Publicado em 12/11/2013 às 17:21

A Guerra Pela Internet: o Marco Civil, os investimentos nacionais na rede, e as respostas do Comitê Gestor de Internet

A discussão sobre o Marco Civil da Internet continua, e se prolonga para após sua votação. O assunto é complexo, e tema de uma série de textos neste blog, sempre com o título começando com "A Guerra Pela Internet".

Por isso, ouvi duas pessoas fundamentais do NIC.Br, que é o braço operacional do Comitê Gestor da Internet. Relembrando meu post anterior:

“O Comitê Gestor da Internet no Brasil é a entidade responsável por estabelecer estratégias para o desenvolvimento da rede no país. É formado por representantes do governo, do terceiro setor, do setor privado e de organizações sociais. São 21 membros que compõem o comitê, sendo 12 da sociedade civil e 9 do governo. Representações das operadoras de telefonia, responsáveis pelo acesso, estão no órgão. O braço operacional do CGI.br é o NIC.br, presidido pelo Demi Getschko, que executa as resoluções do comitê. Há um coordenador da entidade, Virgílio Almeida, que é Secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.”

Este vídeo ajuda a explicar melhor sobre o CGI.br

Ou seja: muito do que a internet brasileira é, e do que será a ser, e das muitas mudanças que está sofrendo e sofrerá no futuro, passam de alguma maneira pelo CGI e pelo NIC.br e por Demi Getschko. Por isso, enviei uma pá de perguntas para o CGI. Eles responderam a maior parte, Demi e Milton. As respostas estão abaixo.

 

maxresdefault A Guerra Pela Internet: o Marco Civil, os investimentos nacionais na rede, e as respostas do Comitê Gestor de Internet

Demi Getschko

O governo americano anda espionando as comunicações do governo brasileiro e outros governos, com a ajuda de grandes empresas americanas de internet. Essa espionagem levou Dilma Roussef a cancelar uma viagem aos EUA. Como os EUA fazem isso? Porque e como essas empresas colaboram?

Isso pode acontecer em diversos níveis. No nível da infraestrutura, quem abriga grandes centros de comutação de tráfego tem, intrinsecamente, maior possibilidade de acesso físico ao que passa nos grandes roteadores. Claro que é mais fácil se os operadores de tráfego colaborarem. No nível de equipamentos também há possibilidade da existência de "backdoors" (há, até, em alguns casos "recomendação" para que sejam fabricados prevendo a "porta de monitoramento").

Também provedores de servidos e armazenadores de dados podem ser fontes de "vazamento". Se houver decisão judicial do país em que eles estão para que abram os dados, com certeza abrirão. Pode ser que colaborem sem mesmo ordem judicial mas, em geral, negam que façam isso...

O governo vem abraçando as propostas do Comitê Gestor da Internet, no sentido de garantir uma autonomia maior da internet brasileira? Quais são elas?

A internet é uma rede colaborativa e interligada. Não há "autonomia" da rede, além do que é aplicável em termos de legislação nacional. O que se deve buscar é garantir a neutralidade da rede, a proteção dos seus participantes (na medida do possível em cada legislação nacional) e a responsabilização adequada dos atores da cadeia. É com esses princípios que o Marco Civil trabalha e é isso que está descrito no "decálogo" do CGI.

Dilma, e agora o presidente Lula, apoiaram publicamente a posição do CGI, que é que a governança da internet deve ser global e não tão concentrada nas mãos dos EUA. Mas o sistema de governança atual da internet garantiu um crescimento global rápido, com milhões de novos usuários a cada mês, gerando negócios e valor. O que há de errado com o sistema atual?

Não há nada de errado com o sistema de governança atual. O que se quer é preservar sua neutralidade e colaboração, protegendo os internautas. Certamente há assuntos em que a cooperação entre governos é importante e há aspectos a serem aperfeiçoados. Mas os problemas atuais não se devem às falhas na governança e sim a ações indevidas ou ilegais de componentes da rede, sejam governos ou empresas.

