Publicado em 21/12/2016 às 13:57

Os melhores livros que eu li em 2016 (e você não)

maya 705x1024 Os melhores livros que eu li em 2016 (e você não)

Vladimir Mayakovsky

Os melhores livros que li em 2016 não foram traduzidos para o português. Talvez nem sejam.  Nossa pobre indústria editorial foi varrida em 2016 por uma tempestade perfeita. Foram por água abaixo as compras governamentais e os editais. As distribuidoras e livrarias  "ou não distribuem, ou não vendem, ou não pagam", me conta um amigo editor. O leitor está cada dia mais pobre. E 2017 há de ser pior.

É verdade pra ficção, mas ainda para não-ficção. Especialmente se contra a corrente. Resta ler no original, sempre a um clique de distância. O que há de mais importante para aprender  do que inglês? É a língua franca do século 21, a língua internacional da ciência, da arte, da grana.

O Brasil sempre foi de pouca leitura. Nos próximos anos, rolaremos morro abaixo, pelo descalabro na educação, pela recessão permanente, pelo crescente encanto dos smartphones e redes sociais. Sobrarão alguns leitores, mas a tendência do livro é virar disco de vinil, artefato vintage para colecionadores.

Enquanto isso leio, e aliás espero morrer com um livro na mão, a imagem acabou de me ocorrer, e não me deixará mais. Esse ano li pouquíssima ficção, como sempre em absoluto descompasso com os lançamentos do ano. Ando lendo quadrinho pra caramba, o que sacia bem minha sede por histórias inventadas.

Tem muito quadrinho brasileiro bom. Gringos, depois que comprei um tabletão, ler gibi passou a ser um prazer maior ainda, e instantâneo, clicou comprou. Em janeiro faço uma lista só de quadrinhos bacanésimos que li em 2016, que tal? E também ficam pra depois as preciosidades que  garimpei esse ano, nas estantes do meu sebo favorito, o Desculpe a Poeira.

De mais "normal", inesperadamente li vários livros sobre música, que ouço muito mas nunca rende leituras. Li com proveito Eu Não Sou Cachorro, Não (Paulo César Araújo), Magneticos 90 (Gabriel Thomaz e Daniel Juca), Rick Bonadio (Rick e Luiz Carlos Pimentel), Viva La Vida Tosca (João Gordo e André Barcinski) e Meninos Em Fúria (Marcelo Paiva e Clemente). Barcinski garante que a biografia do Bruce Springsteen é maravilhosa e assino embaixo sabendo que jamais lerei.

A temporada foi convidativa para ler ficção científica: Warren Ellis (Normal), Paolo Bacigalupi (The Drowned Cities), William Gibson (The Peripheral) e Bruce Sterling (Black Swan, Pirate Utopia). Comprei uma nova edição (de uns dez anos atrás) da história da ficção científica do Brian Aldiss, só por causa dos novos capítulos finais, The Trillion-Year Spree. Acabou de chegar Sci-Fi Chronicles: A visual history of the Galaxy´s Greatest Science Fiction, 575 páginas, meu presente de Natal.

Recomendo muito a edição comemorativa de quinhentos anos de A Utopia, de Thomas More. Já tinha lido A Utopia umas dez vezes, mas essa edição ficou demais. Tem introdução do China Miéville, que te fará ver o livro de maneira completamente diferente (!), e ensaios finesse da Ursula K. LeGuin. E, sim, A Utopia é ficção científica.

Li Julian, de Gore Vidal, biografia em primeira pessoa do  apóstata. Não chega perto de Criação, outro romance de Vidal que se passa na antiguidade, perfeitamente perdoável porque Julian foi escrito vinte anos antes. Mesmo assim é delicioso, uma farsa épica sobre o imperador acidental que troca suas pretensões intelectuais pela certeza de um destino manifesto. Dá para perceber que Vidal escreveu na Itália, para onde foi dar um trato no roteiro de Ben-Hur e para onde acabou se mudando. Emendei SPQR, uma história supreendente das partes que interessam do Império Romano, da Mary Beard.

Também tracei a coletânea de colunas de Vidal para a revista The Nation, baluarte da esquerda americana, um monte de assunto velho, mas velho que eu vivi, e vai escrever bem assim em Ravello. E um livro fotográfico dele, Vidal In Venice. Adoro Veneza e já li paca sobre a cidade (leia Venice do Peter Aykroyd), mas não resisti à verve do velho.

Reli The Shock of The New, do Robert Hughes. A minissérie foi minha introdução audiovisual ao tema "arte moderna" na TV Cultura quando eu tinha uns 16 anos. Continua brilhante. Li sobre arte russa, a maioria edições russas, bilíngues. Continuo ignorante, o troço é imenso, e nós no Ocidente não manjamos nada. O beabá são os livros sobre as coleções da galeria Tretyakov e do Hermitage, nos dois casos divididos entre arte pré e pós revolução soviética. Tem Ilya Repin e outros realistas maravilhosos do século 19. Tem uns simbolistas sensacionais. Tem Tatlin e o grupo futurista/construtivista e companhia, e aquela baita explosão de criatividade dos primeiros anos da revolução, antes de Stalin impôr o realismo socialista, Mayakovsky, Rodchenko.

