Publicado em 06/06/2014 às 19:38

A Misandria de Malévola

maleficent by alina carrie d7cvb7n A Misandria de Malévola

Todo homem é um bruto traiçoeiro ou um idiota banana. Toda mulher é inocente, e se age mal, é por que um homem a levou a isso. Essa é a mensagem de Malévola. A nova versão da Bela Adormecida parece politicamente correta. É o contrário. O termo técnico é misandria.

O conceito está no dicionário há mais de meio século, mas ainda não faz parte do vocabulário de ninguém. Trabalho com palavras e também não conhecia. Trata-se do ódio ou desprezo ao sexo masculino. Como misoginia é o ódio contra o sexo feminino.

Se não conhecia o termo, fiz minha parte para popularizar o conceito. Publicamos na editora Conrad o livro da feminista radical Valerie Solanas, SCUM Manifesto. Um trecho: “o macho é completamente egocêntrico, aprisionado dentro de si mesmo, incapaz de empatia ou de se identificar com outros, incapaz de amor, amizade, afeto ou ternura. É uma unidade completamente isolada, incapaz de conexão com o outro. Suas atitudes são inteiramente viscerais, não cerebrais. Sua inteligência é só uma ferramenta a serviço de seus impulsos e necessidades. Ele é incapaz de paixão ou interação mentais. Não se relaciona com  nada que não seja suas sensações físicas. É uma massa amorfa, semi-morta, incapaz de dar ou receber prazer ou felicidade.”

O livro é boa provocação. Quase meio século após sua publicação, tem gente tratando Solanas como profeta, e o manifesto como se fosse as tábuas da lei. Quem sabe inspira Linda Woolverton. A roteirista de Malévola é móveis e utensílios na Disney. Assinou O Rei Leão, A Bela e a Fera, a versão recente de Alice no País das Maravilhas. Woolverton também adaptou para o teatro o romance O Vampiro Lestat, de Anne Rice. Malévola não faria feio ao lado dos dândis inumanos de Rice. Que, aliás, escreveu sob pseudônimo uma trilogia reimaginando A Bela Adormecida como uma epopéia sadomasoquista.

O filme nos apresenta a uma fada benfazeja. Tem poderes de fada, tem asas que a levam pelos céus. É uma menininha órfã, que vive em uma terra encantada com outros seres mágicos, em perfeita harmonia. O reino ao lado é habitado por humanos. Homens violentos, gananciosos. Seu rei cobiça conquistar o reino das fadas e tomar suas riquezas.

Um menino humano, Stefan, entra no reino da fadinha, Malévola. Ficam amigos, mas logo têm que se separar. Crescem sem se ver. O rei continua tentando invadir o reino mágico, mas nossa fadinha virou uma fadona poderosa e não deixa. Enfim o rei, à beira da morte, oferece: quem matar sua arqui-inimiga será seu herdeiro.

Stefan procura Malévola. Reencontro romântico, passam a noite juntos. Ele não tem coragem de matar a fada. Corta fora suas asas. Simbolicamente, é um estupro. Traída, Malévola busca vingança. Transforma seu país feliz em um império sombrio.  Anos depois, o que você já imagina: Malévola coloca um feitiço na filha recém-nascida do rei. Antes de Aurora completar 16 anos, vai picar seu dedo em uma agulha. Cairá num sono profundo, do qual só um beijo de verdadeiro amor poderá libertá-la. Malévola não acredita em amor verdadeiro. Hora de entrar em ação o príncipe, certo? Mas este príncipe é um efebo bobalhão. E agora?

Se você ainda não assistiu e pretende, pare por aqui. Se já viu, te pergunto: só eu que fiquei torcendo por um improvável beijo lésbico entre Malévola e Aurora? Não fosse uma superprodução Disney pra toda a família, seria a conclusão lógica de sua obsessão com a menina, que de maternal não tem nada.

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Angelina Jolie está ótima; certo que o papel é moleza. Também produtora do filme, capricha nos olhares concupiscentes. Está lá para quem quer ver: uma rainha dominadora, de couro negro, “adotando” uma princesinha púbere, para protegê-la do malvado mundo dos homens. E quando é Malévola que está em perigo, Aurora resgata suas asas, fazendo dela novamente uma mulher completa, “intocada” pelo homem, e portanto plena e poderosa. E agora, tá na hora do príncipe? Ele não serve para nada. Não é só que as mulheres podem se virar sem homens; homens são supérfluos, quando não perigosos.

Impossível imaginar um filme em 2014 em que todas as mulheres fossem seres inferiores, brutos e traiçoeiros; ou gays; ou negros. Preconceito e opressão, gritariam os injustiçados. Sou homem e não reclamo não. Podem bater que a gente aguenta. Claro que é simplismo e ignorância determinar que todos os homens são assim, todas as mulheres são assado. Cada pessoa é uma pessoa. Mas o mundo, afinal, ainda é um lugar onde os homens tem muito mais privilégios que as mulheres.

E cada um conte a história que quiser. Claro que dizer “é só uma história” é só estratagema de quem as conta. O significado está em todo lugar. As histórias nos encantam e moldam. Contos de fadas têm poder. É para isso que os inventamos. Eu via o filme e matutava: que mensagem, que visão dos homens, vão levar para casa e para a vida as menininhas ao meu lado comendo pipoca?

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