Publicado em 20/11/2013 às 10:38

Eu quero ser negro. Não, eu quero ser branco. Talvez japonês

lou Eu quero ser negro. Não, eu quero ser branco. Talvez japonês

"I Wanna Be Black" é o nome de uma canção de Lou Reed. A letra é o fino da grossura. Fez barulho na época, 1978. Curtindo o feriadão, o Dia da Consciência Negra, lembrei-me dela, e me perguntei pela primeira vez: o que significa "ser negro"?

Para o branco, judeu, classe média que protagoniza a canção, ser negro é um monte de clichês de macheza e preconceito. O que significa de verdade? Bem, tem muito negro no mundo para a gente conseguir responder em uma frase o que é "ser negro". Existe um passado de escravidão, e um presente de exploração, que une a maioria dos negros das Américas, do mundo. Mas cada pessoa é uma pessoa - não consigo ver de outra maneira. Eu sou branco, e não me vejo irmanado com outros brancos. Ou homens. Ou brasileiros. Como diz Hannah Arendt no filme, quando é acusada de não amar seu povo, os judeus: "eu não tenho amor por povos. Eu amo minha família e meus amigos."

Como Hannah, também não vejo os negros que conheço como um grupo, nem os amo ou desprezo coletivamente. Cada um é um. Conheço poucos negros. Tive pouca oportunidade. Havia pouquíssimos negros na minha escola, pública, bairro classe média, nos anos 70; no meu colegial, pago; na USP; nas redações em que trabalhei; na rua em que moro.

Há uma série de vantagens estatísticas em ser branco, no mundo e no Brasil (e mais ainda em ser japonês, aliás). Vivemos mais tempo que os negros, e com mais recursos. Os negros são a maioria dos pobres, os brancos a maioria dos remediados, e a maioria absoluta dos ricos. As pesquisas dizem que muitos negros no nosso país estão ascendendo à classe média. Classe média aqui é um conceito muito vago. É certo que tem menos brasileiros na miséria que há vinte anos. Olhe os indicadores sociais brasileiros e se pergunte: se você pudesse escolher, preferia nascer um brasileiro branco ou negro?

Na prática, vejo pouquíssimos negros nos restaurantes, no shopping, no cinema, nas empresas com que tenho contato e, infelizmente, na escola do meu filho. As crianças que estudam nas escolas particulares convivem pouco com crianças negras. Me ocorre que tem uma coisa que iguala todos os negros: a maneira como são tratados por muitos brancos. O que a gente não conhece, não entende. Fica fácil ter preconceito quando não temos chance de formarmos nossos próprios conceitos. Por mais que os professores malhem todos os princípios certos na cabeça da molecada, nada como vivenciar a diferença no dia a dia.

Por isso é que eu acho que deveria ter cota para estudantes negros a partir do ensino fundamental - e principalmente em escola particular. Para que os negros estudem nas mesmas escolas que os brancos, e tenham oportunidades similares. E porque temo que a novíssima geração de crianças brancas vá crescer tão ignorante do que é ser negro quanto o cara da música do Lou Reed.

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