheire. Nem que Conti tenha defendido Dirceu. E muito menos que Conti seja petista. Ele só apontou os muitos erros factuais do autor. Seriam base sólida para uma ação indenizatória de Dirceu contra Otávio Cabral e sua editora. Talvez merecessem perder. Não por fazer uma biografia crítica. Mas porque o autor ignorou princípios básicos de apuração e precisão. O livro continua à venda. E é assim que deve ser.

Eu sou pela liberdade absoluta de expressão, à la americana. Lá se permite a publicação de manifestos mentirosos, libelos racistas e arte escandalosa. E permite um desenho como South Park, que retrata poderosos e famosos como vermes e cretinos, sem dó nem limites. Ah, e você ficaria feliz de fazerem uma biografia não-autorizada sobre você, André? De jeito nenhum (não que eu corra o risco; jornalista não é assunto que venda livro). Como todo mundo, tenho vaidade, memória seletiva, e detestaria ver meus poucos desafetos fermentando calúnias contra mim. Prefiro os amigos jogando confete! Mas as regras da liberdade de expressão têm que valer para todo mundo, ou não valerão para ninguém.

A liberdade de contar a história de pessoas relevantes, do passado e do presente, é preciosa. Seja na imprensa, em livro, vídeo, fotografia ou canção, em reportagem ou arte. Sem ter que pedir licença para ninguém. É contando as histórias que se constrói a História. Roubar este direito é impor o silêncio. Se houver mentira, que o criador responda por isso. Se a verdade doer, ótimo.

A hipocrisia é mais escancarada porque os próprios artistas são culpados do "crime" que querem imputar aos biógrafos. Seria fácil listar aqui canções em que citam outras pessoas. Vamos ficar em duas famosas. "Aquele Abraço" - Gil pediu autorização para citar Chacrinha, o Velho Guerreiro? E "Sampa" - Caetano pediu autorização para citar Rita Lee, Mutantes, os irmãos Campos, e aliás para "citar" a melodia de "Ronda", como acusava o autor do clássico, Paulo Vanzolini?

Dá uma certa tentação de lançar uma campanha, pressionando as livrarias para parar de comercializar os CDs desses artistas. Afinal, eles querem proibir a publicação de livros... mas vamos resistir. Os problemas da liberdade se resolvem com mais liberdade, não menos. Ditadura é preto-no-branco, democracia é desafio. Censura é simples e pobre. A liberdade é rica - e complicada.

Leia mais:

Entrevista de Paula Lavigne

Artigo de André Barcinski

Artigo de Luiz Fernando Vianna, do Instituto Moreira Salles

http://r7.com/lt3N

Publicado em 03/10/2013 às 12:15

Os 100 livros favoritos de David Bowie

david bowie Os 100 livros favoritos de David Bowie

A exposição David Bowie Is, retrospectiva da vida do homem, chegou ao Canadá. Seu curador, Geoffrey Marsh, aproveitou para revelar uma lista dos livros favoritos de Bowie. É bem iluminadora. Não há ninguém no rock que ultrapasse a carreira de Bowie em diversidade e influência. Quando se vê o que ele curtiu e curte ler, dá para entender.

A maioria dos livros é dos anos 60 e 70, entre a adolescência e os 20 e poucos anos de Bowie. Natural. Mas as últimas décadas estão bem representadas. Tem romance, ensaio, biografia, gibis. Aqui está a lista, dos mais recentes indo para os mais antigos.

Quantos você leu?

