Publicado em 23/12/2013 às 14:20

Sucesso de Miley Cyrus vira Bai Bai em versão feita por DJ paraense


O Pará é celeiro de estranhezas popularíssimas. Estranho pra ouvidos do sul. Lá é hit, hit, hit. Muitas são versões de sucessos gringos.

É uma atrás da outra. Essa é do do DJ & produtor Jaloo. Uma versão em português de "Wrecking Ball", sucesso de Miley Cyrus. Virou "Bai Bai".

Como cravou William Gibson: a rua encontra seus próprios usos para a tecnologia. Se for um emaranhado de ruas no meio da selva, melhor.

E com essa: bai bai, 2013!

Jaloo (Bai Bai) por thevideos no Videolog.tv.

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Publicado em 23/12/2013 às 11:45

O futuro do jornalismo: a Batalha de Belo Monte


A Folha de S. Paulo dá um grande passo com a produção da reportagem multimídia Tudo Sobre a Batalha de Belo Monte. É trabalho que une reportagem, fotografia, vídeo, animação, infográficos e amarra tudo em um pacote sólido e sedutor. É o tipo de projeto que requer tempo e investimento, e que faz diferença na vida do cidadão e na percepção que temos de cada veículo.

Como alguns que citei aqui há algumas semanas, esse trabalho sobre Belo Monte é imperfeito. É de se esperar. Surpreende que a parte mais fraca é justamente o texto. É enorme, o que espanta o leitor. E mal encadeado, o que é mais grave. Incrível acertar no atacado, e errar no que a Folha tem mais experiência.

A reportagem começa empilhando dados e números em tom gelado, com fotos distantes, panorâmicas. Não desanime. Conforme você avança, vai começar a conhecer de perto os personagens dessa história - trabalhadores e crianças, índios e prostitutas, o bispo e o engenheiro. Na floresta, no batente, no trânsito e no esgoto, Belo Monte ganha rosto, cheiro, relevância. Não há respostas fáceis ao final da leitura. Não há respostas, ponto. É uma abordagem corajosa, e um problema para a maioria dos leitores. Sou um deles. Continuo com as mesmas duas perguntas que tenho sobre o assunto há anos: Belo Monte deveria ter sido construída? Se não, e considerando tudo que já foi investido e realizado, o que há pode ser feito?

Em 2014 veremos muito mais iniciativas do gênero. Não necessariamente tão épicas. Projetos ambiciosos são sempre muito bem vindos. Mais importante é que esse tipo de jornalismo se torne produção cotidiana das redações de jornais e portais. A justificativa para existência de grandes organizações jornalísticas é a capacidade de investir e investigar, de atrair grandes profissionais, de integrar seus esforços para buscar um resultado maior, importante. Para o resto temos a opinião pessoal de cada um, jorrando pela internet aos borbotões, pelo que valem. Ou militantes com celulares nas mãos, autoproclamados "futuro da mídia", decretando que a imprensa está obsoleta e que o jornalismo tradicional morreu.

Não podiam estar mais errados, como você pode comprovar na reportagem Tudo Sobre a Batalha de Belo Monte (nas versões em português e também em inglês - mais um acerto da Folha).

Aqui duas reportagens interativas bem feitas, do New York Times do Guardian, e mais alguns argumentos porque devemos ser otimistas com o futuro do jornalismo.

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Publicado em 20/12/2013 às 11:42

Algumas canções favoritas de 2013

john grant Algumas canções favoritas de 2013

John Grant

Não são as melhores canções do ano. São umas muito boas que lembrei. Ouço quase só música não-do-ano - delícia viver livre da agenda do momento.

Estas são algumas que vieram ao mundo em 2013.

Red Fang: favoritíssima da casa, a melhor banda de moleque!

Kverletak: a segunda melhor banda de moleque! Direto da Noruega.

A inimitável e imitadíssima M.I.A. lançou seu melhor disco - até agora.

O compositor/produtor/one-man-show Colin Bailey, conhecido como Drums of Death, mandou umas ótimas. Essa é com a Yasmin, True.

Disclosure (com AlunaGeorge) - boas memórias de meu ano no Nation, dançando Inner City...

Ninguém faz progressivo industrial dark viajandão melhor que o Inter Arma.

Falaram muito da Lorde, mas no quesito teen moderninha-retrô, vou de Charli XCX.

Duro escapar do Arcade Fire. Nunca dei a mínima pra banda, mas esse disco é bom de verdade.

Voz nova mais deliciosa: Kelela.

Kanye West: maior que o rap. Yeezus é um discão, Black Skinhead é fora da curva.

E agora: John Grant, Pale Green Ghosts.

