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Teori, Eike, Temer, Carmem Lúcia: a hora de virar a mesa

Postado por aforastieri em 31 de janeiro de 2017 às 19:20 em Sem categoria | Nenhum comentário

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Sabemos hoje o mesmo que sabíamos no dia que Teori Zavascki morreu. O avião caiu. O juiz e os outros morreram. Foi a chuva, falha mecânica, barbeiragem do piloto? A Aeronáutica divulgou laudo dizendo que os dados extraídos do gravador "não apontam qualquer anormalidade nos sistemas da aeronave." Foi assassinato? São dezenas, talvez centenas de pessoas que se beneficiaram da morte dele. Estão sendo investigados?
Não sabemos. Já mudamos de assunto. Agora é Eike Batista. A careca. A cela. O que ele almoça e janta. A reação dos filhos. Luma nas redes sociais. A prisão de Eike vem no momento perfeito para nos fazer esquecer Teori. Tirar o foco dos "acordos" da União com o Rio, que força arrocho no funcionalismo e privatização (e outros Estados estão na fila). Distrai da reeleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. Do acordo no Senado, com Eunício de Oliveira, o tesoureiro do PMDB, na presidência, e Renan como líder do governo.
Para não falar das "reformas" que nos aguardam, da Previdência para começar. Da ajuda bilionário às teles, da Operação Oi... a lista vai longe.
Distrai, principalmente, de Carmem Lúcia Antunes Rocha, presidente do Supremo Tribunal Federal, sempre elogiadíssima, reservada, discreta, técnica, teve até Caetano Veloso cantando para ela quando foi empossada...
Carmem Lúcia homologou as 77 delações premiadas da Odebrecht. Mantém sigilo sobre todas. O procurador geral da República, Rodrigo Janot, não pediu a suspenção do sigilo. Por quê? Não explica. Nem ela.
O sigilo vai até quando? É difícil e fácil responder. Em casos anteriores Janot pediu a Teori que fosse suspenso o sigilo. No caso de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, foram só vinte dias. No caso do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, foram 166 dias.
Agora são 77 delações, só da Odebrecht. Podem demorar vinte dias, 166 dias, mais, menos. Podem ficar pro dia de São Nunca. A delação de Otávio Azevedo, ex-executivo da construtora Andrade Gutierrez, foi homologada em 6 de abril de 2016. Até agora seu conteúdo é secreto.
E é facílimo responder. O sigilo vai durar o tempo necessário para que vazamentos seletivos abatam os inimigos políticos do governo. Até que acordos sejam feitos para que os poderosos citados nas delações negociem saídas. Até que a missão do atual governo seja cumprida.
Atenção: o governo não é o Planalto. O governo é o amálgama de interesses entre o Executivo, Legislativo e Judiciário. O que os une é a submissão ao grande Capital e a compreensão que a maioria dos brasileiros não tem noção do que acontece no Brasil, nem imaginação para sonhar com outro país, e muito menos energia para construi-lo. O que move o Brasil é a inércia.
Foi nessa prostração, na falta de proteína do nosso povo, que apostaram os governos que se seguiram à ditadura, do PSDB e do PT. Os únicos partidos de verdade do país, porque orgânicos, representantes de grupos sociais de verdade. Governaram com o pior da política brasileira. Enricaram os ricos, deram umas esmolas para os pobres, garantiram sua parte. Lambuzaram-se. É o habitual em política, aqui e em qualquer lugar - aqui com mais ganância e descaramento, talvez.
Quando a economia global virou, o cobertor encurtou. Alguém ia ter que pagar a conta. Temos uma elite ultra-privilegiada: não paga impostos, nem na jurídica, nem na física; nem imposto de herança. Tem os maiores rendimentos do planeta Terra, bastando manter seu dinheiro no banco, emprestado ao governo, que é seu empregado. Assim se empurrou a conta para a classe média, os pobres e os miseráveis. É o que Dilma fez. É o que Temer faz, de maneira ainda mais cruel e inconsequente, começando pela PEC do Teto, chamada pela ONU de "o mais radical pacote de austeridade do planeta".