Na prática, não existe governança global em finanças, no comércio, na área militar. O que existem são alguns acordos, que são ignorados pelos países poderosos quando interessa para eles; e a ONU, que é um fórum de debates, mas sem poder executivo. Como funcionaria na prática essa governança global da internet?

Acho que a "governança" da Internet deve se basear na colaboração e na interação dos diversos setores que compõem a rede. Claro que há tópicos (como o combate a crimes e à espionagem) que podem necessitar de acordos e colaboração entre governos. Mas, no geral, a rede deve ser o mais desregulamentada possível.

Numa situação de governança global, considerando que a maioria dos países tem legislação bem menos liberal que a dos EUA, não corremos risco de censura à internet?

Exatamente para não correr esses riscos é que penso não ser necessária nenhuma regulação "pesada" na rede. Quais os problemas que temos? O que pode ser assunto de acordos? É nessa linha que se deveria seguir.

Dilma anunciou medidas para proteger a privacidade dos brasileiros da espionagem americana, em quatro áreas: aumentar a produção de banda, a conectividade internacional, e encorajar a produção de conteúdo doméstico e de equipamento produzido no Brasil.

Sim. É basicamente aumentar a disponibilidade de banda e a acessibilidade da rede a todos. Aumentar não só a conectividade internacional, mas a diversidade, para não depender sempre dos mesmos "caminhos" físicos. E se possível produzir não apenas equipamentos. Software também pode ser ponto de vulnerabilidade crítico.

Em 2004 o Brasil tinha um IXP (PTT). Hoje, uma década depois, temos 23 - estamos atrás só dos EUA. O que ganhamos com isso, e onde estaremos daqui a dez anos? Existem cinco cabos intercontinentais em construção, ou em planejamento, que conectarão o Brasil com os EUA, mas também com a África e outros lugares - o BRICS Cable ligará o Brasil aos EUA, China, Índia, Rússia e África do Sul. Todos esses sistemas vão proporcionar capacidade maior a custo menor. Porque isso é importante? Isso aumenta a privacidade do brasileiro? Melhor os serviços para o brasileiro?

Os PTTs são a melhor forma de "baldear" tráfego no País, além de diminuir latências e aumentar confiabilidade. Temos que continuar estimulando seu uso. Os pontos de concentração de cabos, onde a informação "no atacado" sai de um cabo submarino e entra em outro, são locais críticos de vazamento de informação, além de serem candidatos a pontos de falha grave no sistema.

Quanto mais alternativas houver, melhor para a Internet no Brasil e para a Internet no mundo. A privacidade do brasileiro é um tema a ser protegido por lei específica. Temos uma lei de dados públicos abertos, mas não temos a que devia ser anterior a ela - a que protege os dados privados. Além disso, há grande trabalho de educação porque em muitos casos nós mesmos somos os que expõem seus dados ao mundo.

milton kashiwakura 01 A Guerra Pela Internet: o Marco Civil, os investimentos nacionais na rede, e as respostas do Comitê Gestor de Internet

Milton Kaoru Kashiwakura, Diretor de Projetos Especiais e de Desenvolvimento do NIC.br.

Por que o Brasil está investindo alto em infraestrutura de tráfego de dados?

O NIC.br, braço executivo do Comitê Gestor da Internet no Brasil, é uma instituição privada sem fins de lucro. Não recebe aporte financeiro do governo. Tem receita própria e investe em projetos que fomentam o desenvolvimento, melhoram e promovem a Internet no país.

O projeto PTTMetro é uma dessas estruturas, que faz com que o tráfego local permaneça local. Traz redução de custo, melhora de qualidade uma vez que os tráfegos ocorrem diretamente entre as redes envolvidas e ajuda a organizar a estrutura de Internet no país. Veja no sitio http://ptt.br a relação de participantes, são mais de 600 redes, que chamamos de Sistemas Autônomos, presentes nesta infraestrutura.

Nosso investimento nas estruturas do PTTMetro se dá em razão de crescimento do número de participantes, de tráfego e também motivado pela Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, no mesmo molde que fez o LINX de Londres, o PTT do Reino Unido.

O Brasil vem investindo em um cabo submarino que nos conecte à Europa, para que uma parte importante do nosso tráfego na internet não passe pelos EUA. Para quê?

