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A vitória é de Trump é notícia boa (e aí mora o problema)

Postado por aforastieri em 8 de novembro de 2016 às 15:40 em Sem categoria | Nenhum comentário

Trump Smiles 1024x686 A vitória é de Trump é notícia boa (e aí mora o problema) [1]
Quem gosta de boa notícia é publicitário. Gente que é paga para espalhar as maravilhas que acontecerão se comprarmos esse ou aquele produto. Idem assessor de imprensa. Nunca recebi um press release dizendo "empresa XPTO. polui, demite e vai à falência". Nem "cantora mocoronga lança outro disco sonolento". É sempre boa notícia. Aquele texto épico, tecendo loas ao cliente. Por isso é que a assessoria de imprensa é no mundo todo considerada um ramo da publicidade, e não do jornalismo. Sem problema - é um trabalho com qualquer outro.
Já jornalista gosta de notícia boa. O que é muito diferente de boa notícia. Duro pensar em notícia pior que queda de avião. Mas é exatamente o tipo de notícia boa para um jornalista. Absolutamente inesperada, atrai todas as atenções. Por uns minutos, todos prendemos a respiração, dentro e fora das redações, adrenalina a mil.
Qual a maior notícia das nossas vidas? A queda das torres gêmeas no onze de setembro. Vi acontecer coisa mais importante? Claro - a queda do Muro de Berlim, pra começar. Assisti o homem pousando na Lua na casa da minha avó, que tal? Mas não tinham o mesmo fator surpresa. Isis avança? Notícia boa. Ebola e Zika se espalham mundo afora? Idem. Reino Unido decide se separar da Europa? Notícia sensacional. Trump? É outro nível. E outro perigo.
Não é que notícia é só notícia ruim. É que quanto maior o choque e a imprevisibilidade dos dias seguintes, mais poderosa a notícia, e mais importante o jornalismo. E jornalistas, como todo mundo, adoram se sentir importantes. A queda do avião que levava Eduardo Campos foi uma notícia boa, no exato sentido do termo. Foi absolutamente inesperada. Chamou a atenção de todos. Teve grande impacto emocional e social. Catapultou Marina Silva, vice apagada, para uma candidatura competitiva, e talvez à presidência. Onde podia render muitas outras surpresas, porque possivelmente fora do esquadro, nem petista, nem tucana. E esta é razão porque toda a imprensa do planeta Terra anda torcendo secretamente pela vitória de Donald Trump.
Isso significa que jornalista é tudo urubu? Bem, não, só os normais... mas jornalista gosta de notícia boa porque dá repercute, dá audiência e dinheiro, que é o que interessa no final do dia. Seja para o profissional ou o YouTuber, o dono da Fox News ou da Al Jazeera, do Le Monde ou do site ali da esquina. A imprensa americana faturou como nunca nesses meses pré-eleição, por causa justamente de Trump. É certa a queda de receita na mídia americana em 2017.
Trump foi mais que notícia boa. Foi uma notícia boa por dia. Às vezes, várias por hora - uma queda de avião depois da outra. Prendeu a atenção do país, do planeta. É o primeiro político do Século 21. Entendeu que hoje, em que o mundo da comunicação é dominado pelas redes sociais, o importante é causar - e mais que isso, o importante é dividir. Quanto maior o bafo, quanto mais polêmica a declaração, quanto mais as pessoas se sentirem provocadas a se posicionar, quanto mais briga, melhor. O que naturalmente vale para qualquer um que posta nas redes sociais, e não só para jornalista. Você é tão urubu quando o repórter mais carniceiro, meu caro amigo, minha querida leitora.
A democracia representativa tem uns duzentos anos de idade. Mudou pouquíssimo nos seus fundamentos. Avança a passo de tartaruga, a tecnologia na velocidade da luz. Dá cada vez menos conta do recado. Como ela ainda não chegou direito na maior parte do planeta, a gente tende a achar que a Democracia ao estilo americano é um objetivo a ser alcançado. Não é. Já venceu esse esquema de a cada quatro anos escolher para nos comandar um garoto-propaganda, escolhido pela máquina partidária, bancado por ricaços e cuidadosamente preparado por publicitários. Tanto isso é verdade que Trump chegou onde chegou ignorando todas essas "regras" do moderno marketing eleitoral...
A democracia pode ter futuro. Depende dela ser no dia a dia muito envolvente, muito emocionante, muito exigente. E na época de eleição, bem monótona. Ser político tem que ser tão atraente quanto ser funcionário público por quatro anos e parar por aí. A democracia precisa abrir mão de partidos, de campanhas milionárias, de marketeiros. Precisa dizer não para infinitas reeleições, parentes na política .Chega de dar um cheque em branco para quem se elege. Tem que tirar da mão do eleito a caneta para gastar na besteira que bem lhe aprouver, para proibir o que não curte e para indicar os juízes que interpretarão as leis. Ser presidente é poder demais. Ser governador, prefeito já é poder demais. É cada vez maior a concentração de poder nas mãos do Executivo e do Legislativo. E ser eleito é passagem só de ida para o clube dos milionários, dos 0,1%, sem ligação nenhuma com a população, conexão total com a elite da elite.
Cada vez mais, a política (e a comunicação; são mais ou menos a mesma coisa) depende de pintar o mundo de preto e branco e jogar um grupo contra o outro. Eleitores de Hillary não podem imaginar que tipo de gente burra votaria em Trump; eleitores de Trump têm horror dos eleitores de Hillary. No Brasil, o PT foi demonizado; já o PT descarta qualquer crítica a seu período no poder como golpismo. E assim caminhamos rápido para lugar nenhum.
Cada vez mais, os eleitores pelo planeta afora estão escolhendo a notícia boa. Aí é que mora o problema. Aumenta a cada dia a probabilidade de elegermos o candidato mais histriônico e mais divisivo, o que promete soluções simples para problemas complexos, toda solução cabendo em Tweet, toda declaração planejada para viralizar. Se Trump não leva desta vez, pode levar na próxima. Se não ele, alguém parecido ou pior. Personagens a la Trump começam a chegar ao poder em outros países. No Brasil, em 2018, porque não?

A premissa da Democracia é o diálogo, a solução negociada para os conflitos, o debate informado. Só é possível entre quem quer conversar. Foi transformada pelas redes sociais nessa balbúrdia inútil, que só pode ser vencida no grito. Na prática, Trump - o estilo Trump de política - venceu. E isso é uma péssima notícia.

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