O impeachment teve outras três funções importantes. A primeira foi exterminar o PT, o que foi feito (com a devida colaboração do próprio PT, que desperdiçou seu capital simbólico e seu mandato histórico). Falta retirar os direitos políticos de Lula, o que inevitavelmente virá ainda em 2017.
A segunda missão da conspiração era, com a desculpa de que o país e os estados estão "quebrados", forçar privatizações a toque de caixa. A preço amigo, para empresas amigas, e naturalmente com as devidas comissões enchendo os devidos bolsos. É o que está acontecendo. E o terceiro objetivo era minimizar os estragos da Lava Jato.
É evidente que os políticos no Executivo e no Legislativo não tinham como fazer tudo isso sem a colaboração do Judiciário. Mas a História é dinâmica, seus atores são múltiplos, e quanto mais complexa a sociedade, maior a probabilidade dos melhores planos darem com os burros n´água.
O Brasil não seguiu o roteiro previsto. Nem na economia e na política, que seguem afundando, nem na Justiça. A Lava-Jato é um pequeno e patético passo na direção de um Brasil mais transparente; a turma de Moro, messiânica e parcial; mas bem melhor que nada. E ver na cadeia Marcelo Odebrecht, Eike, Cunha etc. deve tirar o sono de muitos bacanas.
Que bacanas? Não sabemos. É sigilo...
Das 77 delações, conhecemos os nomes citados em apenas uma delação. Alguns famosos: Aécio, Pallocci, Romário, Skaf, Renan, Mantega, Geddel, Romero Jucá, Eliseu Padilha, Kátia Abreu, Eunício Oliveira, Rodrigo Maia. Entre os que ocupam cargo no governo: Antônio Imbassahy (novo secretário de governo de Temer), Bruno Araújo (Ministro das Cidades) , Kassab, Moreira Franco... e Temer. Faltam 76 delações. Imagine o que vem - ou viria - por aí.
Além de manter sob sigilo as delações, Carmem Lúcia faz suspense sobre o método que usará para selecionar o novo relator da Lava-Jato. A maioria aposta que ela vai optar pelo sorteio. E é muito provável que somente entre os integrantes da Segunda Turma do STF: Gilmar Mendes, Toffoli, Lewandoski e Celso de Mello. Nenhum especialmente fã da Lava Jato, para dizer o mínimo. Mesmo que fosse entre os dez integrantes do plenário, a perspectiva é nada animadora - ainda mais considerando esse sigilo sem fim e sem lógica.
A cereja no bolo: nesta quarta-feira, no mesmo dia que Carmem Lúcia determina como será a escolha do relator, também está na sua mesa uma ação que pode... transformá-la em Presidente da República.
É a ação da Rede Sustentabilidade, que questiona se um réu no STF pode ocupar a linha de sucessão da presidência. O julgamento foi inciado no dia 3 de novembro. O relator, Marco Aurélio Mello, e outros cinco ministros votaram pela impossibildade de haver réus na linha sucessória. Réus como... Rodrigo Maia e Eunício de Oliveira. Se o STF seguir nessa linha, em caso de afastamento de Temer, quem assumiria a presidência seria a presidente do STF, a própria Carmem Lúcia. É um caso chocante conflito de interesses, mas a gente não se choca com mais nada.
O que faria Teori se estivesse vivo? Jamais saberemos. Felizmente para um grande número de poderosos, ele está morto.
O conluio Executivo-Legislativo-Judiciário botou suas cartas na mesa. Ao que parece, a jogada é empurrar com a barriga a Lava-Jato, aprovar as "reformas" que der, privatizar tudo voando e chegar até 2018 fora da cadeia e com os bolsos cheios. Se a situação fugir do controle, e Temer perder o mandato, improvável, assume - veja só - Carmem Lúcia.
Com ela ou com Temer, em 2018 tem eleição e em 2019 teremos outro governo. Que será o mesmo governo. Porque será o mesmo STF e os mesmos políticos, obedecendo aos interesses dos mesmos poderosos. E segue a farsa...
São cartas marcadas. Difícil virar o jogo. Talvez o melhor seja virar a mesa.

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