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Fica, Temer

Postado por aforastieri em 19 de setembro de 2016 às 16:08 em Sem categoria | Nenhum comentário

Lula Temer Foto RicardoStuckert InstitutoLula 9abr2015 1024x552 Fica, Temer [1]

Lula e Temer em abril de 2015

Definha a resistência ao governo de Michel Temer. A passagem do tempo arrefece todas as paixões. Mas a crescente aceitação do ex-interino tem outro componente importante. É a inevitável pergunta que as palavras "Fora Temer" provocam: se a gente bota ele pra fora, pôe o quê no lugar?
A volta de Dilma é rejeitada pela maioria absoluta dos nossos compatriotas, inclusive pela maioria dos que elegeram Dilma. Diretas já, todo mundo garante que é muito difícil rolar agora. E se tivesse eleição agora, para votar em quem? Todos os baluartes da nossa política, pró e contra impeachment, inclusive os que se aboletaram em cima do muro, como Marina, batem recordes espetaculares de rejeição. Lula mantém bons índices de popularidade e também tem os maiores índices de rejeição dos eleitores
Basta conversar com o povão na rua para perceber que o país não está nem aí para essas eleições municipais, que dirá para eleições presidenciais. Está desencantado, o que é bem diferente de estar "pacificado". "Unir o Brasil" é fantasia tão improvável quanto o objetivo declarado de Lula, que é unir as esquerdas. Estão muito vencidos os termos "direita" e "esquerda", e pouco querem dizer para as pessoas comuns. Mas vamos usá-los aqui em seus sentidos originais: os representantes do Capital, do Indivíduo e da Permanência, contra os representantes do Trabalho, do Coletivo e da Mudança.
Nem o governo que foi saído era da Esquerda, e nem o governo atual é de Direita. Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma fizeram administrações centristas, com ligeiras inflexões mais pra lá ou pra cá. Nesse quarto de século, as maiorias tiveram ganhos importantes e uma minoria teve ganhos astronômicos. O fosso social brasileiro diminuiu - mas segue profundo.
Naturalmente é impossível e indesejável uma "união das esquerdas". As esquerdas são sempre múltiplas e conflituosas. Quando se "unem" é porque um grupo se impôs aos outros: foi-se a democracia, venceu a autocracia. O cenário que vemos é de multiplicação dos grupos contra Temer, mas não do número de pessoas contra seu governo. A juventude radical se nega a fazer número nas passeatas organizadas pelo PT, que quer a volta de Dilma. Já o PSOL quer diretas já. O próprio PSOL, como o PT, contém diversos agrupamentos internos, rachas variados. A tática do MST não é a do MTST, as feministas não concordam com os black blocs, e por aí vai. Sem problemas. É o que a esquerda é.
Mas nesse momento nenhum desses movimentos anti-Temer dialogam com o Brasil real. O cidadão comum tá em outra, tá vendendo o almoço para pagar a janta. Não espera grandes milagres de políticos, antigos, atuais ou futuros. Acha um pouco ridículo tanta indignação contra Temer, que foi durante todo o governo Lula aliado próximo do governo petista, e vice duas vezes de Dilma. Ué, ele era um cara super bacana até esse ano e virou o vilão da novela? A foto que ilustra esse texto não é do século passado, é de abril de 2015.
E assim o brasileiro vai se acostumando com nossos novos governantes. É fácil para a maioria de nós, que não fomos para as ruas pelo impeachment, e nem contra. Afinal, eles são nossos velhos governantes, com uma ou outra mudança. São praticamente os mesmos personagens que deram as cartas em todos os governos anteriores, desde o final do regime militar. Igual segue a política econômica, sob o mesmo ministro que foi de Lula, Henrique Meirelles. Não há tanques nas ruas, tribunais de exceção, interrupção da vida cotidiana, ou maior limitação das pequenas liberdades que nossa pequena democracia nos oferece.
"As coisas devem mudar para que permaneçam as mesmas", dizia aquele nobre italiano, Burt Lancaster, em "O Leopardo". A versão brasileira poderia ser "as pessoas devem mudar para que as coisas permaneçam as mesmas". Se nos dois anos de governo que lhe sobram Temer parir um novo milagre econômico, pode se reeleger ou eleger um poste em seu lugar. Se nos levar ao cataclisma social, não completa os dois anos. São cenários extremos. O mais provável é - bem, você escolhe em que futuro quer acreditar. Seja qual for, desconfio que qualquer que seja o próximo presidente, Temer, Lula ou quem vier, terá automaticamente o apoio da maioria do Congresso, mas não muita confiança dos eleitores.
No presente, o que existe é uma acomodação. Não é que o brasileiro goste de Temer, ou torça por Temer. As pesquisas e o sentimento das ruas deixam isso muito claro. É mais uma aceitação do inevitável, um muxoxo, um dar-de-ombros: fica, Temer.

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