E tem a curiosíssima vanguarda pós segunda guerra, não-abstrata, totalmente diversa do mainstream artístico do Ocidente. Com o tempo os artistas russos foram criando sua própria pop art, e op-art e street art e tal, dentro daquela caretice cinzenta de Brejnev. História fantástica. Aliás, a história da Rússia é fantástica em geral. Nós tínhamos uma visão parcialíssima sobre o país quando era URSS, e continuamos míopes na era Putin. Para contrabalançar um pouco o viés americano, a sugestão é A Concise History of Russia, do especialista Paul Bushkovitch.

Na mesma onda curti Militant Modernism, que defende que a pulsão revolucionária do modernismo foi castrada pelo capitalismo e pelo stalinismo.  Owen Hatherley escreve sobre Brecht e Reich e brutalismo e construtivismo como se fosse uma crítica de banda estreante na Melody Maker em 1982. Owen advoga a relevância da atitude modernista para o século 21 com uma perspectiva não-rancorosa e completamente livre de picuinhas autovitimizantes.

Uma experiência intrigante foi reler todos os contos de Jorge Luiz Borges - mas agora em espanhol, 456 páginas, a obra completa em ordem cronológica. Perco umas palavras, mas é hipnótico. A edição é da Sudamericana. Imagino o paraíso como uma biblioteca, como ele...

Reencontro igualmente enriquecedor foi com Sartre, Camus e turminha, graças a Sarah Bakewell e seu At The Existentialist Café. O livro não encanta como o anterior de Sarah, How To Live Well, mistura de auto-ajuda com os Ensaios do meu ídolo Michel de Montaigne. Pulei umas tretas bizantinas entre os protagonistas. Mas os existencialistas respiram.

Sobre a grande surpresa política de 2016, não foi surpresa para minha assessora especial para assuntos econômicos. Ela recomenda muito Dark Money: The Hidden History of The Billionaires Behind the History of the Radical Right, que segundo ela explica Trump e a massacrante vitória republicana no Congresso. Não li mas vou por ela.

Finalmente, seguem abaixo os quatro melhores livros do ano sobre política/economia/tecnologia/inovação/mudança climática /desigualdade / renda mínima. Que, claro, é tudo o mesmo assunto. Um título com ênfase um pouco mais pra cá, outro mais pra lá. Leia todos em 2017. Está em tempo.

Antes, menções honrosas para And the weak suffer what they must? Europe´s Crisis and America´s Economic Future, do ex-ministro das Finanças da Grécia, e rockstar da esquerda européia, Yannis Varoufakis; Throwing Rocks at the Google Bus: How Growth Became the Enemy of Prosperity, de outro astro pop, Douglas Rushkoff; e Inventing the Future: PostCapitalism and a World Without Work, de Nick Smicek e Alex Williams.

Utopia for Realists: The case for a Universal Basic Income, Open Borders and a 15-Hour Workweek, Rutger Bregman

Não há emprego para 7 bilhões de humanos, que dirá para os 9 bilhões que seremos em algumas décadas. Isso é óbvio e ululante. Tanto que esse assunto dominou as discussões políticas de ponta em 2016, dos libertários do Silicon Valley aos jovens radicais da esquerda européia: a renda mínima universal. É, como sempre defendeu Eduardo Suplicy... temos máquinas para trabalhar pra gente; falta desvincular renda de trabalho. Como? O holandês Bregman explica, com clareza jornalística.

This Changes Everything: Capitalism versus the Climate, Naomi Klein

Tijolaço da ex-musa dos protestos. Klein, apesar da visão de ongueira bem nascida, vai ao cerne da questão ambiental: o que está causando  mudança climática de nossa era não é o carbono e não são os humanos - é o Capitalismo. Sepulta iniciativas individuais, "consumo consciente" etc. Empilha evidências da impossibilidade de  mudar nosso destino dramático (e bicho, é DRAMÁTICO) sem mudar a maneira que organizamos nossos esforços e exploramos nossos recursos. Na última página, você estará convencido de que não dá pra enfrentar a mudança no clima sem enterrar o Capitalismo.

Post Capitalism, Paul Mason

Bem, e depois do Capitalismo vem o quê? Mason, ex-colunista de Economia da BBC e Channel 4, responde de maneira provocativa e convincente. Argumenta que a revolução digital coloca o Capitalismo em cheque, porque a megadistribuição de conhecimento (que é ilimitado) solapa a concentração de propriedade (que é limitada). Tem outros vetores aí: automação, inteligência artificial e coletiva, crise climática... Mason, formação marxista e cabeça independentíssima, escreve que é uma delícia.

E agora juntando todos esses temas políticos com inovação e com ficção científica, recomendo muito Four Futures, do Peter Frase. Ele é editor do site Jacobin.com. O livrinho propõe quatro alternativas de futuro, organizadas em dois eixos: riqueza e distribuição. Em um futuro, temos muita riqueza bem distribuída; outro, pouca riqueza bem distribuída; muita riqueza mal distribuída, e pouca riqueza mal distribuída.

São dois socialismos e duas barbáries. Não é previsão sobre o amanhã: é reflexão sobre o agora. Incomoda reconhecer o Brasil na sua descrição do Exterminismo, em que "os pobres não são mais recurso a ser explorado, só uma inconveniência ou um perigo." Mas é onde estamos, e ainda não sabemos para onde vamos.

Importante: você está proibido de baixar versões pirata desses livros. É roubar de gente como a gente, não de milionários. Seja grato a quem compartilha com você grandes histórias, grandes idéias. Decidir que esses autores merecem seu tempo é decidir que eles merecem seu dinheiro...

http://r7.com/_59Q

Ir para o Topo