Publicado em 02/10/2013 às 09:08

Mau jornalismo e “medicina” ortomolecular: duros de engolir

Michelle Schoffro Cook se apresenta assim: PHD em Medicina Natural Tradicional, com mestrado em Saúde Natural, bacharel em Nutrição Holística, doutora em acupuntura e diplomada em Nutrição Ortomolecular. Também diz que é treinada em diversas modalidades da medicina bioenergética, incluindo Reiki, Cura Reconectiva, Bioressonância, Kinesiologia, Balanceamento do Chakra, Florais de Bach, Aromaterapia, homeopatia e medicina de energia edênica.

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FOTO: Michelle Cook

É tudo mandinga. Não existe evidência científica de que nada disso tenha qualquer efeito sobre ninguém. Michelle vive de enganar as pessoas? Talvez ela acredite no poder dessas bruxarias. A canadense se autoproclama "doutora", "nutricionista", e vive de vender livros e "cursos". Vende comida também, comida que supostamente cura você, te deixa mais jovem, energética e linda. Nasce um otário a cada minuto.

O site oficial dela é pura fantasia. Só falta a cuca e o saci-pererê por lá. Você pode não conhecer Michelle, mas arrisca já ter lido a lista com "Os 10 Piores Alimentos do Mundo"? Está por todo canto, em portais, em blogs, rendendo debates nas redes sociais, e gerando matérias na TV. Eu vi pela primeira vez tem uns 15 dias. Semana passada, duas vezes de novo. Fui fuçar. Cheguei a Michelle Cook.

Foi a "doutora" Cook que publicou essa lista, dizendo que os piores alimentos do mundo são hambúrguer, pizza, refrigerante diet etc., já há alguns meses. A primeira versão brasileira que eu encontrei era de uma crítica de gastronomia de jornal. Ela regurgitou a bobajada e ainda soltou essa: " A nutricionista é acima de qualquer suspeita (dá uma conferida no Google)."

Continuei trombando com novas versões dos mandamentos paranóicos da Dra. Cook, até chegar à doutora Liliane Oppermann. Ela reciclou os argumentos de Schoffro no palco do programa da Eliana. Liliane é médica de verdade, vi no seu site oficial. Mas sua clínica não trata cabeça, corpo ou membros. Diz lá que as "especialidades" da clínica são Cirurgia Plástica, Dermatologia, Procedimentos Estéticos, Qualidade de Vida, Suplementação Esportiva, Prática Ortomolecular e Nutrologia. E isso lá é especialidade médica? As duas primeiras, sim; o resto, não.

Liliane é loira e elegante como uma modelo de comercial. Funciona muito bem em programas de tevê. Diferente de Michelle Cook, é médica de fato: divulga seu CRM e que se formou em 2002 na Univás, em Pouso Alegre, Minas Gerais. E proclama que é Diretora da Associação Brasileira de Medicina Ortomolecular.

Sendo médica, e diretora desta associação, é impossível que Liliane não saiba que o Conselho Federal de Medicina decretou que a medicina ortomolecular não existe. É uma resolução de 2010. A íntegra está aqui:

"São destituídos de comprovação científica suficiente quanto ao benefício para o ser humano sadio ou doente, e por essa razão têm vedados o uso e divulgação no exercício da Medicina, os seguintes procedimentos da prática ortomolecular e biomolecular, diagnósticos ou terapêuticos, que empregam:

I)        Para a prevenção primária e secundária, doses de vitaminas, proteínas, sais minerais e lipídios que não respeitem os limites de segurança (megadoses), de acordo com as normas nacionais e internacionais e os critérios adotados no art. 5º;

II)        EDTA (ácido etilenodiaminotetracético) para remoção de metais tóxicos fora do contexto das intoxicações agudas e crônicas;

III)     O EDTA e a procaína como terapia antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para patologias crônicas degenerativas;

IV)   Análise do tecido capilar fora do contexto do diagnóstico de contaminação e/ou intoxicação por metais tóxicos;

V)    Antioxidantes para melhorar o prognóstico de pacientes com doenças agudas, observadas as situações expressas no art. 5º;

VI)   Antioxidantes que interfiram no mecanismo de ação da quimioterapia e da radioterapia no tratamento de pacientes com câncer;

VII) Quaisquer terapias antienvelhecimento, anticâncer, antiarteriosclerose ou voltadas para doenças crônicas degenerativas, exceto nas situações de deficiências diagnosticadas cuja reposição mostra evidências de benefícios cientificamente comprovados."

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FOTO: A médica Liliane Oppermann

O Conselho Federal de Medicina foi polido. A Sociedade Americana de Câncer  diz que "não há evidência científica de que apoie o uso da terapia ortomolecular  para a maioria das condições para a qual ela vem sendo promovida". A Associação Médica Americana afirma que a medicina ortomolecular de "mito". A Associação Psiquiátrica Americana diz que ela é "deplorável". A Academia Americana de Pediatria chamou de "seita". E por aí vai.

No livro "Trick or Treatment", elogiado pelo prestigioso New England Journal of Medicine e pela revista Nature, Edzard Ernst e Simon Singh dizem que "o conceito da medicina ortomolecular é biologicamente implausível e não é comprovado por resultados de testes clínicos rigorosos. A medicina ortomolecular também pode ser danosa à saúde, além de frequentemente custar muito dinheiro." Entre os problemas possíveis estão hipertensão, efeitos neurológicos, danos ao fígado, aborto espontâneo, artrite, pedras no rim, e anormalidades congênitas - além de ter efeito sobre a mãe, pode ter efeito terrível sobre o bebê no útero.

É bizarro que médicos utilizem os métodos da medicina ortomolecular, que, como se vê, de medicina não tem nada. Não tem efeito positivo e pode ter efeito muito negativo (diferente da homeopatia, que nunca tem efeito nenhum; Ernst e Singh, aliás, ofereceram dez mil libras para qualquer um que prove que homeopatia funciona; ninguém conseguiu). Mas a palavra "doutor" faz toda a diferença, como sabem a doutora Liliane e a "doutora" Cook. O Conselho Federal de Medicina e os Conselhos Regionais fazem vista grossa. Deixam os ortomoleculares ortomoleculando nos programas de TV.

Mas no final das contas, esses alimentos fazem bem ou fazem mal? Que pergunta besta é essa? Depende - da sua idade, do seu peso, da sua saúde. Depende se o hamburguer é Mcdonald's, depende que sorvete, depende de mil coisas. E principalmente de quantos hambúrgueres, sorvetes e pizzas você consome por semana... meu ponto não é esse. Nem pegar no pé de Michelle e Liliane, ainda que o trabalho das duas me dê uma certa indigestão.

Você pode acreditar nelas e no que quiser. Eu acredito que jornalista tem obrigação de não bancar nada que não possa ser checado e provado. Ver como os colegas brasileiros divulgaram as baboseiras da "doutora" Cook me dá engulhos. Alguém notou esse assunto, achou que ia dar um monte de cliques, cozinhou um textinho, achou imagem pra acompanhar, publicou, divulgou. Esses dez alimentos certamente não são a pior coisa que você pode comer. Mas com certeza o pior pecado para um jornalista é engolir qualquer coisa...

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