Já existe cabo submarino ligando o Brasil à Europa, que está com a capacidade esgotada. O investimento de cabo para outros continentes é necessário para termos uma rede mais robusta. Quando um cabo submarino rompe é normal levar semanas, até meses para reparo, então, quanto mais alternativas tivermos, mais robusta será nossa Internet.

Uma proposta do governo é encorajar os provedores de internet que atuam no Brasil a utilizar equipamento fabricado e projetado no Brasil. O argumento é que equipamento estrangeiro poderia ter portas de acesso secretas, "backdoors", que permitiram o roubo de dados ou a espionagem. Isso faz sentido? Que empresas brasileiras tem equipamentos assim? O custo é semelhante ao de equipamentos estrangeiros?

Não há equipamentos nacionais que atendam principalmente o núcleo da Internet, aquela parte da rede que precisa encaminhar as mensagem em grande volume e com rapidez. Mesma coisa com equipamentos de segurança, de monitoração, de teste. O Brasil precisa ter um programa que nos leve a ter produtos nacionais que atenda essas necessidades e assim produzir equipamentos que eliminem "backdoors".

Finalmente, em um país que ainda tem problemas básicos de saneamento, saúde e educação, faz sentido investirmos tanto dinheiro na internet?

Não trabalho para o governo, mas minha visão é que o governo não está investindo tanto assim em Internet, quem está investindo é a iniciativa privada.

Algumas respostas ficarão para o futuro. Estão neste post, um panorama da discussão. Que continua...

A guerra pela internet esquenta: Marco Civil, NSA, e muitas perguntas sobre o futuro do Brasil na rede

 

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Publicado em 12/11/2013 às 15:58

Meu blog, agora sob nova direção

forastieri4 Meu blog, agora sob nova direção

Dinossauros. Um do jornalismo

A missão deste blog é a mesma. Provocar, mas não barato. Explicar, sem ser chato. Contradizer, mas não no automático. E informar, mas só o que me importa. Seu tema é qualquer um que me inspire, confunda, ou revolte.

Escrevo para ser compreendido, mas principalmente para explicar as coisas para mim mesmo. Por diversão e para desopilar o fígado. Como costumo dizer: pela farra e pela forra.

Mas quatro anos depois da estréia no R7, o blog muda de direção. Não só de estrutura, e de layout, mas de pegada. Não vai virar um blog cheio de listinhas engraçadas, fotos de comida, look do dia e gatinho bocejando.

Mas decidi ter mais coisas curtas e rápidas. Botar não uns três posts monstro por semana, mas além destes colocar uns três posts curtos por dia. Porque presto atenção em um monte de coisas interessantes a cada dia, e acabo não compartilhando no blog, só no Twitter ou Facebook.

Agora vão prioritariamente para o blog, e daqui para as redes sociais.

Os artigos longos continuarão. A amplitude (mas pode chamar de falta de

parâmetro) continua a mesma. Vale tudo, qualquer assunto é assunto. Uma vez por semana, gravarei um videozinho para este Videoblog, que você vê o lado direito da tela. Não sei fazer vídeo, mas internet é mais que texto, e quem tem vergonha de passar ridículo não deveria ter um blog.

Em princípio a idéia do VídeoBlog é ser um espaço de recomendações de boas coisas que encontrei, e que não estão necessariamente à vista de todos. Mas veremos.

Quanto ao visual, mais limpo, bem, ninguém mais aguentava aquele cinza no fundo, né? Agora está tudo mais claro, organizado, e fácil de compartilhar. Essa aparente simplicidade esconde uma sofisticação de arquitetura. Este é o primeiro blog responsivo do R7. Isso significa que suas principais funcionalidades se ajustam automaticamente aos diversos formatos de tela de tablets e smartphones. Experimente acessá-lo num dispositivo móvel, e você verá o que eu quero dizer. Deu um trabalho desgraçado, mas aí está.

