Publicado em 26/11/2013 às 10:24

Quando pirataria é legal – e quando é imoral (estrelando M.I.A., Batman e Gene Kelly)


dourado Quando pirataria é legal   e quando é imoral (estrelando M.I.A., Batman e Gene Kelly)

M.I.A lançou um novo disco. Eu comprei. Custou 19,99 dólares, uns 46 reais. Baixei legalmente via iTunes. Posso ouvir no computador, tablet, celular. Caro paca. Eu podia ter baixado de graça. Porque paguei?

Não vamos discutir legalidade. Lei regendo conteúdo digital é assim em um país, assado em outro, e difícil de fazer valer em qualquer lugar. E a discussão jurídica neste caso parece que só tem dois lados: a indústria do conteúdo querendo fazer valer leis de copyright impossíveis. E o partido pirata querendo que todo mundo dê o conteúdo sem cobrar.

Estou exatamente nesta encruzilhada. Como cara que consome muito jornalismo, livro, filme, música etc., grátis me parece o preço ideal. Como cara que produz conteúdo profissionalmente desde 1988, o preço ideal é o mais alto possível. Se eu pudesse, lançaria um livro por ano, mil exemplares, mil reais o exemplar. Se você topasse pagar… Vamos cortar o nó górdio. Você que crie seu critério, ou aja sem critérios. Tem que valer para filme, livro, quadrinho, qualquer coisa digitalizável que a gente tenha opção de pagar ou baixar sem pagar. Inclusive software, aplicativos, games.

Difícil encontrar algo imoral  em baixar da internet o novo disco de Paul McCartney, o elogiado New. Muito menos o CD dos Beatles na BBC. Paul tem uma fortuna de mais de um bilhão de dólares. Sean e Julian Lennon também não precisam da sua grana. David Bowie também é riquíssimo, mas comprei o disco dele, antes de ouvir, inclusive, e é bem ruim, nunca mais ouvi. Joguei o dinheiro fora? Fiquei feliz de Bowie voltar a compôr e gravar. Queria que ele soubesse disso.

Vamos ao cinema, assistir ao melhor musical de todos os tempos, Cantando na Chuva. Diretor, atores, compositores morreram há décadas. O filme já se pagou trocentas vezes. Comprei o filme, como comprei, porque a edição é em Blu-ray, tem imagem e sons incríveis, e um monte de conteúdo adicional. Mesma coisa com Pacific Rim, Círculo de Fogo. Curti com meu filho no cinema. Admiro o diretor, Guillermo Del Toro. Escolhemos a edição que tem nove horas de extras. Estamos curtindo devagar. Paguei pela conveniência e pacotão recheado.

gene Quando pirataria é legal   e quando é imoral (estrelando M.I.A., Batman e Gene Kelly)

Gene Kelly, happy again

Acontece  que os estúdios de cinema estão fazendo acordos que permitem que a gente, em vez de pagar pelo filme, pague uma mensalidade e tenha acesso a milhares de filmes. Ao mesmo tempo, cobram caro pelo DVD e Blu-ray de megaproduções de 200 milhões de dólares. No lançamento; um ano depois, valem cinco reais no saldões. Há quem pague o preço cheio, espere para pagar pouco, ou simplesmente não pague. Os que não pagarão já estão na planilha de custos dos grandes conglomerados de entretenimento. Vimos O Homem de Aço este fim de semana, em HD, na Now. Custou R$ 4,90. No cinema, meses atrás, quarenta reais.

As gravadoras seguem o mesmo caminho, cobrar por assinatura. Esses dias ouvi (no rádio!) uma propaganda de um novo serviço que cobra R$ 7,90 por mês, e te dá acesso a 20 milhões de músicas, de artistas brasileiros e internacionais, para ouvir no celular, computador, tablet. 20 milhões de músicas por R$ 7,90! Se as gravadoras topam esse valor microscópico por canção licenciada, ficam com poucos argumentos para esbravejar quando um garoto baixa grátis um CD. Porque pagar R$ 25 por quinze músicas?

Esses acordos por enquanto estão beneficiando mais as empresas que os criadores. Para o consumidor é uma mão na roda, claro. A tendência lógica é o preço cair, cair, e daqui a pouco a gente está pagando um dólar por mês por todos os filmes, livros, gibis e músicas do mundo. E logo depois será de graça. E daí quem vai querer fazer filmes, livros etc.? Vivendo do quê? Arte será hobby, ou movida a mecenato, e vaquinhas dos amigos? Sinuca de bico.