Posso te dar um presente de Natal? Ouça o disco completo, aqui: 

http://r7.com/uKCk

Publicado em 19/12/2013 às 10:38

Videozinho muito útil para quem pretende viver de jornalismo


Este vídeo é o registro de um painel que aconteceu no Simpósio Internacional de Música, o SIM São Paulo, no dia 6 de dezembro de 2013. Só pra quem tem muito, mas muito interesse por jornalismo, e por jornalismo musical, e sobre discussões sobre o papel da crítica, e o futuro , e a futura viabilidade econômica do conteúdo e da criação. É você?

Os debatedores são André Barcinski (aqui do R7 e colaborador da Folha), Bruno Dias (Urbanaque), Iberê Borges (Move That Jukebox), José Flávio Júnior (Billboard), Pablo Miyazawa (Rolling Stone) e Sérgio Martins (Veja). Eu foi o mediador. Sou uma porcaria de mediador. Avisei a organização, a turma da Inker insistiu, topei.

Sou da teoria que jornalismo é jornalismo, conteudismo é outra profissão - é propaganda. Não é uma posição popular, e menos ainda entre os mais jovens. Falei demais, como sempre, e me diverti. Independente da minha performance, vários depoimentos ali são bem úteis pra quem trabalha na área.

Depois fui com o Barcinski e o Elson Barbosa, do Herod Layne, do selo Sinewave e da comuna Bizz do Facebook, comer num restaurante sensacional, El Rinconcito Peruano, ali na boca da Cracolândia, na rua Aurora, 451. O restaurante não tem placa na porta, nem parede no último andar. Tem vista para um prédio queimado e abandonado. Peça o ceviche, o chicharrón misto e uma jarra de suco de milho roxo. Comem uns quatro, sai uns 25 mangos por cabeça.

Vale ver o vídeo, particularmente se você pretende seguir a profissão de jornalista. Que é sensacional. E não deixe ninguém te convencer do contrário.

SIM TV : O ATUAL JORNALISMO MUSICAL - A GRANDE MÍDIA E OS NOVOS CANAIS DE DIVULGAÇÃO por thevideos no Videolog.tv.

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Publicado em 17/12/2013 às 13:11

Este Natal, o Brasil ganha o melhor presente: muito mais pobres

fome haiti terremoto reuters HG Este Natal, o Brasil ganha o melhor presente: muito mais pobres

Nos últimos anos, ouvimos sem parar sobre a nova classe média brasileira. É verdade que muita gente deixou a miséria nas últimas duas décadas. Há outras verdades. Tanto malho e tanto marketing sobre a ascenção social dos brasileiros mais pobres mascaram uma verdade bem cruel. Que para ser enfrentada, precisa ser enxergada. A partir de agora, não vamos mais conseguir tirá-la do nosso campo de visão.

Até hoje, as empresas de pesquisa usavam um modelo chamado Critério Brasil para classificar os domicílios brasileiros. Agora, as 180 empresas reunidas na Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) vão aposentar esse modelo. Vão usar outro bem melhor. O antigo se baseava exclusivamente no poder de compra das pessoas. O novo inclui muitos indicadores além da posse de bens. São 35 indicadores, incluindo coisas como acesso a rede de água, esgoto, rua pavimentada, nível de educação do chefe da casa, número de empregados domésticos. Considera também a região do domicílio. Afinal, vive-se melhor com dois mil reais no interior de Sergipe do que no Rio de Janeiro. Enfim: é muito mais amplo e preciso.

Em 2014 os principais institutos de pesquisa, como Ibope, Nielsen, Ipsos e Data Folha, passarão a usar este novo critério. Foi desenvolvido por dois professores de marketing, Wagner Kamakura (da Rice University) e José Afonso Mazzon (da FEA - USP). Ele divide a população em sete "estratos socioeconômicos". Mas vamos chamar de sete classes: A, B1, B2, C1, C2, D, E.

1 Este Natal, o Brasil ganha o melhor presente: muito mais pobres

José Afonso Mazzon

Em entrevista à repórter Cynthia Malta, do Valor, o presidente da Abep, Luís Pilli, afirma que com o novo modelo, a parte inferior da pirâmide - as classes C2, D e E - "será maior que hoje... estamos vendo uma diminuição nas classes de menor renda, mas em velocidade inferior do que gostaríamos". Esta parte mais pobre do Brasil equivaleria a 58% dos domicílios brasileiros. Pelo modelo usado hoje, o Critério Brasil, essa fatia era de 41,4%. Segundo Mazzon, o número de pobres no país é maior do que se imagina: "a nova classe média não é tão grande assim como se costuma divulgar".

Como se dividem os domicílios brasileiros Brasil, segundo o novo modelo de divisão de classes:

A (2,8% da população): Renda mensal média do domicílio de R$ 17.603,00 B (3,6%): R$ 10.055,00

B2 (15,2%): R% 4.783,00

C1 (20,6%): R$ 2.745,00

C2 (20,6%): R$ 1.463,00

D (22,8%): R$ 1.019,00

E(14,4%): R$ 673,00

Os números gritam a miséria de um país rico. Outros indicadores do estudo falam mais alto. Abaixo das classes A e B1, despenca o nível educacional. Rua pavimentada é luxo para muitos brasileiros. Rede de esgoto só chega a 37,9% da classe D e 9,5% da classe E. Segundo Kamakura e Mazzon, 47,6% dos lares brasileiros não têm acesso a uma rede pública de esgoto. Quase metade das casas do país!