Não sei qual o futuro do jornalismo. Sei que não será uno; será múltiplo. O futuro de cada jornalista é criar sua nova missão, sua própria maneira de conectar experiência e experimentação. Daí que o blog passa a ser mais social e mais móvel, os dois principais vetores que movem a comunicação digital hoje. O dono do blog continua acreditando no poder de 23 simbolozinhos, rearranjados todo dia para divertir, informar, seduzir, cutucar e, claro, avacalhar. Veremos no que vai dar.

Você vai me dizendo.

Muito obrigado aos times de blogs e de tecnologia do R7, e aviso os navegantes: agora vou querer mudar a tralha toda, todo ano...

Publicado em 12/11/2013 às 08:56

O tufão nas Filipinas e os caixões do papa Francisco

As Filipinas são sete mil ilhas. É o único país católico da Ásia. A população é 90% cristã, 80% católica, uns 10%  de muçulmanos, várias etnias. O nome do país é homenagem ao Rei Felipe II. Foi "descoberto" pelos espanhóis no século 16. Naturalmente, tinha gente morando lá quando os soldados e os padres desembarcaram. Foi todo mundo escravizado. Depois, batizado. A população ganhou sobrenomes espanhóis, distribuídos a esmo.

A economia cresce, a população é pobre - lembra algum lugar? Quase cem milhões de habitantes. Tem indústria, literatura, cultura. É um país emergente. O Goldman Sachs projeta que será uma das vinte maiores economias do mundo em 2050. Mais de 90% dos filipinos são alfabetizados, tanto homens quanto mulheres, vantagem que o Brasil não tem.

Por enquanto vive-se com muita dificuldade nas Filipinas, como na maior parte do mundo. Boa parte da renda da população depende do envio de dinheiro de imigrantes. Os filipinos vão trabalhar em outros países, economizam, e mandam a poupança para suas famílias. Que, como em todo lugar, investem principalmente para construir e equipar suas casinhas. Que logo caem. Porque as Filipinas estão plantadas no círculo de fogo do Pacífico. Região vulcânica, afeita a maremotos, tufões, inundações. De vez em quando acontece um desastre por lá, previsível, natural.

No último século, as Filipinas se livraram do poder espanhol, e amarraram seu destino aos Estados Unidos. Hoje a população fala, além da língua de sua etnia, inglês (os sobrenomes continuam espanhóis, Aquino etc.). Consequências dramáticas - os americanos apoiaram ditaduras indizíveis por lá. Hoje é uma democracia meio tosca, em construção, como a nossa. A cultura continua única na Ásia, mezzo polinésia, mezzo latina, muito global.

 O tufão nas Filipinas e os caixões do papa Francisco

Moradora de Tacloban observa estragos do tufão / Foto: 11.11.2013/Noel Celis/AFP

Nos três séculos em que a Espanha escravizou a população das Filipinas, extraiu muita riqueza de lá. Você pode ver os resultados em Sevilha, por exemplo, de onde os nobres espanhóis planejavam as viagens dos galeões para o Oriente, passando por Manilla. Você pode ver o resultado principalmente nos altares das Igrejas espanholas.

Isso é o passado, não é? Os filipinos sofrem no presente. A vida, que já é difícil, ficou quase impossível com o tufão Haiyan, que passou por lá na semana passada, matou dez mil pessoas, e destruiu muito o país. Sabe-se lá quantas pessoas estão nas ruas. Não tem água nem comida. Saqueadores correm soltos. O prejuízo está sendo calculado acima dos 12 bilhões de dólares, 5% do PIB do país, e um décimo no máximo será coberto por seguro.

Do Vaticano, o papa Francisco mandou um telegrama ao presidente filipino, e abençoou o país neste domingo: "rezamos em silêncio para os nossos irmãos e irmãs, e procuraremos mandar também ajuda concreta."

As colônias da Nova Espanha foram sempre domínio católico, exercido sem piedade, e seus povos têm séculos de cicatrizes para provar. Compaixão faz bem ao coração. No caso das Filipinas, Francisco deve mais. Não é justiça. É o mínimo. Ontem, o Vaticano anunciou sua ajuda às Filipinas: 150 mil dólares, 330 mil reais. Não paga dez mil caixões.

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