Publicado em 01/11/2013 às 13:28

Quer ver mulher feia e brega? Vá ao São Paulo Fashion Week (estrelando Gisele)

gisele Quer ver mulher feia e brega? Vá ao São Paulo Fashion Week (estrelando Gisele)

Gisele, de perto

Uma vez eu passei uma tarde no São Paulo Fashion Week. Nunca vi tamanha concentração de mulher horrorosa e brega. As feias na passarela. As bregas, "desfilando" pelos corredores, emperiquitadas, maquiadas demais, perfumadas demais. É um desfile de horrores, indescritível. Só indo pra ver, o que recomendo, como experiência antropológica. Mas não me convide para voltar.

Imagino que especialistas em design, tecidos e tal encontrem muitos prazeres de ir a eventos como este. Ou experts na história da moda. E, claro, há o lado circo da moda, como há o circo da Fórmula 1, do rock'n'roll, ou de Brasília. Quem não gosta de rock acha tudo igual, quem não curte Fórmula 1 não entende como alguém pode ficar assistindo os caras dando aquelas voltas infinitas.

Não tenho o menor interesse por moda nem roupa. Me visto como aos 15 anos, fora "farda", roupa de trabalho, jeans-camisa de manga comprida-sapato-cinto. Compro aos pares ou trios, sempre nas mesmas lojas, a camisa entrou? Vê uma preta, uma azul e uma bege. Não tenho gravata, não aprendi a dar nó e nunca aprenderei. Se dependesse de mim, passava o resto da vida de bermuda, camiseta e descalço.

Sou, portanto, o cara menos indicado do mundo para dar palpite sobre o São Paulo Fashion Week: não entendo nada de moda. Mas entendo um bocado de mulher. Nasci em 1965. Estou de olho nas moças desde a Giovanna, do Carrossel, e a Rose di Primo, na capa da Manchete. Sei o que é uma mulher bonita. Entendo que não se resume a medidas, proporções, alturas e larguras. Nem a cor, cultura ou idade. Já viajei aos cinco continentes, e compreendi que beleza é contexto. Já aprendi que uma mulher pode não ser bonita e pode ser bela, e uma mulher pode ser feia e ser muito sensual.

Portanto uma mulher pode ser esquálida, pálida e desconjuntada e pode ainda assim ser bonita, e pode ainda assim ser atraente para um homem. Mas quando você vê um monte de mulheres assim, todas iguais, e mocinhas além do mais, é chocante. Certo que elas não estão na passarela para serem vistas; as estrelas de um desfile são as roupas. Mas acabam estabelecendo um padrão mórbido, que influi na vida de muitas meninas e mulheres. Porque mexe com a percepção que cada mulher tem de si mesma.

Há uma piada velha de que as modelos mulheres são sempre feinhas, e os modelos homens são sempre bonitos, porque os estilistas são todos gays. É duro não matutar sobre o assunto quando você vai a um evento de moda. Os homens são bonitos, fortes e másculos, sejam homo ou hetero. São o ideal de homem. As mulheres não são o ideal de mulher, de jeito nenhum.

O educativo de ir ao São Paulo Fashion Week é perceber como a imagem que temos das famosas não têm nada a ver com seu aspecto no mundo real.  Imaginamos que as poucas mulheres que estão na passarela para serem vistas fugirão do padrão campo-de-concentração do resto. É impressão falsa. De perto, essas superstars são também magricelas, ainda que se permitam uma corzinha de saúde e peitos (normalmente de silicone). É o caso de Gisele Bündchen.

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Gisele: magreza como padrão de beleza

gi 2 Quer ver mulher feia e brega? Vá ao São Paulo Fashion Week (estrelando Gisele)

Gisele é considerada "exuberante"

Gisele é feia? Não. Ficaria mais atraente com mais uns quilinhos nos lugares certos? Na opinião de 99,99% dos machos do planeta Terra, sem dúvida nenhuma. Mas a cobertura deste São Paulo Fashion Week é todo sobre a volta de Gisele, e como ela está maravilhosa, divina etc. Esses dias outras modelos famosas voltaram ao tema. Isabela Fiorentino disse que modelo tem que ser magra mesmo, e é isso aí. E é isso aí mesmo: garota que quer ser modelo tem que passar fome. É o que o mercado exige. Mas por que o mercado exige isso?

Em entrevista ao R7, Izabel Goulart nem percebe como se contradiz. Ela fala que é magrinha porque toda sua família é assim. "Tenho que ser feliz com minha própria pele. Esse é o corpo que Deus me deu e sou feliz assim." E depois desfia todas as atividades que faz pra se manter: malhação, pilates, kickboxing. E não comenta o óbvio: dieta radical.

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Izabel é considerada gostosona, tanto que posa para a Sports Illustrated

Essas modelos brasileiras são famosas por serem carnudas, pelos padrões do mundo da moda. Tanto que várias são parte do time de Angels, modelos de lingerie, da grife Victoria's Secret. A mais conhecida é Alessandra Ambrosio.

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Alessandra: exuberante?

Não são só as modelos. Quando fui ao São Paulo Fashion Week, vi muitas atrizes famosas. Dizem que televisão engorda, e é verdade. De perto, elas são todas muito mais secas, e muito menos atraentes. Esses dias estava traçando uma picanha perto de casa, restaurante desencanado na Vila Madalena. Entrou uma atriz brasileira bem famosa, com uma amiga. Vestia roupa bem normalzinha, era um sábado à tarde. Cadê o bocão, as curvas, o sex-appeal? Era só mais uma moça mirrada. Almoçou - pouco - e foi embora. Ninguém reconheceu. Mas toda brasileira quer ser como as estrelas da TV...

Não sou bobo de defender um padrão único de beleza para mulher. Seria muita pobreza de espírito, e pelo contrário, quanto mais diversidade, melhor para os olhos e para nosso caldo genético. Uma razão porque o Brasil tem tanta mulher bonita é justamente a variedade e a miscigenação. É possível uma mulher ser magérrima, ou fortona, e linda. Mas esses padrões que vêm se afirmando no país são bizarros - tanto essa magreza esquizofrênica, quanto seu oposto, as musculosas paquidérmicas de reality show.

E é impossível, porque a mulher normal é normal, estuda, trabalha, tem filho, não vive de ser um esqueleto ambulante. Aí é essa neura miserável, que massacra quase toda mulher que eu conheço. Estão todas sempre de regime, e sempre descontentes com seus corpos. Todas as capas de revista são sobre como emagrecer, e trazem famosas da TV de biquíni, magérrimas e melhoradíssimas pelo Photoshop. E toca vender livro da dieta, remédio pra dieta, suplemento de não sei o quê. E agora é o sopão, e depois o Dukan, e o novo milagre ortomolecular pra enganar as trouxas. Ou, alternativamente, suplemento, bomba e academia.

Se eu pudesse dizer uma coisa no ouvido de cada brasileira é: relaxe. A mulher fica mais bonita quando à vontade no seu corpo, e caprichando um pouco para nos agradar, seduzir, encantar. Ah, e a missão da mulher por acaso é ficar bonita para o homem? Claro que não. Mas agradecemos de coração.

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