A dupla escreveu um livro, Estratificação Socioeconômica e Consumo no Brasil. Neste site, você pode comprar o livro, ver um resumo dele em 34 slides, e até fazer um teste para verificar a que classe pertence.

O trabalho de Mazzon e Kamakura foi escolhido o melhor estudo sobre marketing em países emergentes em 2012 pelo Marketing Science Institute. Mesmo assim, e apesar dos professores oferecerem seu trabalho gratuitamente para o governo federal, ele foi rejeitado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), órgão encarregado de pensar em estratégias para o futuro do país. A metodologia dos professores foi rejeitada pela SAE, que continua usando um critério único para dividir a população, a renda.

2 Este Natal, o Brasil ganha o melhor presente: muito mais pobres

Wagner Kamakura

Apesar da estratégica miopia da SAE, o impacto deste novo modelo será muito grande. Todas as empresas passarão a usar o modelo dos professores. Essa nova visão do Brasil guiará investimentos e ditará prioridades. De marketing, de produção, de comunicação. E tem potencial para ditar também novos rumos políticos para o país. Com ele, passamos a enxergar com mais nitidez o Brasil verdadeiro. Vemos um Brasil que conseguiu aumentar a capacidade de consumo de seu povo, sim, mas onde quase 80% dos domicílios ainda tem renda abaixo de R$ 2.745,00. E um Brasil que apesar da nova TV, liquificador e celular (e abençoados sejam), ainda é um país de analfabetos ou quase.

Os professores Mazzon e Kamakura merecem nossa gratidão. A verdade é sempre o melhor presente, e chega a tempo para o Natal. A verdade é que nas classes C, D e E, quase 160 milhões de brasileiros, a luta pela sobrevivência é diária. O estudo escancara a maneira vergonhosa como são geridos nosso país, estados, municípios. Explicita o desperdício dos nossos recursos em estádios, benesses e corrupção. Constrange a imprensa a deixar sua torrezinha de marfim e retratar o país como ele é. Joga na nossa cara a nossa própria insensibilidade. Nós, que aprendemos desde cedo a desviar os olhos. Nós, que somos elite só por ter esgoto - e precisamos agora ter a coragem moral de meter a mão na merda.

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Publicado em 12/12/2013 às 13:13

Como mudar o Brasil hoje: pelo fim imediato das doações de empresas para campanhas eleitorais

Você fez alguma doação para partidos políticos na última eleição? Conhece alguém que fez? ... Continue lendo


Você fez alguma doação para partidos políticos na última eleição? Conhece alguém que fez? Eu não. Mas o setor da construção civil doou R$ 638,5 milhões. A indústria, R$ 330 milhões. O comércio, R$ 311 milhões. O setor financeiro doou R$ 109 milhões. E é por isso que os políticos trabalham prioritariamente para as construtoras, a indústria, o comércio e os bancos. E não para você e nem para mim.

Esses números acima são dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral. Em 2012, as doações ultrapassaram R$ 6 bilhões. A maior parte foi feita por empresas que fazem contratos com órgãos públicos ou disputam licitações. Naturalmente, esperam receber seu investimento de volta, e com dividendos. Os "clientes" dos políticos deveriam ser seus eleitores. Mas na verdade são os poderosos que financiam suas campanhas.

Quer saber quem levou mais dinheiro? Os grandes contribuem com todos os partidos políticos, claro. Segundo reportagem de Juliano Basile e Maíra Magro para o Valor, as três empresas que mais "investiram" em 2012 foram as construtoras Andrade Gutierrez (R$ 88,1 milhões), Queiroz Galvão e OAS (que contribuiu com R$ 1 milhão para a candidatura de Fernando Haddad e R$ 750 mil para seu rival José Serra, veja só). O partido que levou a maior fatia foi o PT, naturalmente, porque tem a chave do cofre federal. Seguido por PMDB e PSDB. São os partidos que controlam os maiores orçamentos do país.

E é por isso, por exemplo, que o Brasil está investindo toda essa dinheirama em estádios de futebol, para alegrar as construtoras. Ninguém sabe exatamente quanto; há quem garanta que o investimento público total, até a Copa, vai passar de R$ 40 bilhões. É por isso que as cidades crescem caoticamente. É por isso que os bancos têm lucros recordes, ano após ano. É por isso que  vivemos como vivemos. Porque os recursos públicos, que deveriam ser de todos, servem em primeiríssimo lugar ao setor privado. É o banquete dos bacanas, e as quirelas são jogadas ao zé-povinho, um cala-boca aqui, uma esmolinha acolá.

