Publicado em 22/09/2016 às 19:28

Você é um ser humano ou um inseto?

roberto bolanos chaves chapolin Você é um ser humano ou um inseto?
"Um ser humano deve ser capaz de trocar uma fralda, planejar uma invasão, matar um porco, comandar um navio, projetar um edifício, escrever um soneto, fazer a contabilidade, construir uma parede, cuidar de um ferimento, consolar os que estão para morrer, receber ordens, dar ordens, cooperar, agir sozinho, resolver equações, analisar um novo problema, adubar a terra, programar um computador, cozinhar uma refeição saborosa, lutar eficientemente, morrer galantemente. Especialização é para insetos."

Outro dia escrevi sobre o AC/DC, e sobre a vantagem competitiva de fazer sempre a mesma coisa e sempre muitíssimo bem, com foco, no capricho, sem distrações. A repercussão foi grande. Mas umas poucas pessoas não entenderam direito meu ponto, ou eu que não soube me comunicar tão bem como gostaria.

Ter foco na sua atividade, na sua expertise, na sua marca, não quer dizer sempre tocar o mesmo samba de uma nota só. Ter interesses variados, gostar de fazer coisas bem diferentes umas das outras, seja na vida pessoal ou no trabalho, não é sinal de dispersão. Pelo menos não necessariamente.

E quando se trata de uma pessoa no início da sua vida profissional, mais ainda é importante experimentar muita coisa diferente. E não só "o que o mercado exige". Quem é que vai saber o que o mercado vai exigir daqui dez, vinte, trinta anos?

Gosto muito de uma história sobre Steve Jobs (e não estou aqui beatificando Jobs, que tinha qualidades e defeitos, como todo mundo; mas ninguém negará que foi um baita de um empresário). Antes de fundar a Apple, garotão hippie meio sem objetivo na vida, Steve mergulhou no budismo. Até acabou visitando o Japão. E se dedicou muito a uma atividade que monges budistas praticam muito no Japão: a caligrafia. É, Steve estudou japonês, e aprendeu a escrever em japonês, usando aquelas penas.

E foi por isso que quando estava criando um computador, lhe ocorreu que o usuário deveria ter a possibilidade de personalizar as letras dos textos. Mudar o tamanho, a fonte, colocar negrito. Isso foi um grande diferenciador do Macintosh, e um passo gigantesco no caminho da personalização dos nossos aparelhos eletrônicos, seja o computador ou, hoje, o celular. Ou seja: estudar budismo, e estudar caligrafia japonesa, coisas que jamais estariam em nenhum curso de engenharia eletrônica, foram um diferencial muito grande na hora de criar um... computador!

É por isso que acho má idéia essa nova proposta de tirar os cursos de artes do Ensino Médio. Tratar arte como supérfluo é uma incompreensão do processo de criação, e aliás do papel da Economia Criativa no nosso mundo atual e futuro. Aliás é ruim tirar educação física também. Preparar para o mercado é impossível: temos que preparar os jovens para a vida, para os desafios que podemos prever e os que nem podemos sonhar.

Ah, sobre o texto lá no alto, é de autoria do Robert A. Heinlein, um dos maiores escritores de ficção científica do século 20. E reler essas linhas me levou, imagine, ao Chaves, o humano, e o Chapolin, o gafanhoto... e ao"chapulin", uma iguaria comum no México. Vendem saquinhos cheios de gafanhoto fritinho e salgado! Eu fui capaz de experimentar. Tem gosto de grama com sal!

Não sou capaz de planejar uma invasão e nem matar um porco, mas sou capaz de fazer algumas dessas coisas que o Heinlein cita. E muitas outras que ele nem cita. Nós todos somos múltiplos. Vamos em um minuto do Budismo à ficção científica ao Chapolin Colorado. Como diz a linda frase do poeta Walt Whitman, "I contain multitudes", eu contenho multidões...

E você? É capaz de quê?

http://r7.com/HmsO

Ir para o Topo