Publicado em 05/12/2016 às 15:22

Ferreira Gullar: infelizmente, imortal

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"Ferreira Gulag". Trocadilho além do prazo de validade? As novas gerações felizmente não sabem o que é "Gulag", os campos de concentração soviéticos para onde eram despachados os opositores do regime, frequentemente viagem só de ida.

Mas é piada precisa como só certos trocadilhos bobos conseguem ser - é de hoje, ou de alguma madrugada esfumaçada de nicotina e vapores alcoólicos, nos longíquos anos 80? O epíteto para o poeta pipocou prontinho quando sua morte foi noticiada, Gullar instantaneamente canonizado, que é como a gente enterra os célebres da nação.

As novas gerações felizmente também não lembram do pobre Brasil do finzinho da ditadura, quando Ferreira Gullar aspirava a personagem pop. Era desses que sempre tinham um comentário a fazer sobre tudo, figurinhas fáceis nos segundos cadernos dos jornais. Um Caetano menor, um Gabeira das artes. Famosinho a ponto de ser constantemente zoado pela turma do Planeta Diário, "Ferreira Gullar, poeta e gato".

Ninguém leu, lê ou lerá sua poesia. Impopularidade não é demérito. Mas impressiona a repercussão de sua morte. Um passeio pela biografia de Gullar explica melhor que um mergulho em sua obra.

No comecinho dos anos 50 Gullar mudou-se para o Rio. Para um jovem intelectual maranhense seguia (e seguiria sempre) sendo a capital cultural do país. Colou nos influentes da época, principalmente Mário Pedrosa, o único crítico de arte que importava.  Abrigou-se no jornalismo, como tantos de nós que temos mais ambições do que noção do que fazer com a vida. Começou pela área mais previsível e burocrática do jornalismo: revisor da revista o Cruzeiro.

Sua poesia era a abençoada pela melhor crítica internacional e brasileira da época, "concretista". Não demorou para rachar com o pioneiro grupo concretista de São Paulo, por uma questiúncula teórica. Tentou impôr a própria ortodoxia, mas seu grupo no Rio era de artistas plásticos - café pequeno para os paulistanos Augusto e Haroldo de Campos e para Décio Pignatari. Faria carreira curta na imprensa, o suficiente para conseguir seu primeiro carguinho público, no governo, imagine, de Jânio Quadros, diretor da "Fundação Cultural de Brasília". Era 1961.

Nos anos seguintes foi "radicalizando" para a direita da esquerda, o Partido Comunista, a esta altura já esclerótico e desmoralizado há décadas - mais recentemente pela invasão da Hungria, 1956. Tornou-se uma das figuras centrais, e logo presidente, do Centro de Cultura Popular da UNE. Era passar recibo de irrelevância entre escritores sérios, mas tornou-se figura de frente na "arte engajada" que importava naquele momento. O CPC, antro autoritário de comissários da cultura, era mais que engajado: era partidário mesmo.

Para o CPC, as únicas manifestações artísticas aceitáveis eram a denúncia do capitalismo ou a propaganda comunista. Esse restolho da pior fase do regime soviético infestaria por décadas a cultura brasileira, "patrulha ideológica" e companhia. Ou estás conosco ou com os imperialistas, companheiro...

Com o golpe militar, Gullar iria (já em 1971) se asilar na União Soviética, o túmulo do socialismo sob Brejnev. Depois, perambulou por capitais da América Latina. Da Argentina mandou seu "Poema Sujo" contra a ditadura militar.

De volta ao Brasil abrigou-se, como tantos supostos revolucionários de ontem e hoje, sob as asas do establishment. No Rio significava e significa a Rede Globo. Lá co-assinou com velhos companheiros do Partidão roteiros de novelas e seriados. Era da turma. E era da MPB. Seus joguinhos de palavras inspiram muitos desses Arnaldos Antunes e companhia.

Como tantos de nossos artistas, não se negava a assumir uns carguinhos públicos. Depois de servir a Jânio, serviu entre 92 e 95 como presidente do Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, que voltou a chamar de Funarte. Chamava-se na época "mudar o sistema por dentro", com os resultados que todos conhecemos.

Colunista da Folha de 2005 até sua morte, tornou-se cruzado de primeira hora contra o governo petista. O Partido Comunista nunca perdoou Lula, que acusava de agente da CIA desde os anos 70. Não ouvimos palavra de Gullar contra os inimigos de Lula, muito menos contra os patrocinadores da novíssima geração de polemistas-colaboracionistas da imprensa nacional.

Coerente até o fim, sua última coluna de jornal despacha Marx para a lata de lixo da história, em busca de uma sociedade igualitária que não incomode o Capital.

Os últimos anos de Gullar foram coroados por sua descida à catacumba da intelectualidade brasileira, a Academia Brasileira de Letras, onde fez par com o conterrâneo José Sarney. Era, enfim, "imortal".

Sua obra - poesia, crítica, teatro, jornalismo - foi fundamentalmente passaporte para uma carreira como intelectual público. A crítica especializada que julgue sua permanência, passados os alinhamentos ideológicos do século 20. É assunto que só a ela importa.

O fardão não lhe faria falta. A vida de Ferreira Gullar segue sendo a trajetória dos sonhos do intelectual público brasileiro. Ferreira Gullar morre; o espírito estalinista que o animou segue entre nós, estéril, imortal.

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