O típico político brasileiro não passa de um empregadinho dos grandes empresários. Certo que em qualquer canto do planeta os poderosos se ajudam. O melhor remédio para isso é ter poderosos menos poderosos, seja no setor público ou privado. Por exemplo: empresas dirigidas por executivos profissionais, que têm que prestar contas e podem perder o emprego, fazem menos estrago que empresas familiares. Por exemplo: países com taxação alta sobre fortunas e heranças não criam impérios multigeracionais. Por exemplo: governos que podem cair com um voto de desconfiança, como no parlamentarismo, são mais frágeis que no presidencialismo, e portanto melhores. Exemplos não faltam. Existem muitas leis pelo mundo afora que comprovadamente minoram a lambança e arrogância dessa gente.

Uma delas começa a ser apreciada agora no Supremo Tribunal Federal. É uma ação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pedindo o fim da doação de empresas aos candidatos e aos partidos. Os ministros já começaram a votar. Joaquim Barbosa e Luis Fux já declararam que o financiamento de campanhas por pessoas jurídicas é inconstitucional. Dos onze juízes, outros quatro já deram mostras de que pensam da mesma maneira: Marco Aurélio Mello, José Antonio Dias Tóffoli, Carmem Lúcia e Ricardo Lewandowski. Terão também que decidir se a regra vale a partir de 2016, ou já a partir de 2014.

Fernando Haddad é raridade: se declarou a favor (e palmas para ele, por isso, pelo menos). A maioria dos políticos é contra essa regra. Claro: vai tirar dinheiro do bolso deles. Aécio Neves já se declarou contra, e diz que é "ativismo político" do STF. O argumento mais ridículo é que se o Supremo proibir a contribuição de empresas, isso será um estímulo ao "caixa 2", à doação por baixo dos panos, de dinheiro não contabilizado.

Como se combate o caixa 2? Não é mantendo o bordel como está. Outros países já descobriram a fórmula, e o senador Pedro Taques, do PDT, apresentou esta semana a versão tupiniquim. Seu relatório ao projeto de lei de reforma do Código Penal transforma em crime a doação eleitoral ilegal. Esse texto deve ser votado semana que vem por uma comissão especial do Senado. Quem fizer doação eleitoral "em desacordo com a lei" poderia pegar de dois a cinco anos de cadeia. Certo que a tradição brasileira não é colocar poderosos em cana. Mas Zé Dirceu acordou hoje na Papuda.

E como seria o financiamento das campanhas? A OAB sugere que somente sejam aceitas doações de pessoa física, com um teto de R$ 700,00. Não é mal, mas ainda dá um peso desproporcional para a minoria que tem, contra a minoria que não tem. Por mim era horário eleitoral gratuito, cobertura da imprensa e só. Como em muitos países decentes do mundo. Mas isso é discussão para depois. O foco agora tem que ser em tirar o dinheiro das empresas do jogo eleitoral.

E o importante é que isso aconteça agora. Depende do STF, mas depende da opinião pública, depende de pressão. A época não colabora. A votação no STF e esta no Senado acontecem às vésperas do Natal, bica do verão, ninguém prestando atenção em nada fora festerê e compras. Ano que vem teremos muitas distrações. O país vai passar o ano pintado de verde e amarelo, embriagado por patriotadas, entupido de marketing festivo-esportivo-eleitoreiro.  Tem também uma certa cobertura jornalística, que mais confunde que explica, quem sabe de propósito. Leio reportagens dando peso igual aos prós e contras das contribuições de empresas às campanhas. Nada disso. Não existem prós. Não há o que debater.

O ano dos protestos chega ao final com uma chance única de mudarmos o Brasil para melhor. Temos que pressionar para que mude, e para que a mudança valha já a partir do novo ano. Juízes do Supremo Tribunal Federal: vamos pôr um fim nessa promiscuidade entre empresas e políticos. Quem aprontar, cana. E feliz 2014.

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Publicado em 10/12/2013 às 15:53

Tudo que você precisa é amor (o dinheiro vem depois)

Beatles foi a 1ª banda que amei. Foi em 1975. De lá para cá já gastei muito dinheiro e tempo com eles... Continue lendo

the beatles 01 web Tudo que você precisa é amor (o dinheiro vem depois)

Os Beatles foram a primeira banda que eu amei. Foi em 1975. De lá para cá já gastei muito dinheiro e tempo com eles. É a marca mais valiosa da história do rock. A explicação é que eles tiveram impacto social maior e mais permanente que qualquer outro. Música não foi o ponto. Agora é.

Neste nove de setembro, os Beatles voltam à vida. Pela primeira vez, os velhos fãs terão os doze álbuns originais em versão remasterizada, em CD e DVD, repletos de extras, documentários etc. E pela primeira vez, a nova geração terá os Beatles disponíveis onde interessa, nos videogames. O jogo The Beatles: Rock Band vem com 45 músicas para você tocar. As outras você comprará, futuramente, direto no site do game. Você toca os instrumentos, canta, faz harmonia, enquanto assiste versões animadas da banda em diferentes fases e cenários.

