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A solução para as prisões é liberar as drogas e libertar os presos

Postado por admin em 6 de janeiro de 2017 às 15:20 em Sem categoria | Nenhum comentário

 A solução para as prisões é liberar as drogas e libertar os presos [1]

Talvez você não se importe muito quando acontece uma chacina na cadeia, como essas na Amazônia. Afinal, é um bando de bandidos. Não farão muita falta para o Brasil. Talvez até ache que eles mereciam morrer. Acontece que a violência na cadeia é só o reflexo de um problema muito maior, que é a violência na sociedade. E a solução para vencermos a violência no Brasil, dentro e fora das cadeias, é exatamente a mesma. E não é o que você imagina. Tem dez minutos? É o suficiente para você ver as coisas como nunca viu antes.

A maioria dos presos no Brasil são jovens, pobres, negros e ignorantes. Do total,  56% têm entre 18 e 29 anos, 67% são negros, 53% têm o curso fundamental incompleto. Indo um pouco mais fundo na escolaridade (que será importante no final desse texto), temos também 11% de ensino médio incompleto e 6% de analfabetos.

Eles estão na cadeia principalmente por quatro razões: 27% por tráfico, 21% por roubo, 14% por homicídio, 12% por furto (esses são os percentuais entre os homens, que são a maioria dos presos; as mulheres têm números diferentes; a maioria está presa por tráfico, poucas por crimes violentos). A maior parte dos presos por tráfico é por traficar uma quantidade muito pequena de drogas. E também sabemos que uma parte enorme dos roubos, homicídios e furtos são ligados justamente ao tráfico.

Imagine por um segundo que as drogas são legalizadas no Brasil. Viram um produto que faz mal para a saúde como qualquer outro, como álcool, café e cigarro.  Em momentos diferentes da história, o café, o álcool e o tabaco foram ilegais. Hoje, este trio movimenta bilhões e têm sua produção e consumo liberados e /ou regulamentados.

Fazem mal pra saúde? Bem? Não é o ponto. O ponto é que se eu tomar dois litros de café por dia e tiver uma baita gastrite a vítima sou eu. Estou no meu direito. Temos tanto direito de consumir droga quanto fumo, álcool, café. Cada ser humano tem direito de fazer o que bem entender com o seu corpo. E nada com o corpo alheio, a não ser com autorização do outro. Não se trata de defender o uso de drogas, e sim a liberdade de cada pessoa decidir.

As pessoas querem e pagam caro por drogas. A ilegalidade só alimenta o crime. Vamos vender droga no supermercado com embalagem bacana, na farmácia, na balada. Dá para cobrar mais barato que hoje e ainda cobrar impostos altos e encher os cofres públicos – podemos botar todo esse imposto para construir hospitais e creches e escolas, em vez de cadeias, que tal?

O impacto da legalização seria gigantesco. Seria o fim do tráfico e das facções criminosas. Cairiam automaticamente roubo, homicídio e furto. Diminuiria a corrupção na polícia. Aumentaria muito nossa segurança.

Se as drogas passam a ser legais, a decisão lógica é anistiar os presos por tráfico. Liberdade para eles e para quem cometeu pequenos furtos, pequenos crimes ligados ao tráfico. Tornozeleira resolve. Cana para quem cometeu crime de verdade e só. E cana de verdade para esses empreiteiros e políticos que fazem delação premiada...

Parece impossível? Impossível é a gente continuar convivendo com essa violência, essa insegurança cotidiana, sessenta mil assassinatos por ano. E jogar bilhões de reais fora com essa política de repressão às drogas que não funcionou em lugar nenhum do mundo. O Brasil tem 600 mil pessoas na cadeia e continua sendo o maior consumidor de crack do planeta, e o segundo maior de cocaína. Só estamos atrás dos Estados Unidos, justamente quem inventou essa “guerra às drogas”. Por isso, aliás, é que os EUA começam a legalizar as drogas, começando pela maconha, que hoje tem consumo liberado em diversos estados.

Finalmente, uma questão importante: se a gente liberar as drogas, e soltar os presos, o que eles vão fazer nas ruas, se não puderem voltar a traficar? Bem, felizmente já descobrimos a solução para esse problema também. Nós vamos dar dinheiro para eles. E a maioria deles não voltarão ao crime.

O planeta Terra hoje tem sete bilhões de pessoas. Em algumas décadas seremos nove bilhões. A maioria dos que virão vão nascer em lugares pobres, e terão justamente o perfil dos nossos presos: jovens, pobres, negros, com baixa escolaridade.

Já não temos emprego pra todo mundo hoje, em 2017. É evidente que não teremos emprego para mais esses dois bilhões de pessoas. E com o avanço da tecnologia, e da automação, mais e mais empregos que existem hoje serão eliminados nos anos que virão. Inclusive, provavelmente, o meu e o seu.

É por isso que vários países, instituições e até empresas, da extrema esquerda à extrema direita, estão investigando a Renda Básica. É uma política que transfere dinheiro do Estado diretamente para o cidadão, dinheiro suficiente para cada um viver de maneira modesta. Em vez do Estado dar dinheiro a juros baixos pra empresas, pra tentar gerar empregos, ou criar estruturas inchadas e burocráticas para ajudar a população, simplesmente paga todo mês uma quantia para cada pessoa. E boa.

Segundo alguns estudos, a Renda Básica desestimula a pessoa a se arriscar no crime. E estimula a realizar mais trabalhos não-remunerados, como cuidar da família, das crianças e idosos, da sua rua, sua cidade, do mundo. Além, claro, de liberar nosso tempo para a gente se educar, namorar e ser feliz.

Atenção: se a pessoa arrumar emprego, continua ganhando. Se for pra cadeia, e depois dela sair, continua ganhando o tempo todo. Não é auxílio temporário. É para sempre, incondicional. Dinheiro grátis. Como hoje a vacina, por exemplo, é grátis (se você quer saber mais sobre o assunto, pesquise aí na internet: “Universal Basic Income”). Temos dinheiro de sobra para isso. Os Estados Unidos, para ficar em um caso só, colocaram oito trilhões de dólares na economia mundial desde 2008, dinheiro que antes "não existia". Essa grana foi para salvar os bancos americanos. Dinheiro para bilionários e grandes empresas sempre aparece. Está na hora de pingar um pouco para as pessoas comuns também.

Isso tudo te parece conversa de louco? Loucura é aceitar esse inferno, quando o paraíso está aí, ao nosso alcance. Quem parece louco é o ministro da Justiça, que declarou que a situação nas prisões brasileiras está “sob controle”, semanas depois de afirmar que ia erradicar toda a maconha das Américas...

A violência no Brasil, e nas cadeias brasileiras, é consequência direta das drogas serem ilegais. Vamos legalizar tudo, esvaziar as cadeias, e estabelecer um programa de Renda Básica. O Brasil já tem uma iniciativa importante nesse sentido, o Bolsa-Família. É urgente e estratégico ampliá-lo radicalmente. Para começarmos a fazer justiça. E algum dia, termos paz.

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