O caso dos quadrinhos é interessante. A maioria dos gibis produzidos no século 20 não rendeu um centavo de royalties para quem os escreveu e desenhou. Era linha de montagem. Quando você baixa da internet as páginas de um gibi do Batman dos anos 70, escrito por Denny O'Neil e desenhado por Neal Adams, está escapando de pagar a Warner, que é dona da DC. A empresa já ganhou muito com Batman, e especificamente com o trabalho de O'Neil e Adams (a recente trilogia cinematográfica tem muitos elementos inspirados em histórias da dupla).

batman Quando pirataria é legal   e quando é imoral (estrelando M.I.A., Batman e Gene Kelly)

Batman beija Talia. Essa imagem zoou com o meu cérebro em 1974

A DC, hoje, tem uma política de pagar participação aos criadores, quando lança encadernados de várias histórias, os Trade Paperbacks. É tipo 10% do preço de capa (que geralmente é 15 dólares). Seria moleza baixar na faixa o primeiro encontro de Bruce Wayne com R'as Al Ghul e sua filha Talia. Optei por comprar um álbum, impresso com papel bacana, e contribuir com a semi-aposentadoria de O'Neil e Adams. Pelo que eles me deram de alegria, foi barato. Vale para R. Crumb ou Enki Bilal. Se você pirateia quadrinhos autorais, está tirando dinheiro diretamente do bolso de um artista que admira, e que raramente está nadando em dinheiro.

Antes de baixar algo grátis da internet, há que prestar atenção em duas questões importantes. Primeira, o criador está vivo? Se o criador morreu há 50 anos, não me sinto tão na obrigação de colaborar para as finanças de seus netos. Segunda, é um criador que me fala à espinha, que corre riscos estéticos, que não está só entregando um produto comercialmente viável? Se é um mercenário fazendo um produto genérico, minha consciência não pesa tanto. Se admiro criador ou obra, se faz um trabalho interessante ou importante, porque não apoiá-lo com meus suados tostões?

Um contra-argumento furado é que só uma parte pequena da grana que desembolsamos vai para o criador. Dos meus US$ 19,99 dólares, M.I.A. embolsou algo como US$ 1,88. A Apple fica com 30% do que pagamos, gravadora e editora outros tantos, e tem muito imposto em cima.

Mas isso vale para tudo. Para a camiseta de sua banda de rock favorita, o boneco do Homem de Ferro, a reprodução de Egon Schiele e a entrada para a Ópera. Vale para cinema, onde você paga para entrar, e ainda paga dez vezes mais do que custaram a pipoca e refri. Se você curte games, imagine: se o primeiro jogo do Mario fosse livre de copyrights, Shigeru Miyamoto não teria nenhum estímulo para criar todos os games incríveis que fez nas últimas décadas.

Sei, você é um durango, não tem como recompensar seus artistas favoritos, e por isso baixa tudo deles pirata. Se é assim mesmo, não te culpo. Algumas coisas estão acima do dinheiro - paixão, por exemplo. Mas será que é assim mesmo? A ocasião faz o ladrão. Na maioria dos casos, não pagamos pelo que está na internet porque é fácilimo baixar de graça. Ponto.

Eu também baixo algumas coisas. Jornalista que disser que não baixa nada está mentindo. Principalmente porque parte do meu trabalho é fuçar. E muito do que me interessa não está  disponível no Brasil quando eu quero ou preciso. É muito legal este acesso a todo o conteúdo do planeta. E tem gente que não tem como pagar de verdade, e é excelente que a população mais carente, uns 80% do planeta, tenha acesso à mesma arte e entretenimento e jornalismo que os 20% mais abonados.

Espero que as leis de copyright avancem. Que criemos modelos novos e melhores de remuneração para toda a cadeia envolvida, do criador ao software ao varejista etc. Veremos. Enquanto isso, não baixo cópia pirata de criadores que admiro, e que estão em atividade hoje. É minha posição moral sobre o assunto. O resto é conveniência, e caso a caso.

Não se trata de obedecer a lei, mas meu próprio senso de justiça. E de defender meu próprio interesse. Fiz minha pequena contribuição para que M.I.A. continue compondo, gravando, provocando. Não quero que sua carreira renda tão pouco que ela decida trocar por outra mais lucrativa. O mundo é mais divertido com ela por perto.

Você pode achar M.I.A., Batman ou Cantando na Chuva três porres. Mas certamente tem seus cantores, diretores, escritores ou game designers favoritos, criadores que fazem o mundo mais bacana para você. Eles não merecem seu apoio e sua grana? Vamos colocar de outra maneira: se o cantor fosse teu irmão, ou escritor seu avô, você comprava ou baixava pirata?

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