Vi ao vivo dia 2 de junho na E3, em Los Angeles, em cabine fechada para a imprensa. Um colega testou com Here Comes the Sun. Quase subi e mandei Taxman, mas fiquei meio constrangido. Para anunciar a parada, Paul, Ringo, Yoko e Olivia, viúva de George, subiram ao palco da E3. Giles Martin, filho de George, é o produtor do game. É coisa fina.

É surpreendente. Porque a marca Beatles nunca foi bem gerenciada. A Apple Corps, que gerencia os negócios dos Beatles, é uma burocracia sem fim. Nunca atende os fãs. É apavorada com o mundo digital. E não aprova nada que não tenha o OK dos quatro Beatles ou seus herdeiros.

A coisa só andou porque Dhani Harrison, fiho de George, é fã de games musicais, e vendeu o peixe para Paul, Ringo e Yoko. Não foi um business deal. Foi família.

Tudo virá embalada em uma megablitz de marketing, naturalmente. O timing é bizarro. Michael Jackson era dono de 50% dos direitos sobre as canções dos Beatles. Comprou porque era ótimo negócio. O negócio lhe valeu a amizade com Paul McCartney.

Jackson ia faturar bonito agora. Não deu tempo, porque morreu de overdose. Enquanto isso, da banda que mais promoveu as drogas para o mundo, dois estão contando dinheiro, John morreu baleado e George de câncer.
O grande professor de Michael foi Berry Gordy, fundador da Motown e compositor do primeiro hit da gravadora. Money (That’s What I Want) é mais conhecida na versão dos Beatles, de 1963. “Seu amor me dá arrepios/ mas não paga minhas contas… o dinheiro não traz tudo / para o que ele não traz, não tenho uso”.

Quatro anos depois, os fab four mudariam o papo para All You Need is Love. Que estará entre as primeiras canções disponíveis para download pago no game The Beatles: Rock Band. Com a receita doada para os Médicos Sem Fronteiras.

juliusschwartz by infantino Tudo que você precisa é amor (o dinheiro vem depois)

Amor ou dinheiro? A letra de All You Need is Love dá a pista: “nothing you can say but you can learn how to play the game – it’s easy”.

Porque o século 21 deixa mais claro que nunca: se você faz com amor, as pessoas percebem. Se faz só pela grana, idem. Eu já tinha aprendido isso com Julius Schwarz.

Julius co-criou o primeiro fanzine do mundo, Time Traveller, em 1932.

Foi agente literário de lendas como H.P. Lovecraft e Ray Bradbury. De 1944 a 1986, trabalhou na DC Comics. Foi responsável por sucessivas modernizações do conceito de super-herói nos anos 50, 60, 70, 80.

Vi uma vez de longe em San Diego, 96. Nem fui lá agradecer por tantas memórias boas. Que pateta que eu era.

Se os gibis de super-herói têm um pai, mais do que Siegel & Shuster ou Bob Kane ou Stan Lee ou Jack Kirby ou quem você quiser, ele é Julius. Que não escrevia nem desenhava. Era editor. Ele nunca terá sua importância reconhecida. Julie mesmo dizia: “ninguém sabe direito o que faz um editor”.

Sem ele não existiria muito do que você reconhece hoje como cultura pop. E eu seria uma pessoa muito diferente do que sou e não estaria escrevendo isso e você não estaria lendo.

Confio muito num lema que Julie revelou em sua autobiografia, Man of Two Worlds:

“Pegue uma coisa que você ama e conte para todo mundo sobre ela. Encontre outras pessoas que tem a  mesma paixão, e juntos se dediquem a tornar essa coisa ainda melhor. No final, você vai ter muito mais do que você ama, para você e para poder compartilhar com o mundo.”

All You Need is Love. Pode até te render um dinheirinho, no final…

(Escrevi esse texto em 2009, para o jornal Meio & Mensagem. Lembrei dele porque os Beatles estão sendo novamente revividos, com um disco de gravações inéditas na BBC, e com uma história em quadrinhos sobre Brian Epstein, empresário da banda, e segundo Paul, "O Quinto Beatle". O álbum estreou na lista dos quadrinhos mais vendidos do New York Times. Imediatamente foi vendido para o cinema, já até anunciaram o diretor. E eu comprei hoje! Beatles Forever... e das coisas que escrevi, esse texto virou um dos favoritos de uma amiga querida. Não estava no blog, então...).

The Fifth Beatle: The Graphic Novel Movie Trailer por thevideos no Videolog.tv.

Publicado em 06/12/2013 às 18:46

Não beatifiquem Mandela – ele merece mais

Seu feito foi convencer um país fraturado de que a mudança era um risco que valia a pena correr... Continue lendo

mandela criancas afp 20100718 G Não beatifiquem Mandela   ele merece mais

Se o povo escolher seu governante pelo voto, o país vai pro beleléu - o povo não está preparado para votar.

