Publicado em 28/10/2013 às 14:51

Lou Reed colhe o que plantou

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Lou Reed cantava o prazer das drogas injetáveis em 1966. Morreu em 2013, fígado detonado. Viveu mais que o provável, pelo mal que fez a si mesmo. Talvez tenha vivido mais que moralmente aceitável, considerando os muitos que inspirou a fazer merda também.

Garoto judeu, bissexual e durango, aos 17 anos foi tratado com terapia de choque. O tratamento eletrificou seus pesadelos? Descobriu um caminho na arte de vanguarda, e na arte de vanguarda que qualquer um podia fazer, o rock. Não rock qualquer: rock além do limite do bem e do mal. Ninguém se esforçou tanto para encontrar no perigo, glamour - e um bom refrão. Para fazer barra pesada um ideal de vida, sedutor e inevitável. Esse era Lou, e essa era sua banda, o Velvet Underground, de que ele era o coração. Velvet, que na época poucos ouviram, e cada um que ouviu montou sua própria banda. Velvet que hoje poucos ouvem, porque organicamente integrado ao que entendemos como "rock" e "risco".

O Velvet inspirou 99% dos roqueiros posteriores que, como Lou, tinham algo a gritar - Bowie ou Sid Vicious, Patti Smith ou o Jesus & Mary Chain ou, bem, a lista jamais terá fim. Com o fim da banda, seguiu encrencando. Fez discos que eram só distorção de guitarra. Seus primeiros álbuns solo passeiam chapados pelo lado negro da força - vício, putaria, miséria, revolta. "Walk on the Wild Side", seu único hit, descreve a via crucis de jovens drogados e prostituídos que orbitavam a cena artística de Nova York.

Seu único bom disco mais alegrinho, Coney Island Baby, foi inspirado, segundo o jornalista Lester Bangs, por uma figura de "longo cabelo negro, barbada, grotesca, abjeta... como algo que poderia ter se arrastado implorando para dentro da casa, quando Lou abriu a porta pra pegar o jornal ou o leite, pela manhã." Era Rachel, ou Tommy, travesti e amante de Lou, que explicou: "Rachel não tinha o menor interesse em quem eu era ou o que eu fazia. Nada impressionava ela. Pouco tinha ouvido minha música, e quando ouviu também não deu a mínima".

lourachel Lou Reed colhe o que plantou

Mais sobre Lou e Rachel aqui.

Lou envelheceu sem amadurecer, nem fazer sucesso. Batia nos quarenta quando viu que os punks faturavam firme, vomitando o que ele fazia 15 anos antes. Se metamorfoseou em rocker machão e malhado. Tirou Rachel da biografia, virou garoto-propaganda de motocicleta, fez duetos com qualquer um, tocou para o papa, por Mandela, pela Anistia Internacional. Ressuscitou o Velvet para excursionar com o U2. Ganhou uma graninha e atestado de ícone no Rock'n'Roll Hall of Fame.

Vovô ranzinza, tornou-se figurinha fácil nos saraus vanguardistas de Nova York, casado com a também artista, tiazinha e inofensiva, Laurie Anderson.  O Lou de outros tempos ainda mostraria dentes afiados em dois discos: o jornalístico New York, em 1989, e o belo Songs for Drella, de 1990, sobre Andy Warhol, co-assinado com o parceiro no Velvet, John Cale. As últimas duas décadas, bem, que artista sobrevive pelos últimos anos de sua obra?

Lou merecia mais fama, mais dinheiro, um verbete maior nas enciclopédias do futuro? Merecia ter vivido mais que 71 anos? O melhor de Lou Reed permanecerá, doce e assustador como sangue na calçada: algumas canções, muitos herdeiros, e o disco de estreia do Velvet Underground, imortal, atemporal. Lou morreu cedo, não fará mais falta, e viverá para sempre. Recebe tanta justiça quanto podemos aspirar: colheu o que plantou.

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