The Age of American Unreason, Susan Jacoby, 2008
The Brief Wondrous Life of Oscar Wao, Junot Díaz, 2007
The Coast of Utopia (trilogy), Tom Stoppard, 2007
Teenage: The Creation of Youth 1875-1945, Jon Savage, 2007
Fingersmith, Sarah Waters, 2002
The Trial of Henry Kissinger, Christopher Hitchens, 2001
Mr. Wilson’s Cabinet of Wonder, Lawrence Weschler, 1997
A People’s Tragedy: The Russian Revolution 1890-1924, Orlando Figes, 1997
The Insult, Rupert Thomson, 1996
Wonder Boys, Michael Chabon, 1995
The Bird Artist, Howard Norman, 1994
Kafka Was The Rage: A Greenwich Village Memoir, Anatole Broyard, 1993
Beyond the Brillo Box: The Visual Arts in Post-Historical Perspective, Arthur C. Danto, 1992
Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson, Camille Paglia, 1990
David Bomberg, Richard Cork, 1988
Sweet Soul Music: Rhythm and Blues and the Southern Dream of Freedom, Peter Guralnick, 1986
The Songlines, Bruce Chatwin, 1986
Hawksmoor, Peter Ackroyd, 1985
Nowhere To Run: The Story of Soul Music, Gerri Hirshey, 1984
Nights at the Circus, Angela Carter, 1984
Money, Martin Amis, 1984
White Noise, Don DeLillo, 1984
Flaubert’s Parrot, Julian Barnes, 1984
The Life and Times of Little Richard, Charles White, 1984
A People’s History of the United States, Howard Zinn, 1980
A Confederacy of Dunces, John Kennedy Toole, 1980
Interviews with Francis Bacon, David Sylvester, 1980
Darkness at Noon, Arthur Koestler, 1980
Earthly Powers, Anthony Burgess, 1980
Raw (a ‘graphix magazine’) 1980-91
Viz (magazine) 1979 –
The Gnostic Gospels, Elaine Pagels, 1979
Metropolitan Life, Fran Lebowitz, 1978
In Between the Sheets, Ian McEwan, 1978
Writers at Work: The Paris Review Interviews, ed. Malcolm Cowley, 1977
The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind, Julian Jaynes, 1976
Tales of Beatnik Glory, Ed Saunders, 1975
Mystery Train, Greil Marcus, 1975
Selected Poems, Frank O’Hara, 1974
Before the Deluge: A Portrait of Berlin in the 1920s, Otto Friedrich, 1972
In Bluebeard’s Castle: Some Notes Towards the Re-definition of Culture, George Steiner, 1971
Octobriana and the Russian Underground, Peter Sadecky, 1971
The Sound of the City: The Rise of Rock and Roll, Charlie Gillete, 1970
The Quest For Christa T, Christa Wolf, 1968
Awopbopaloobop Alopbamboom: The Golden Age of Rock, Nik Cohn, 1968
The Master and Margarita, Mikhail Bulgakov, 1967
Journey into the Whirlwind, Eugenia Ginzburg, 1967
Last Exit to Brooklyn, Hubert Selby Jr., 1966
In Cold Blood, Truman Capote, 1965
City of Night, John Rechy, 1965
Herzog, Saul Bellow, 1964
Puckoon, Spike Milligan, 1963
The American Way of Death, Jessica Mitford, 1963
The Sailor Who Fell From Grace With The Sea, Yukio Mishima, 1963
The Fire Next Time, James Baldwin, 1963
A Clockwork Orange, Anthony Burgess, 1962
Inside the Whale and Other Essays, George Orwell, 1962
The Prime of Miss Jean Brodie, Muriel Spark, 1961
Private Eye (magazine) 1961 –
On Having No Head: Zen and the Rediscovery of the Obvious, Douglas Harding, 1961
Silence: Lectures and Writing, John Cage, 1961
Strange People, Frank Edwards, 1961
The Divided Self, R. D. Laing, 1960
All The Emperor’s Horses, David Kidd, 1960
Billy Liar, Keith Waterhouse, 1959
The Leopard, Giuseppe Di Lampedusa, 1958
On The Road, Jack Kerouac, 1957
The Hidden Persuaders, Vance Packard, 1957
Room at the Top, John Braine, 1957
A Grave for a Dolphin, Alberto Denti di Pirajno, 1956
The Outsider, Colin Wilson, 1956
Lolita, Vladimir Nabokov, 1955
Nineteen Eighty-Four, George Orwell, 1949
The Street, Ann Petry, 1946
Black Boy, Richard Wright, 1945

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Publicado em 02/10/2013 às 09:08

Mau jornalismo e “medicina” ortomolecular: duros de engolir

Michelle Schoffro Cook se apresenta assim: PHD em Medicina Natural Tradicional, com mestrado em Saúde Natural, bacharel em Nutrição Holística, doutora em acupuntura e diplomada em Nutrição Ortomolecular. Também diz que é treinada em diversas modalidades da medicina bioenergética, incluindo Reiki, Cura Reconectiva, Bioressonância, Kinesiologia, Balanceamento do Chakra, Florais de Bach, Aromaterapia, homeopatia e medicina de energia edênica.

Michelle 041 Mau jornalismo e medicina ortomolecular: duros de engolir

FOTO: Michelle Cook

É tudo mandinga. Não existe evidência científica de que nada disso tenha qualquer efeito sobre ninguém. Michelle vive de enganar as pessoas? Talvez ela acredite no poder dessas bruxarias. A canadense se autoproclama "doutora", "nutricionista", e vive de vender livros e "cursos". Vende comida também, comida que supostamente cura você, te deixa mais jovem, energética e linda. Nasce um otário a cada minuto.

O site oficial dela é pura fantasia. Só falta a cuca e o saci-pererê por lá. Você pode não conhecer Michelle, mas arrisca já ter lido a lista com "Os 10 Piores Alimentos do Mundo"? Está por todo canto, em portais, em blogs, rendendo debates nas redes sociais, e gerando matérias na TV. Eu vi pela primeira vez tem uns 15 dias. Semana passada, duas vezes de novo. Fui fuçar. Cheguei a Michelle Cook.

Foi a "doutora" Cook que publicou essa lista, dizendo que os piores alimentos do mundo são hambúrguer, pizza, refrigerante diet etc., já há alguns meses. A primeira versão brasileira que eu encontrei era de uma crítica de gastronomia de jornal. Ela regurgitou a bobajada e ainda soltou essa: " A nutricionista é acima de qualquer suspeita (dá uma conferida no Google)."