Homem votar, tudo bem - mas se deixarmos as mulheres votarem, a democracia está em risco.

Se a União Soviética acabar, vai virar um monte de paisecos armados com armas nucleares - o mundo vai explodir.

Se os egípcios derrubam o ditador, vai se instaurar o caos.

Se a Síria se livrar de Assad, será pior, porque os fundamentalistas tomarão o poder.

Cuba sem Fidel e Raúl Castro vai voltar a ser bordel dos americanos.

E aqui no Brasil? Não podemos ter eleições diretas. Não podemos eleger um sociólogo de esquerda. E muito menos botarmos um operário na presidência. O Brasil assim vai para o buraco!

E segue a cantilena. Que sempre olha para o futuro e vê a mudança levando ao pior cenário possível. É a postura conservadora, na pior acepção possível da palavra. Para essa gente nunca é hora de dar um novo passo. Mas caminhar com as próprias pernas implica em tomar uns tombos.

Quando a África do Sul vivia sob o apartheid, muita gente profetizava:

se o apartheid acabar, os negros vão tomar tudo. Vão matar todos os brancos - os pobres, porque os brancos que puderem vão fugir muito antes. E o país vai pra bancarrota, pra anarquia, para o fundo do poço.

Havia o risco? Havia. Era um risco grande? Não. Precisava ser corrido?

Sem nenhuma dúvida. Nelson Mandela teve a coragem moral e a percepção política necessárias para ajudar a África do Sul a enfrentar seu medo.

Fez isso desagradando um pouco a todos, e muito aos extremos - da direita e da esquerda. A extrema direita queria que tudo ficasse exatamente como era. A extrema esquerda queria que absolutamente tudo mudasse. Mandela isolou os radicais. Garantiu que a minoria branca manteria tudo que tinha, e cumpriu. Prometeu aos negros mundos e fundos, entregou o que deu, enrolou o que não deu. Era popstar nas grandes democracias, e aliado das piores ditaduras. Protegeu os apaniguados, controlou seu partido com mão de ferro. Deu uma no cravo e outra na ferradura.

Era... político. É o que Mandela foi. Não santo. Não um vovôzinho boa praça. Não o ancião sábio de contos da carochinha. Não um ícone pop. Nem o negro herói de Hollywood, impoluto, perfeito, Sidney Poitier, Morgan Freeman.

Beatificar Mandela é reduzir o significado de seu maior feito. É tratar como obra-prima de um iluminado o que foi trabalho braçal de um povo.

A África do Sul enfrentou e venceu o medo da mudança. Da mudança dolorosa, profunda, verdadeira. O feito milagroso de Mandela: convencer um país fraturado de que a mudança era um risco que valia a pena correr.

Conseguiu porque era mito - longe do público, mártir invisível, em todas as décadas de cadeia. Tivesse passado esse tempo na militância, teria sido só mais um político. E conseguiu porque usou com esperteza seu capital político, estatura internacional e lenda pessoal.

A África do Sul é um país muito injusto, também sob o governo de Mandela e seus herdeiros políticos. Essas duas décadas pós democratização poderiam ter sido melhor aproveitadas. Mandela foi político astuto e gestor medíocre. Mas ninguém duvida que é um país infinitamente melhor do que era sob o apartheid, e do que são seus vizinhos na África. É uma democracia claudicante, como a nossa, mas é muito mais livre e mais justa. Há problemas aos montes, mas também razões concretas para ter esperança. Quando os covardes profetizarem o caos, os corajosos podem retrucar: pois você viu a África do Sul? Enfrentou o medo, correu o risco, e emergiu melhor.

Mandela, o homem, some. Sobrevive a inspiração: um homem não se define por seus grilhões. E uma nação não deve temer se livrar dos seus.

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Publicado em 04/12/2013 às 16:36

Mariza Dias Costa: ilustrando a história, fazendo meu Natal

O Brasil é rico em grandes ilustradores. Nenhum é maior que Mariza Dias Costa. Cresci hipnotizado por sua arte, que melhorou durante anos o Diário da Corte de Paulo Francis, na Folha. Hoje é o lançamento de seu livro, o melhor de 40 anos de ilustração. Vá e compre. Se não fôr: compre online.

Mariza é combinação única. Faz arte com caixa-baixa, cotidiana, noticiosa, impressa em papel jornal, pra gente lambuzar de café e requeijão. E ao mesmo tempo é Arte com A maiúsculo, de enquadrar e botar na parede - dia após dia, semana após semana, eterna, da hora. Refletindo sobre a história, faz a História.

Finalmente Mariza tem a retrospectiva que merece. Ilustrador de primeiríssima, o amigo Orlando Pedroso organizou o livro, e a campanha para a sua publicação.Tem projeto gráfico do mestre Toninho Mendes, e introdução do Contardo Calligaris, cujos artigos na Folha Mariza ilustra. Um projeto todo finesse, portanto, que você deve abraçar e espalhar para os amigos que sabem o que é bom, e se não conhecem Mariza, apresente.

