Publicado em 19/03/2014 às 15:40

A Globo pode censurar a concorrência, mas não deve

bbb A Globo pode censurar a concorrência, mas não deve

A Justiça do Rio de Janeiro proibiu portais concorrentes da Globo de cobrir o Big Brother Brasil. São o UOL e o Terra. Dá ganho de causa à Globo e a Endemol, empresa que é dona do formato Big Brother, que licencia para os canais pelo mundo afora. O argumento é que os portais estão faturando com propriedade alheia. Fazem cobertura extensa e permanente do programa, que é 24 horas por dia. Vendem publicidade ao lado da cobertura.

A liminar diz que os portais devem se abster da “exploração comercial e utilização indevida de imagens, marcas, textos, elementos e/ou de trechos dos programas BBB, bem como de quaisquer outras marcas e elementos sob a exclusiva titularidade da TV Globo e da Endemol nos portais http://uol.com.br e htpp://televisao.uol.com.br/bbb ou qualquer outro portal da empresa autora''. O descumprimento da decisão implica em multa diária de R$ 100.000,00.

A vitória não é surpresa. A justiça do Rio sempre dá ganho de causa para a Globo e globais. O que não tem justificativa é a Globo tentar censurar concorrentes diretos. É exatamente disso que se trata, censura, e da brava. UOL e Terra agora não podem publicar mais nada de BBB. O UOL até tirou do ar a cobertura dos catorze anos passados. O colunista de TV do portal, Maurício Stycer, avisa que não vai mais comentar o programa. O UOL informa que vai tentar reverter a decisão da justiça carioca, com recurso.

É fato que os portais usam o BBB para aumentar sua audiência e faturar. Reality shows atraem muita audiência na internet, BBB, A Fazenda, The Voice e outros. É da natureza dos realities. Como também dos seriados - o que vai acontecer depois? Por isso que séries como Breaking Bad, Game of Thrones e True Detective rendem tanto na internet (e comédias não dão tanto assunto, embora quase sempre tenham mais espectadores que esses seriados cultuados).

É do DNA da mídia faturar falando de propriedade alheia. Para ficar em um exemplo óbvio: existem revistas de diversas editoras (e não da editora Globo) que falam exclusivamente de novelas. Têm sempre novelas da Globo na capa. Existem há anos, e a Globo não processou. O argumento é que é uma "cobertura jornalística". E é mesmo. Pô, mas toda semana a revista põe a novela da Globo na capa! E toda semana vende. Portanto é de interesse do público, o que é a exata definição de "interesse jornalístico". A Globo vai atrás de dois grandes concorrentes diretos na internet, que é onde está a ação. Não tem nada a ver com o certo ou o justo. Tem a ver com grana.

E considere a alternativa. Se aceitamos que o pedido da Globo tem cabimento, a sequência lógica é a Globo (e a Fifa) proibirem outros veículos de cobrir a Copa. Depois a Fórmula Um. E o Oscar e o Rock In Rio. E o desfile das escolas de Samba. E campeonatos de futebol. E tudo mais que a Globo pagou para exibir. Depois ninguém mais poderá comentar a novela, o Jornal Nacional, e o Faustão, toda programação produzida pela própria Globo.
Pelo discurso, a Globo parece dizer que tudo bem, se os portais concorrentes cobrirem BBB, mas sem "explorar". Mas a maior empresa de comunicação do país não tem, ou não deveria ter, o direito de determinar como as suas concorrentes cobrem isso ou aquilo.
O problema é que a decisão da justiça prova que, na prática, a Globo pode exercer poder de censura. Mas não deve. Alguém ali nas altas esferas tem de botar a mão na consciência, e se tocar. Os jornalistas têm que fazer o devido barulho. E as associações que reúnem as empresas de jornalismo têm obrigação de se pronunciar contra o caso. A Globo faz parte de todas - ANER, ANJ, Abert. Diferente da Endemol, a Globo não é só uma empresa muito forte em entretenimento. Tem muita tradição e investimento em jornalismo. Tem o maior canal de TV, um grande e tradicional jornal, a segunda maior editora de revistas, um grande portal, um grande site noticioso, rádios, um canal de TV só de notícias.

Tem, portanto, grandes responsabilidades. E a primeira delas é lutar pela liberdade de informar - e não contra.

http://r7.com/wqEU

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