Publicado em 18/08/2014 às 17:44

Quer aparecer? Jogue um balde de gelo na cabeça. Quer ajudar? O caminho é o contrário

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Tudo que é mais estúpido, superficial e inócuo na cultura americana, a brasileirada sempre corre para imitar. Tanta coisa boa nos Estados Unidos, sempre macaqueamos o que há de mais idiota.

Agora é o desafio do balde de gelo na cabeça, o Ice Bucket Challenge. No Brasil, gente como Ana Maria Braga, Luciano Huck, Ivete Sangalo, Neymar, Carolina Dieckmann e outros luminares da cultura nacional já aderiram. Nos Estados Unidos virou mais que fenômeno pop. É quase obrigação de quem é famoso. De cantores (Justin Timberlake, Justin Bieber) a empresários (Mark Zuckerberg, Jeff Bezos) a atletas (Cristiano Ronaldo, os New York Mets). E outros zilhões de famosos e anônimos que querem aparecer, e postam na internet vídeos fazendo a mesma bobagem.

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Do que se trata? Em vídeo, você aceita o desafio, e desafia outras três pessoas a fazerem igual, nas próximas 24 horas. Bota gelo em um balde com água. Se na hora H der para trás, doa cem dólares para uma instituição de caridade. Se for em frente e se encharcar todo, doa só dez dólares.

Ver os vídeos dá desgosto com a espécie humana. É o máximo de narcisismo posando de desprendimento.  Claro que tem gente que se molha e doa os cem. Claro que tem gente que doa mais. Claro que o fato dos famosos se filmarem é uma maneira de gerar visibilidade para a campanha. E claríssimo que é uma maneira dos famosos se promoverem, e posarem de caridosos e preocupados com quem sofre.

De fato sofre bastante quem tem ALS (Amyotrophic Lateral Sclerosis, ou Esclerose Lateral Amiotrófica). É uma doença degenerativa horrível. Meio parecida com a doença de Parkinson, que muita gente que tem um velhinho na família conhece bem. A pessoa perde o controle sobre os  músculos, tem dificuldade pra falar, engolir, respirar. É conhecida como doença de Lou Gehrig, por causa do legendário jogador de beisebol que morreu disso.

Se sabe que a maioria (93%) dos afetados são caucasianos, gente branca. O que causa a ALS? Ninguém sabe. Mas segundo a própria Associação que criou a campanha do balde de gelo, veteranos americanos de guerra têm o dobro de chance de ter ALS que um civil. Guerra causa ALS? Vai saber.

O que sabemos com certeza é que na longa lista de doenças que precisam de recursos para pesquisa, a ALS não é prioridade. Seria muitíssimo mais útil gastar o mesmo dinheiro para doar mosquiteiros para a África, ou melhorar o saneamento no Rio de Janeiro. Porque o número de pessoas afetadas pela ALS é minúsculo. Entre a população caucasiana, mais afetada, varia de 1.2 a 4 casos por cem mil pessoas.

Nos EUA existem 30 mil pessoas diagnosticadas com ALS, de um total de quase 320 milhões de americanos. É um pingo d´água no oceano. Por comparação, no mundo  morrem 1.5 milhão de pessoas de HIV/Aids e outros 1.5 milhão, de diarreia. Onde? Onde não tem saneamento, remédio, comida. E água. Já tem gente pegando no pé dos patetas que entraram na campanha do balde de gelo. Olha a cara do menininho perguntando: "Quer dizer que você desperdiça água para evitar doar dinheiro para caridade?"

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A coisa certa a fazer é enfrentar todas as doenças, onde quer que elas estejam, caso afetem muita gente ou meia dúzia. Não é com campanhas cretinas. Poderíamos começar zerando os impostos sobre remédios, e mudando as leis de patentes, que tal? Ou gastando menos com armas e mais com saneamento básico? Não, isso é tudo utopia. Realidade é desperdiçar um balde de água gelada no cucuruto.

Longe de mim fazer pouco de quem sofre com ALS ou de suas famílias. Mas tá cheio de gente sofrendo no mundo - de doença e bomba na cabeça, quase sempre fabricadas nos Estados Unidos, aliás. Vamos bolar uma outra coisa divertida pra ajudar quem tem Ebola, e outra para as criancinhas bombardeadas no Oriente Médio? Transformar desgraça alheia em  diversão de internet é idiota e imoral.

Os gringos, que têm um termo bacaninha para cada coisa, chamam isso  de "slacktivism", que traduzo mal e porcamente para "ativismo de vagabundo". É quando a pessoa gasta o mínimo de esforço, neurônios ou dinheiro para "ajudar" o próximo, com resultados igualmente mínimos, mas gerando grande satisfação pessoal e status social, "veja como sou caridoso e bacana."  Sempre existiu, mas a internet turbinou. Por falar em slacktivism, essa campanha da WWF é a mais complacente e contraproducente que conheço.

Esses famosos da campanha do balde estão na mesma categoria desses indignados de Facebook. Gente que vive gritando contra essa e aquela injustiça e incorreção política. Mas não se mexem para mudar absolutamente nada. No máximo, fingem. E frequentemente lucram com o mundo como ele é, ignorante e vulnerável.

Já vejo você falando "pô, para de ser tão mal humorado, é só uma brincadeira, não faz mal a ninguém e ainda gera uns recursos pra pesquisar essa doença." Bem, entre essa obsessão pela autopromoção camuflada de solidariedade e não fazer absolutamente nada, prefiro a honestidade da imobilidade.

Mas se você quer mesmo meter a mão no vespeiro e buscar soluções políticas de longo prazo, te convido a ler isso aqui. Tem um gráfico que você não vai esquecer. 

E se você quer mesmo ajudar quem está mais precisa, nesse exato momento - pelo mundo afora e no Brasil também - nem precisa jogar um balde de gelo na cabeça. Puxe o cartão de crédito e DOE JÁ. Te desafio.

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