O livro chama E Depois a Maluca Sou Eu.... Mariza tem fama de doidona. Não conheço pessoalmente, mas depois de tantos anos me perdendo nos detalhes dos seus desenhos, não duvido que seja louquinha de pedra. Gente "normal" não é capaz dessas coisas.

Você pode e deve fazer com que este livro se materialize, autografado, na sua casa. Em janeiro de 2014. Ou comprar já, como eu. Porque não posso imaginar melhor presente para o meu Natal.

Veja aqui o vídeo!

Reserve seu livro (e gravura autografada?!) na campanha do Catarse, aqui!

E este é o convite para o lançamento do livro, hoje, dia 4 de dezembro, está aqui.

mariza Mariza Dias Costa: ilustrando a história, fazendo meu Natal

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Publicado em 03/12/2013 às 19:56

Genoino tem todo direito à justiça. Mas não só. E não já

José Genoino tem todo direito à justiça. Mas não só ele. E não já. Leia o post na íntegra... Continue lendo

 Genoino tem todo direito à justiça. Mas não só. E não já

V.M., 22 anos, têm câncer no reto e doença sexualmente transmissível. Seu pedido de liberdade condicional foi negado. E.O. está com a perna engessada há seis meses e precisa de cirurgia urgente. Não há previsão. Ambos estão presos por tráfico de drogas. São histórias de pesadelo. São rotina.

Os dois casos são citados em reportagem de Fábio Brandt, no Valor Econômico. Ele tentou consolidar dados sobre doenças no sistema prisional brasileiro. O governo federal não está querendo comentar no momento. Brandt cita um levantamento da Pastoral Carcerária Nacional, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que mostra que cerca de 500 pessoas morrem todos os anos em presídios no Estado de São Paulo. Segundo a Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais, há casos de presos com HIV-positivo sem tratamento. E por aí vai o desfile de horrores. Mais de mil prisões não têm atendimento pré-natal para presidiárias. Não há procedimentos básicos de higiene, limpeza, troca de uniformes. Surpresa: 7% dos casos de tuberculose em 2012 foram de presidiários, segundo o próprio Ministério da Saúde. A reportagem completa, chocante, está aqui. Cadastre-se grátis e leia.

Cadeia no Brasil sempre foi uma imoralidade. Não é para corrigir. Não é nem pra punir. É tortura mesmo. Como os ricos e importantes nunca foram pra cadeia, ricos e importantes nunca deram a mínima. O Brasil está mudando, aos poucos, devagar demais. Mas muda, e muda para melhor. As cadeias, infelizmente, só mudam para pior, porque cada vez mais superlotadas, resultado de uma política antidrogas falida. Temos meio milhão de brasileiros presos, muitos por bobagem. Você assistiu Carandiru, o filme? Leu o livro de Dráuzio Varella? A dupla penalidade imposta aos doentes na prisão é indecente.

Se José Genoino efetivamente tem razões de saúde para requisitar o regime semi-aberto, tem todo direito. Faça-se a justiça. Mas não só para ele, porque temos milhares e milhares de presos na mesma situação. E não já, porque tem muita gente esperando faz muito mais  tempo, em estado bem pior.

É uma ótima oportunidade para um mutirão de juízes avaliar a situação de tantos doentes nas nossas cadeias. Se todo mundo meter a mão na massa, a hora de Genoino chega logo.  E aliás podemos aproveitar e passar um outro pente fino. Tem outros tantos milhares que já cumpriram suas penas, e continuam trancafiados, pela simples morosidade do sistema judiciário.

Genoino tem sido achincalhado grotescamente - chamado de covarde, dedo-duro e outras tantas indecências. Fácil bater em quem está caído. Agora renuncia ao mandato, para evitar a cassação. Tinha entrado com pedido de aposentadoria por invalidez. Uma junta médica lhe negou. Outra junta negou que sua doença cardíaca seja grave. O cara lá com câncer no reto, e o outro com perna engessada há seis meses, quantas juntas os examinaram? Nenhuma.

Na carta em que pede renúncia, Genoino volta a dizer que é inocente e não cometeu crime nenhum. Esse não é mais o ponto. O julgamento do mensalão foi justo? Resultou em penas justas? A corte mais alta do país bateu o martelo. Não há mais há quem recorrer. Aos condenados toca cadeia ou fugir, como fez Henrique Pizzolato.

Segundo a justiça brasileira, bastante imperfeita, e a única que temos, ninguém ali é preso político. São presos comuns. E destes, os doentes acabam de entrar em uma longa fila de presos doentes, aguardando tratamento, e quem sabe o regime semi-aberto. É justo que sejam atendidos com a máxima urgência. Genoino tem uma grande chance de provar que é, de fato, o homem honrado que diz ser, e que tantos acreditam que seja. Basta respeitar a fila.