Continuei trombando com novas versões dos mandamentos paranóicos da Dra. Cook, até chegar à doutora Liliane Oppermann. Ela reciclou os argumentos de Schoffro no palco do programa da Eliana. Liliane é médica de verdade, vi no seu site oficial. Mas sua clínica não trata cabeça, corpo ou membros. Diz lá que as "especialidades" da clínica são Cirurgia Plástica, Dermatologia, Procedimentos Estéticos, Qualidade de Vida, Suplementação Esportiva, Prática Ortomolecular e Nutrologia. E isso lá é especialidade médica? As duas primeiras, sim; o resto, não.

Liliane é loira e elegante como uma modelo de comercial. Funciona muito bem em programas de tevê. Diferente de Michelle Cook, é médica de fato: divulga seu CRM e que se formou em 2002 na Univás, em Pouso Alegre, Minas Gerais. E proclama que é Diretora da Associação Brasileira de Medicina Ortomolecular.

Sendo médica, e diretora desta associação, é impossível que Liliane não saiba que o Conselho Federal de Medicina decretou que a medicina ortomolecular não existe. É uma resolução de 2010. A íntegra está aqui:

"São destituídos de comprovação científica suficiente quanto ao benefício para o ser humano sadio ou doente, e por essa razão têm vedados o uso e divulgação no exercício da Medicina, os seguintes procedimentos da prática ortomolecular e biomolecular, diagnósticos ou terapêuticos, que empregam:

I)        Para a prevenção primária e secundária, doses de vitaminas, proteínas, sais minerais e lipídios que não respeitem os limites de segurança (megadoses), de acordo com as normas nacionais e internacionais e os critérios adotados no art. 5º;

II)        EDTA (ácido etilenodiaminotetracético) para remoção de metais tóxicos fora do contexto das intoxicações agudas e crônicas;

III)     O EDTA e a procaína como terapia antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para patologias crônicas degenerativas;

IV)   Análise do tecido capilar fora do contexto do diagnóstico de contaminação e/ou intoxicação por metais tóxicos;

V)    Antioxidantes para melhorar o prognóstico de pacientes com doenças agudas, observadas as situações expressas no art. 5º;

VI)   Antioxidantes que interfiram no mecanismo de ação da quimioterapia e da radioterapia no tratamento de pacientes com câncer;

VII) Quaisquer terapias antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para doenças crônicas degenerativas, exceto nas situações de deficiências diagnosticadas cuja reposição mostra evidências de benefícios cientificamente comprovados."

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FOTO: A médica Liliane Oppermann

O Conselho Federal de Medicina foi polido. A Sociedade Americana de Câncer  diz que "não há evidência científica de que apoie o uso da terapia ortomolecular  para a maioria das condições para a qual ela vem sendo promovida". A Associação Médica Americana afirma que a medicina ortomolecular de "mito". A Associação Psiquiátrica Americana diz que ela é "deplorável". A Academia Americana de Pediatria chamou de "seita". E por aí vai.

No livro "Trick or Treatment", elogiado pelo prestigioso New England Journal of Medicine e pela revista Nature, Edzard Ernst e Simon Singh dizem que "o conceito da medicina ortomolecular é biologicamente implausível e não é comprovado por resultados de testes clínicos rigorosos. A medicina ortomolecular também pode ser danosa à saúde, além de frequentemente custar muito dinheiro." Entre os problemas possíveis estão hipertensão, efeitos neurológicos, danos ao fígado, aborto espontâneo, artrite, pedras no rim, e anormalidades congênitas - além de ter efeito sobre a mãe, pode ter efeito terrível sobre o bebê no útero.

É bizarro que médicos utilizem os métodos da medicina ortomolecular, que, como se vê, de medicina não tem nada. Não tem efeito positivo e pode ter efeito muito negativo (diferente da homeopatia, que nunca tem efeito nenhum; Ernst e Singh, aliás, ofereceram dez mil libras para qualquer um que prove que homeopatia funciona; ninguém conseguiu). Mas a palavra "doutor" faz toda a diferença, como sabem a doutora Liliane e a "doutora" Cook. O Conselho Federal de Medicina e os Conselhos Regionais fazem vista grossa. Deixam os ortomoleculares ortomoleculando nos programas de TV.

Mas no final das contas, esses alimentos fazem bem ou fazem mal? Que pergunta besta é essa? Depende - da sua idade, do seu peso, da sua saúde. Depende se o hamburguer é Mcdonald's, depende que sorvete, depende de mil coisas. E principalmente de quantos hambúrgueres, sorvetes e pizzas você consome por semana... meu ponto não é esse. Nem pegar no pé de Michelle e Liliane, ainda que o trabalho das duas me dê uma certa indigestão.

Você pode acreditar nelas e no que quiser. Eu acredito que jornalista tem obrigação de não bancar nada que não possa ser checado e provado. Ver como os colegas brasileiros divulgaram as baboseiras da "doutora" Cook me dá engulhos. Alguém notou esse assunto, achou que ia dar um monte de cliques, cozinhou um textinho, achou imagem pra acompanhar, publicou, divulgou. Esses dez alimentos certamente não são a pior coisa que você pode comer. Mas com certeza o pior pecado para um jornalista é engolir qualquer coisa...

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