Publicado em 30/01/2017 às 15:25

“Pssica”: um livro escrito em vermelho-sangue

pssica Pssica: um livro escrito em vermelho sangue

“Pssica” dói da primeira à última página. São poucas, noventa e seis. Tentador e impossível ler em uma sentada só. Edyr Augusto escreve em carne viva.

O livro é populado por gente violenta, vivendo e morrendo violentamente - e arrastando inocentes para o inferno. Pai carola, tio safado, amiga traíra, marido apaixonado. Escrava sexual, prefeito, traficante, jagunço, radialista. "Ratos d´água", piratas dos rios. Da selva urbana de Belém ao faroeste de Marajó, dos igarapés infinitos ao garimpo, ao Suriname, a lugar nenhum.

O livro é de 2015. Teve tiragem pequena e boas críticas. Um amigo recomenda a outro, como um presente. Cuidado: não é noir de boutique. Nem "literatura". Não embalará festivais descolados. Rescende a suor, diesel, cachaça, cocaína. A referência mais comum é Rubem Fonseca, mas o parentesco é distante. Em entrevistas Edyr cita autores que admira, e que não fazem parte do repertório habitual da crítica brasileira, como Elmore Leonard, Denis Lehane. E James Ellroy, que também é mestre da narrativa dura e delirante.

Mas onde Ellroy é épico, Edyr é cotidiano. É só seu o cipoal de narradores, brasileiros de carne e osso. É só seu o mergulho no turbihão amazônico. Impiedoso, explicou ao Estadão porque não alivia para personagem nenhum: "Viver é difícil. Viver é perigoso." Leia a entrevista com Edyr na Vice. Ele já ganhou prêmios e foi publicado no exterior. Escreveu outros cinco livros, sempre publicados pela Boitempo. Compre todos aqui.

"Pssica" é uma viagem sem volta ao inferno verde, ao Brasil manchado de sangue. Olhe aqui, exige Edyr, e não conseguimos desviar os olhos dos milhões brutalizados pela miséria, os sessenta mil assassinatos por ano, as favelas, cadeias, puteiros. "Pssica" é gíria para mau olhado. Amaldiçoa nosso eterno país do futuro, eternamente escravocrata. "Me salva", implora a protagonista do livro, Jane, inesquecível. Mas no Brasil ninguém está a salvo. É um destino que Edyr Augusto entende - e enfrenta.

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