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Publicado em 02/12/2013 às 19:02

Nem mulata, nem parda, nem mestiça: apresentando a negra Globeleza

Musa foi escolhida em reality show. Em breve até presidentes provavelmente serão escolhidos assim... Continue lendo

A nova Globeleza foi escolhida em um mini-reality show. Faz sentido. Em breve até nossos presidentes provavelmente serão escolhidos assim, depois de passar uma temporada na Roça, ou debaixo do edredom. Quando as candidatas a musa do Carnaval 2014 foram apresentadas no Fantástico, me dediquei ao duro trabalho de olhar as fotos de todas. Todas lindas e sambam divinamente. Fui fazer uma busca na internet e fui surpreendido por uma mini-polêmica: onde já se viu, a estas alturas do campeonato, fazer concurso de mulata? E como assim, chamar as garotas de "mulatas"?

Se você não sabe, não é mais de bom tom usar a palavra "mulata". Nos Estados Unidos é proibidão. Os termos aceitáveis são "mixed", misturada, ou "biracial", o que é bobo, porque cor de pele não é raça. A palavra mulato originalmente vem de "mula" (um animal mestiço do cavalo com o burro; nem uma coisa, nem outra, e burro de carga). É claro que brasileiro nenhum relaciona mulata com mula... mas procurei e não encontrei substituto decente.  "Parda" é horroroso. "Negra" é ideológico e impreciso; uma criança nascida da mistura de um pai de cada cor é tão negra quanto branca. "Mestiça"? Sugestões? Não é que eu queira me render automaticamente ao vocabulário politicamente correto. É que eu não quero ofender ninguém sem que seja de propósito.

Oswaldo Sargentelli Nem mulata, nem parda, nem mestiça: apresentando a negra Globeleza

Quando eu era criança não se podia chamar a pessoa de negro. Era ofensa.

O polido era falar que era "de cor". Se a menina era mulata, o educado era dizer que era "morena". Mulata era mulata sambista. Cresci com o Oswaldo Sargentelli e as mulatas que não estão no mapa, botando fogo na nossa TV preto e branco na hora do jantar. Sargento era o safadão. As gatas vinham em diversos tons de cinza, requebrando na sandália plataforma, usando o mínimo de roupa que os militares permitiam.

Bigodinho de malandro, camisa estampada, medalhão no peito, Sargentelli batucava na caixa de fósforo e ronronava:

"Mulatinha bonitinha do ziriguidum

Mulatinha bonitinha do telecoteco

Mulatinha bonitinha do balacobaco

Mulatinha bonitinha do borogodó"

Era racismo? Hoje seria. As moças eram carnudas, e quando as tevês ficaram coloridas e a gente pôde ver a cor delas, foi embasbacante. Não parecia tão diferente das chacretes ou boletes. Sargentelli se dizia "mulatólogo". Montou casas noturnas no Rio de Janeiro pra exibir as moças, Sambão, Sucata e Oba-Oba. Foram os primeiros "shows de mulatas".

Eram visita obrigatória para turistas do interior e visitantes gringos (agora vão às quadras das escolas de samba, experiência mais autêntica - mas nem tanto). Sargentelli criou o produto mulata-padrão-exportação. Os shows de samba passaram a excursionar pelo exterior.

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Soa bizarro. Era outra época. Elza Soares, mulata, cantava sobre a mulata assanhada que fazia pirraça. Negra na TV, só em papel de escrava, Ruth de Souza. E é por isso que Valeria Valenssa foi um salto à frente.

A primeira mulata Globeleza chegou arrebentando. Toda nua e linda e aerodinâmica, turbinada pelos melhores efeitos computadorizados de que Hans Donner. Parecia vir de um Brasil de ficção científica, uma exterminadora do futuro irresistivelmente feliz, que vinha nos visitar de um lugar melhor. Foi em 1993.

Duas décadas depois, a eleição da nova Globeleza é razão para festejo. O voto popular ungiu Nayara Justino. Que não é mulata. É negra mesmo.

Daquelas que a gente não via na TV quando eu era criança, e mesmo em

2013 não se vê toda hora no horário nobre. Algumas candidatas eram bem mais enquadráveis nos padrões de beleza de anúncio de xampu - pele cor de mel, nariz fininho. Como a própria apresentadora do reality show, Sheron Menezzes.

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Mas o símbolo do nosso Carnaval este ano é uma negra de Volta Redonda, porque o povo assim decidiu. Teve até campanha por Nayara na internet, chamando votos para ela, com o slogan: "Nayara, Globeleza do Povo". Na boa: não só não vejo machismo em escolher via TV a mulher que vai simbolizar nosso carnaval, como percebo uma grande evolução. Nos anos 70, o ícone do samba era um coroa italiano malaco, e as mulatas eram coadjuvantes anônimas. Em 2013, as pessoas se organizam virtualmente para eleger como musa da folia uma negra. É um avanço do balacobaco.

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