Publicado em 11/11/2013 às 11:59

Nunca houve uma diva gay tão insípida e inofensiva quanto Lana Del Rey – mas podia ser pior

Maravilhosa. Linda. Poderosa. Fofa. Incrível. Passei meia hora ouvindo superlativos sobre Lana Del Rey, após seu show no Planeta Terra. Eu não tinha escolha. Estava sozinho na fila da cerveja, me prometendo nunca mais ir a festivais. E pensando em como os gays, e os ícones gays, mudaram.

É isso que Lana é: ícone. Não sabia, descobri lá. Pensei que era queridinha dos moderninhos e só. Mas seu show foi o mais aplaudido e curtido. Seus fãs são homens gays e meninas lésbicas, a diferença de idade marcante. Os homens vêm em dois modelos: marombados e ursos (gordinhos e peludos). As meninas estão entre o colegial e a faculdade, e se dividem entre assumidas e precisando de um empurrãozinho.

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Brincadeira. Nem tanto. Lana tem outros fãs. Mas os e as gays eram 90% da fila da cerveja, que não acabava. Esses festivais sempre dificultam pra gente beber. Nem tem destilado. Os organizadores não querem que a garotada vá parar no ambulatório, entendo, mas podiam organizar um bar de gente, só para senhores de cabelo branco. Rock, só com lubrificação.

Felizmente estava no meio do show do Beck, paradeira só pra fãs, entre o começo e o fim animados. Então eu estava lá quarando, e ouvindo as fanzocas e os fanzocos se derreterem por Lana. Eu vi as primeiras cinco músicas do show de Lana, sem prestar atenção, conversando com os amigos. Não tem no que prestar atenção, se você está fora do público-alvo. Lana Del Rey é ícone perfeito para a geração Selfie-Instagram — pose, filtro vintage e likes dos amigos. Lana não é a primeira moça desprovida de talento ou carisma que se torna estrela, mas é das mais desmilinguidas.

E estrela é o que ela é. E "role model", alguém que as meninas gostariam de ser. Anos atrás aprendi esse termo, sandalinhas, para diferenciar lésbicas jovens e bem femininas do clichê mulher-macho-sim-senhor, "sapatão". Agora Miss Sandalinha faz escova e faz a fofa. Quer ser / ter Lana Del Rey. Quer usar coroa de flores na cabeça, ter narizinho de modelo, ser uma insípida, premeditada, inofensiva.

Passado o show do Blur (quem diria, eu gosto do Blur) e uma noite de sono, reflito agora sobre as vantagens do Planeta Terra 2013. Os shows começaram na hora, acabou cedo, e o banheiro era limpo. Como não deu pra beber direito, não tive ressaca nenhuma. Acordei oito da matina de domingo, e agora, 9h39, termino este post dominical, meu primeiro e, espero, último (de castigo pelo excesso de produtividade, uma queda na internet da minha casa atrasou 24 horas a publicação deste texto).

lana 2 Nunca houve uma diva gay tão insípida e inofensiva quanto Lana Del Rey   mas podia ser pior

Outra virtude dos festivais contemporâneos: o preconceito, se há, não se impõe. Primeira vez que eu entrei em um estádio para ver um show, 1980, Queen no Morumbi, dois homens ou mulheres namorando apanhavam na certa. Rock in Rio, 1985, idem. Hoje o preconceito contra gay, além de ser imoral, é ilegal. Donde que gays podem ser absolutamente gays em público, inclusive me aporrinhando com comentários deslumbrados sobre Lana na fila do bar. Certos eles, certo eu.

E as meninas lésbicas em 2013 têm Lana Del Rey para idolatrar. Grande avanço, bem melhor que antigamente. Nos anos 80, eu morava do lado de um bar para lésbicas. Todo sábado de madrugada a trilha sonora era Joana, Simone, Ângela Ro Ro e Rosana. Eu virava a noite na rua, só pra não ouvir Como uma Deusa ecoando pela milionésima vez até o 12º andar. As sandalinhas não sabem a sorte que têm.

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