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O que não é arte? (estrelando o Pantera Negra e Ta-Nehisi Coates)

Postado por admin em 15 de dezembro de 2016 às 18:39 em Sem categoria | Nenhum comentário

ta nehisi feature art 1024x575 O que não é arte? (estrelando o Pantera Negra e Ta Nehisi Coates) [1]

Ta-Nehisi Coates ganhou o "Genius Grant" da fundação MacArthur em 2015. É dado para umas vinte pessoas por ano. É a coisa mais próxima de um atestado de Gênio que alguém pode levar nos EUA, e vai junto uma boa grana também, 625 mil dólares. Também é vencedor de vários prêmios literários importantes.  Nada mal para um jornalista de 41 anos com só dois livros publicados, sendo que o primeiro suas memórias, e o segundo uma carta para seu filho.

Mas os dois livros têm como tema central o racismo nos Estados Unidos de hoje. É o foco da carreira e da reputação de Coates. O que faz dele um autor recomendável para quem se interessa pelo tema, e obrigatório nos cursos de humanas das universidades americanas.

Ou seja: eu jamais leria Coates se ele não tivesse escrito o gibi mais vendido da Marvel no ano de 2016. É "Pantera Negra", o mais importante e interessante super-herói negro dos quadrinhos, que em breve terá sua própria superprodução nos cinemas. Contratar Coates foi jogada de marketing certeira da Marvel, que como todas as divisões da Disney investe bastante na imagem de corporação-amiga-da-diversidade. A série foi bastante promovida e teve a repercussão mais bajulatória possível (a ilustração deste post é de uma matéria da Wired e faz de Coates a identidade secreta do Pantera Negra...).

Para tornar a história ainda mais sedutora, o pai de Coates era um Pantera Negra de verdade. Um militante negro da pesada, nos anos 60. Por isso Coates tem esse nome exótico, núbio, que significa "terra dos negros". Em uma entrevista, contou que era muito fã de quadrinhos e de RPG quando moleque. Somando tudo, e sabendo que a arte do gibi seria do sempre confiável Brian Steelfreeze, não resisti a ler o primeiro volume do Pantera Negra de Coates, 144 páginas.

O personagem, se você não conhece, ou só viu sua aparição no filme "Capitão América - Guerra Civil",  é T´challa, rei de um pequeno e superdesenvolvido país africano, Wakanda. Caso único na África, Wakanda jamais foi conquistado por nenhum invasor. Seu povo é treinado para a guerra e para a ciência. Contam com um recurso natural sem igual, o metal Vibranium, base de uma tecnologia única, utilizado também para construir armas - e a própria "armadura" de herói do Pantera Negra. T´challa já foi apresentado assim, como o rei africano de um país africano supertecnológico, na sua primeira aparição em um gibi do Quarteto Fantástico de 1963, assinado por Stan Lee e Jack Kirby, os maiores criadores de super heróis da história.

O Pantera Negra tem uma longa carreira no super-heroísmo, mas nunca teve uma série que prestasse de verdade até os anos 90, quando emendou duas ótimas. A primeira, assinada por Christopher Priest e Mark Texeira, tirou T´challa da selva e o botou na selva urbana, Nova York, como se fosse Shaft ou um desses black power perigosos dos anos 70. A segunda, escrita pelo diretor de cinema Reginald Hudlin e ilustrada pelo poderoso John Romita Jr., ampliou a mitologia de Wakanda e fez do Pantera Negra um personagem à altura dos nomes mais famosos da Marvel.

Minha expectativa era que Coates lesse essas duas séries e desse o passo lógico seguinte. Usasse  sua experiência jornalística e foco ensaístico, para no gibi iluminar as questões raciais que ainda hoje dividem a América e o mundo. E, naturalmente, contasse uma história emocionante, e cheia de ação. Porque é um gibi de super-herói, ué.

Mas escrever um gibi decente, que seja fiel ao espírito do personagem, o que inevitavelmente exigiria enfrentar a questão racial, é pouco para nosso Coates. Assim, decidiu discutir também o embate tradição e tecnologia. O problema dos refugiados e a herança do colonialismo. Também tem um drama familiar ali. Sem esquecer a luta de classes (com direito a citação de Hobbes). E, claro, há que privilegiar a questão de gênero - e assim o autor transfere o protagonismo do Pantera Negra para um casal de guerreiras lésbicas, que se tornam líderes de uma rebelião etc.

Coates verga sob o peso de sua ambição, completamente desproporcional à sua experiência com quadrinhos. E aos próprios quadrinhos de super-herói, que não são exatamente a melhor plataforma para vôos filosóficos, sociológicos, psicológicos, pedagógicos desta altitude. O problema não é a pauta de Coates (embora ela seja bem esquerdinha esquemática, ligue-os-pontos). Até porque os gibis Marvel sempre foram muito permeáveis às questões de seu tempo, dentro de seus limites. Tudo que nosso frágil mundo não precisa é de censores exigindo escola sem partido, arte sem partido, vida sem partido. O que precisamos é o contrário:  tomar partido.

O ponto é outro. Pantera Negra não funciona como gibi, e assim não funciona como debate, nem como propaganda. Podemos discutir até amanhã o que é arte, mas antes é necessário estabelecer o que não é. Arte não é púlpito, cartilha ou manual de etiqueta. Nem mesmo uma arte populista, rastaquera, corporativa como gibis de super-heróis Marvel. Não precisa ser um Gênio para entender isso.

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