Publicado em 14/09/2016 às 16:24

A inspiradora leveza de Calder

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Todo mundo conhece Calder. Até quem nunca ouviu falar dele. Qualquer lojinha de decoração tem uns móbiles à venda. Tem fofo pra quarto de criança, sofisticado para modernos, rústico para bicho-grilos. É um daqueles artistas que se confundem com a obra e viram marca: "Dali", "Mondrian", "Miró". Então qual a razão para estar tão vazia a exposição "Calder E A Arte Brasileira", em pleno sábado à tarde, em plena Paulista, entrada franca?
É que Alexander Calder não é um personagem como, digamos, "Frida", mulher independente, sofrida, ícone feminista em um México rebelde. As filas para a exposição de Frida Kahlo, um tempo atrás, sugeriam aglomeração na porta de festival de rock. Arte é cada vez mais cultura pop, é sobre celebridade, polêmica, dinheiro.
Alexander, "Sandy", Calder, quem era? Um americano tranquilo. Ninguém que inspire paixão. Nasceu com o século, 1898. Família com algumas posses e tradição nas artes. Pai e avô escultores, mãe retratista. Universitário dedicado, Engenheiro Mecânico formado, o que explica o rigor de seus projetos - tá pensando que é fácil equilibrar tanta pecinha?
A palavra que define Calder é "leveza". Seus móbiles flutuam, levitam, pendurados por cabinhos mínimos, delicadeza quase orgânica. Leve também na abordagem, terna, brincalhona. Atravessou o pesadelo do século 20, guerras mundiais, barbaridades variadas, sempre positivo, olhos no horizonte. Não à toa que sua primeira grande retrospectiva nos Estados Unidos, a que finalmente fez seu nome, em 1943, foi organizada por Marcel Duchamp, outro pândego.
A exposição em São Paulo tem escondido em um canto um filminho que é chave para entender o espírito de Calder. Sente e assista. Formado, Sandy fugiu da Engenharia. Foi projetista, e depois retratista de jornal (o que explica seus futuros cartuns feitos a arame). Mas assim que pode se picou para a Paris da Era do Jazz, aluguel barato, cafés animados, a fina flor da arte e da boemia. Recém-chegado, em 1926 já fazia seus bonequinhos de arame, com roupinhas, molas, cenários - o "Circo Calder", que exibia para os amigos, Duchamp, Jean Arp, Léger. Pra quê? Por farra. O filme é sobre o Circo e é uma graça. Mostra Sandy já coroa, brincando com seu Circo de mentirinha, encantado com a bailarina, o Elefante, o engolidor de espadas.
É esse espírito meio palhaço, meio malabarista que Calder transmite em toda sua obra. Nos móbiles, "stabiles" (apoiados no chão), pinturas, esculturas de pequenas a monumentais. É o que falta aos artistas brasileiros que o acompanham na exposição. A maioria das obras brasileiras quase vergam sob tanta seriedade estética, Helio Oiticida, Wilys de Castro... a honrosa, deliciosa exceção é Abraham Palatnik.
Sandy Calder não ganhou dinheiro até os anos 50. Hoje suas obras valem incontáveis milhões e estão nos principais museus do mundo (o de Filadélfia tem a melhor coleção, porque cobre todas as suas fases. Na cidade também está o fino de Duchamp. Visite). Também nunca pareceu se importar muito com isso. Fortuna? Fama? Nos anos 20 o "mercado" de arte mal existia, e muito menos para bonequinhos e penduricalhos.
Seu trabalho dá a impressão de ter vivido e morrido seguindo o lema de Man Ray: "Despreocupado, mas não indiferente". Vem de uma era em que os artistas vinham antes da arte. As obras inspiravam os teóricos, e não o contrário. Viver era tão importante quanto pintar, escrever, esculpir. Tempo que não volta, tempo que pode voltar - nem lá nem cá, equilíbrio impossível, suspenso no ar.

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